Brexit: Bruxelas e Londres reduzem ‘drasticamente’ a ambição das futuras relações

Nem um relacionamento privilegiado nem um parceiro mais próximo do que qualquer outro. Para a União Europeia é cada vez mais inevitável que o Reino Unido se torne um país terceiro semelhante a qualquer outro a partir de 1 de janeiro de 2021, findo o período de transição do Brexit termina.

As negociações para chegar a um acordo comercial, diplomático e estratégico sem precedentes foram interrompidas esta semana com poucos progressos ou quaisquer sinais de que Londres quer chegar a um acordo ambicioso antes do final do ano.

Os contactos serão retomados em meados de agosto. Mas ambas as partes parecem resignadas a um acordo mínimo que suaviza o impacto da separação definitiva em alguns setores.

Ambos os lados já deram nota da vontade de alcançar um pacto antes do final do ano, mas as posições pouco mudaram nos últimos meses e apenas as acusações mútuas de imporem linhas vermelhas insuperáveis ​​são ecoadas.

Bruxelas receia mesmo que o objetivo de Londres seja tornar-se um concorrente agressivo e não descarta um fracasso total nas negociações e que a relação comercial se deteriore a tal ponto que se torne governada pelas regras da Organização Mundial do Comércio (OMC).

A reunião desta semana em Londres da equipa de negociação europeia, liderada por Michel Barnier e pelos britânicos, com David Frost, chegou ao fim e, segundo fontes consultadas pelo ‘El Pais’, pode estar a conduzir o processo ao fracasso ou, no máximo, a um acordo mínimo para evitar um cataclismo económico e logístico no final do ano.

O hiato de 20 dias no verão ocorreu sem Bruxelas e Londres a vislumbrarem um terreno de entendimento em torno da escala do acordo sobre o futuro relacionamento e nem mesmo no caminho a seguir nas negociações.

A ronda desta semana mal durou dois dias, com reuniões em Londres entre Barnier e Frost e as suas equipas, entre segunda-feira à tarde e terça-feira. Os negociadores despediram-se sem sequer fazer uma avaliação de alguns contactos que ainda não tiveram sucesso.

Se o bloqueio continuar, a UE e o Reino Unido deverão cumprir um acordo mínimo para garantir a fluidez do transporte, mantendo vínculos essenciais em áreas como o setor financeiro, transferência ou cooperação judicial e policial. Mas fontes europeias alertam que mesmo essa solução pode ser temporária e ruir numa questão de meses se o Reino Unido não acordar um pacto estável e de longo alcance.

Londres diz que ainda quer um acordo de livre comércio, semelhante ao que a UE concordou com o Canadá. Mas Bruxelas considera esse modelo inadequado e injustificado para um país que fica a apenas 32 quilóômetros da costa europeia e que poderia explorar o mercado interno europeu em níveis praticamente impossíveis para parceiros comerciais da UE muito mais remotos, como Canadá, Japão ou Coreia do Sul.

A UE, por seu turno, exige que o Reino Unido controle estritamente os auxílios estatais e se alinhe aos padrões sociais ou ambientais como condição para aceder a um mercado de mais de 450 milhões de pessoas. É essencial para a UE garantir essa concorrência em pé de igualdade (igualdade de condições, no jargão dos negociadores), mas o Execitivo de Boris Johnson resiste a fazer concessões.

O governo de Johnson pretende deixar o debate sobre a concorrência e o outro ponto mais controverso para o final da negociação: o acesso dos navios de pesca europeus às águas territoriais britânicas a partir de 1 de janeiro. Bruxelas considera que as frotas europeias terão que reduzir suas capturas, uma diminuição que afetará especialmente a Alemanha, Holanda, França ou Bélgica. Mas, diante de uma possível chantagem de última hora, a UE incorporou, em seu novo quadro orçamentário, um fundo de 5 mil milhões de euros para mitigar o impacto do Brexit que poderia ser usado, segundo fontes da comunidade, para compensar as perdas da indústria pesqueira europeia.

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