A Comissão Europeia reviu em baixa as suas projeções para a economia portuguesa este ano e antecipa uma recessão de 9,8%, maior do que a contração esperada para a média da zona euro e muito longe do valor apontado pelo Governo, segundo as “Projeções de Verão”, divulgadas esta terça-feira.
Quanto a Portugal a revisão foi ainda mais acentuada e a Comissão já não admite que a economia portuguesa possa contrair menos do que os parceiros e afasta-se da primeira projeção de uma queda de 6,8% do PIB, um valor que até agora tinha servido de argumento ao ministro das Finanças João Leão, para defender o cenário macroeconómico que usou para retificar a lei do Orçamento do Estado.
Bruxelas sublinha ainda o impacto da pandemia e das medidas de saúde pública no turismo, o setor “afetado de forma mais dramática, cujas visitas colapsaram em quase 100% em abril, face a um ano antes”.
Recordando que a economia já contraiu 2,3% no primeiro trimestre do ano em termos homólogos (e 3,8% face aos três meses anteriores), a Comissão espera uma deterioração ainda maior no segundo trimestre, na ordem dos 14% em cadeia.
As contrações são “dramáticas na maior parte dos indicadores”, reforça a Comissão, notando a contração abrupta do indicador de sentimento económico dos 105,7 pontos registados em fevereiro (uma marca que apontava para a continuação do crescimento), para 63 pontos em maio, um valor claramente de recessão. Em junho, houve uma recuperação, mas apenas “parcial”, notam os economistas, para 74,1 pontos.
Sobre o mercado de trabalho, a Comissão assinala como ponto “positivo” o facto de a taxa de desemprego se ter mantido no intervalo entre 6,2% e 6,3% em março e abril, associando às medidas de lay-off e considerando que os despedimentos temporários não tiveram impacto imediato.
O pessimismo estende-se ainda às restantes economias europeias, estimando agora para o conjunto da zona euro, uma queda de 8,7%, mais um ponto percentual do que o avançado nas “Projeções de Primavera”, anunciadas em maio último.
De acordo com as previsões económicas do verão de 2020, a economia da zona euro registará uma contração de 8,7 % em 2020 e um crescimento de 6,1 % em 2021. Por sua vez, a economia da UE deverá contrair-se 8,3 % em 2020 e crescer 5,8 % em 2021. A contração em 2020 deverá, portanto, ser significativamente superior aos 7,7 % previstos para a área do euro e aos 7,4 % projetados para a UE no seu conjunto nas previsões da primavera. O crescimento em 2021 será também ligeiramente menos vigoroso do que o projetado na primavera.
Recuperação no segundo semestre de 2020
O impacto da pandemia sobre a atividade económica já foi considerável no primeiro trimestre de 2020, apesar de a maioria dos Estados-Membros só ter começado a introduzir medidas de confinamento em meados de março. Com um período de perturbações e de confinamento muito mais longo no segundo trimestre de 2020, prevê-se que a produção económica se tenha contraído muito mais do que no primeiro trimestre.
No entanto, os dados iniciais relativos a maio e junho sugerem que o pior poderá ter passado. Prevê-se que a recuperação venha a ganhar dinamismo no segundo semestre do ano, embora permanecendo incompleta e desigual entre os Estados-Membros.
O choque para a economia da UE é simétrico na medida em que a pandemia atingiu todos os Estados-Membros. No entanto, tanto a quebra da produção em 2020, como a força da retoma em 2021, deverão diferir acentuadamente. As diferenças entre os Estados-Membros no que respeita à magnitude do impacto da pandemia e ao vigor da recuperação deverão ser mais acentuadas do que o esperado nas previsões da primavera.
Inflação: Perspetivas sem alteração
As perspetivas globais em matéria de inflação pouco mudaram desde as previsões da primavera, embora tenham ocorrido alterações significativas nas forças subjacentes que determinam os preços.
Embora os preços do petróleo e dos produtos alimentares tenham aumentado mais do que o previsto, os efeitos desta subida dos preços deverão ser compensados pelas perspetivas económicas mais desfavoráveis e pelo efeito das reduções do IVA e de outras medidas adotadas em alguns Estados-Membros.
Atualmente, prevê-se que a inflação na área do euro, medida pelo Índice Harmonizado de Preços no Consumidor (IHPC), seja de 0,3 % em 2020 e de 1,1 % em 2021. No que respeita à UE, a inflação deverá atingir 0,6 % em 2020 e 1,3 % em 2021.
Riscos excecionalmente elevados
Os riscos que pesam sobre as previsões são excecionalmente elevados e sobretudo no sentido negativo.
A escala e a duração da pandemia e das eventuais medidas de confinamento que venham a revelar-se necessárias no futuro continuam a ser essencialmente uma incógnita. As previsões partem do princípio de que prosseguirá o levantamento das medidas de confinamento e não haverá uma «segunda vaga» de infeções. Há riscos consideráveis de o mercado de trabalho poder vir a sofrer mais prejuízos a longo prazo do que o previsto e de as dificuldades de liquidez poderem transformar-se em problemas de solvência para muitas empresas. A estabilidade dos mercados financeiros está ameaçada e existe o perigo de os Estados-Membros não conseguirem coordenar suficientemente as suas respostas estratégicas nacionais. A incapacidade de obter um acordo sobre a futura relação comercial entre o Reino Unido e a UE poderia igualmente traduzir-se numa diminuição do crescimento, em especial para o Reino Unido. De um modo mais geral, as políticas protecionistas e um afastamento excessivo das cadeias de produção mundiais podem também afetar negativamente o comércio e a economia mundial.
Existe igualmente a possibilidade de se assistir a uma evolução mais positiva, como a disponibilidade precoce de uma vacina contra a COVID-19.
A proposta da Comissão para um plano de recuperação, centrado num novo instrumento, NextGenerationUE, não é tida em conta nesta previsão, uma vez que ainda não foi acordada. Um acordo sobre a proposta da Comissão é também considerado um risco de uma evolução mais positiva.
De um modo mais geral, não se pode excluir uma retoma mais rápida do que o previsto, especialmente se a situação epidemiológica permitir um levantamento mais rápido do que o previsto das restrições remanescentes .
Reino Unido: uma hipótese puramente técnica
Dado que as futuras relações entre a UE e o Reino Unido ainda não são claras, as projeções para 2021 baseiam-se na hipótese puramente técnica de manutenção da situação atual no respeitante às relações comerciais. Esta hipótese é formulada unicamente para efeitos da elaboração das previsões e não reflete qualquer antecipação ou expectativa quanto aos resultados das negociações entre a UE e o Reino Unido sobre o futuro das suas relações.











