Bem-estar social na UE não é suficiente: uma em cada dez crianças vive sem os recursos básicos para o seu desenvolvimento

Segundo o ‘El Confidencial’, as taxas de privação material mais elevadas concentram-se na Grécia (33,6%), Roménia (31,8%) e Bulgária (30,4%)

Francisco Laranjeira
Novembro 17, 2025
13:46

Em 2024, 13,6% das crianças menores de 16 anos na União Europeia viviam em privação material, segundo dados divulgados pelo Eurostat e reportados pelo ‘El Confidencial’. Tratam-se de menores que não têm acesso a, pelo menos, três dos 17 bens e serviços considerados essenciais para assegurar um padrão de vida aceitável, desde vestuário e alimentação a materiais educativos, lazer, socialização e condições adequadas no agregado familiar.

Entre os elementos básicos estão roupa nova, dois pares de sapatos adequados à estação, livros e jogos apropriados à idade. A alimentação deve incluir pelo menos uma refeição diária com carne, peixe, frango ou alternativa vegetariana, além de fruta e legumes. As crianças devem ainda poder celebrar ocasiões especiais, convidar amigos para refeições, viajar de férias uma vez por ano e viver em casas com aquecimento adequado, mobiliário funcional, acesso à internet e contas em dia. Para as famílias, fatores como substituir móveis gastos ou ter um automóvel são também considerados no indicador.

Países do Sul e do Leste registam valores mais elevados

Segundo o ‘El Confidencial’, as taxas de privação material mais elevadas concentram-se na Grécia (33,6%), Roménia (31,8%) e Bulgária (30,4%). No extremo oposto encontram-se Croácia (2,7%), Eslovénia (3,8%) e Suécia (5,6%). Itália situa-se ligeiramente acima da média europeia, com 14,9%.

Para Michele Carrus, presidente da Federconsumatori, esta realidade é um sinal claro de que “algo está errado”. Ao jornal espanhol, o responsável sublinhou que decisões políticas recentes — como a eliminação do rendimento básico universal — penalizam sobretudo as famílias mais vulneráveis, com impacto direto nas crianças.

Escolaridade dos pais é determinante

Um dos fatores mais influentes é o nível de educação parental. O ‘Eurostat’ revela que apenas 5,6% das crianças com pais com formação superior enfrentam privação material, contra 39,1% entre aquelas cujos pais têm, no máximo, o ensino básico. As taxas mais elevadas entre famílias com escolaridade mais baixa ocorrem na Eslováquia (88,6%), Bulgária (84,1%) e Grécia (77,2%). Já entre pais com formação superior, os valores máximos registam-se na Grécia, Espanha e Bulgária.

Carrus chama ainda a atenção para outro problema crescente: cerca de seis milhões de italianos evitam cuidados médicos, o que agrava dificuldades em famílias com crianças. O dirigente alerta para o risco de estas condições se refletirem, no futuro, em precariedade laboral e desconfiança nas instituições públicas, defendendo políticas sociais estáveis e de longo prazo.

Uma rede de apoio que também mostra resultados

Marco Rossi Doria, presidente da organização social Con i bambini, citado pelo El Confidencial, destaca que, apesar do cenário difícil, existem sinais de esperança. O responsável aponta comunidades educativas fortes, que integram escolas, associações e famílias, e que já permitiram apoiar 650 mil crianças em situação de pobreza através de vários projetos.

Na Grécia, onde a privação infantil chega a 33,6%, a inflação e o aumento generalizado dos custos de bens essenciais continuam a penalizar severamente as famílias. A redução do poder de compra, associada à insuficiência de apoio público em saúde e educação, coloca muitos agregados perante escolhas dramáticas, desde cortar alimentos básicos a abdicar de atividades extracurriculares. Relatos recolhidos pela Rede Grega de Combate à Pobreza apontam para crianças que encaram bens quotidianos como luxos e desenvolvem ansiedade relacionada com a situação económica familiar.

Para enfrentar a emergência, são defendidas medidas como indexação automática de salários e pensões, controlo de preços, reforço da habitação social e acesso garantido à energia a preços acessíveis.

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