Uma década depois de o desmantelamento do campo informal conhecido como “Selva de Calais” ter simbolizado o fracasso das políticas migratórias europeias, as travessias ilegais do Canal da Mancha continuam longe de estar resolvidas. Agora, as autoridades belgas receiam que o reforço da vigilância na costa francesa esteja a provocar um desvio das rotas migratórias para a Bélgica, transformando o país no mais recente ponto de partida para migrantes que procuram alcançar o Reino Unido por mar.
O aumento significativo das apreensões de embarcações e das detenções de migrantes na costa belga durante os primeiros meses de 2026 levou as autoridades nacionais a soar o alarme. A preocupação chegou também a Bruxelas, que apresentou um novo plano de ação destinado a reforçar o controlo da rota do Canal da Mancha e do Mar do Norte.
Na estância balnear de De Panne, junto à fronteira franco-belga, o fenómeno tornou-se cada vez mais visível. A partir deste ponto da costa, os migrantes tentam alcançar o Reino Unido através de uma das rotas marítimas mais movimentadas do mundo. Apesar de a travessia já ser considerada extremamente perigosa a partir de Calais, o risco aumenta ainda mais quando as embarcações partem das praias belgas, devido à maior distância até à costa britânica.
Nos últimos anos, dezenas de milhares de pessoas tentaram chegar ao Reino Unido através do Canal da Mancha. Segundo os dados citados no artigo, em 2025 foram registadas 49.966 tentativas de travessia em 795 embarcações, maioritariamente barcos insufláveis. As autoridades francesas resgataram 6.177 migrantes no mar, enquanto a União Europeia contabilizou quase 64 mil tentativas de atravessar o canal ao longo do ano.
Apesar dos perigos, uma parte significativa dessas viagens foi bem-sucedida. O Reino Unido reconheceu que mais de 41 mil pessoas conseguiram chegar ao país em 2025, o segundo valor mais elevado desde que Londres começou a contabilizar oficialmente estas chegadas, em 2018. Pelo menos 25 pessoas morreram durante as travessias.
O que mais preocupa atualmente as autoridades belgas é a rápida evolução do fenómeno. Enquanto em 2024 e 2025 praticamente não foram registadas partidas a partir das praias do país, em 2026 as autoridades já intercetaram cerca de três dezenas de embarcações. Entre finais de abril e início de maio, quase 200 migrantes foram detidos ao longo dos cerca de 30 quilómetros de costa entre De Panne e Middelkerke, quer no interior de carrinhas que os transportavam para as praias, quer enquanto aguardavam escondidos nas dunas pela chegada das redes de tráfico.
Segundo dados policiais citados pela imprensa belga, mais de 400 migrantes foram intercetados desde o início do ano e 55 suspeitos de integrarem organizações criminosas dedicadas ao transporte ilegal de pessoas foram detidos.
Além dos barcos que partem diretamente da costa belga, organizações que trabalham com migrantes identificaram uma nova modalidade. De acordo com Joost Depotter, coordenador de políticas da organização Vluchtelingenwerk Vlaanderen, começaram a surgir os chamados “barcos-táxi”, embarcações insufláveis frequentemente em más condições e equipadas com motores improvisados, que saem da Bélgica para recolher migrantes em vários pontos da costa francesa, especialmente nas zonas de Calais e Dunquerque.
Os residentes locais têm testemunhado esta nova realidade. Catherine, uma professora reformada que vive em De Panne, relata ter encontrado várias vezes pequenos grupos de migrantes escondidos entre as dunas durante os seus passeios matinais. Numa dessas ocasiões, viu três homens “enrolados numa manta, à espera junto às dunas”. Segundo descreveu, aparentavam estar exaustos.
Apesar da crescente presença de migrantes, os habitantes e comerciantes da região afirmam que a situação não tem provocado perturbações significativas no quotidiano local. Emmanuel, responsável por uma cervejaria em Nieuwpoort, garante que os migrantes “não são um problema” para a comunidade e rejeita a ideia de que representem uma ameaça à segurança.
Ainda assim, alguns moradores têm encontrado coletes salva-vidas abandonados e até embarcações deixadas na areia, sinais que recordam cada vez mais o cenário já habitual em várias praias do norte de França.
O receio das autoridades belgas intensificou-se após o recente acordo entre Paris e Londres para reforçar o controlo da costa francesa. O entendimento prevê o aumento do efetivo das forças de segurança francesas para cerca de 1.400 agentes até 2029, bem como o reforço das operações de vigilância e recolha de informações para travar as travessias ilegais.
O governador da Flandres Ocidental, Carl Decaluwé, teme que esta estratégia acabe por deslocar ainda mais a pressão migratória para a Bélgica. Citado pelo jornal espanhol, afirmou que os traficantes procuram sempre “o caminho de menor resistência”, comparando o fenómeno a um colchão de água: quando se pressiona de um lado, a pressão surge noutro ponto.
Em resposta, o Governo federal belga anunciou no início de junho o envio de 25 agentes adicionais para reforçar os 45 polícias já destacados para a vigilância da costa. As autoridades contarão ainda com apoio das forças de segurança francesas e neerlandesas durante o verão. Paralelamente, será criado um grupo de cooperação que envolverá Bélgica, França, Reino Unido, Países Baixos e Dinamarca.
Também a Comissão Europeia decidiu intervir. Bruxelas apresentou um plano de ação destinado a reforçar a capacidade operacional nas fronteiras mais expostas ao fenómeno migratório associado ao Canal da Mancha. Entre as medidas previstas estão o destacamento de meios da Frontex, incluindo equipamentos de vigilância, e a criação de um mapa conjunto das redes de tráfico humano que operam na região, com o objetivo de facilitar a sua identificação e desmantelamento.
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, já tinha alertado em março que o aumento da pressão migratória na rota do Canal da Mancha exigia “uma resposta estruturada”.
O novo plano europeu surge poucos dias depois da entrada em vigor plena do Pacto Europeu para o Asilo e a Migração e numa altura em que o Parlamento Europeu se prepara para dar luz verde definitiva a medidas que permitirão a criação de centros de deportação em países terceiros.
As organizações humanitárias, porém, receiam que a aposta quase exclusiva na dissuasão e na vigilância produza o efeito contrário ao pretendido. Joost Depotter alerta que uma política centrada sobretudo na interceção dos migrantes “empurra as pessoas ainda mais para os braços dos traficantes”, aumentando a dependência das redes criminosas e elevando os riscos de travessias fatais.
Segundo o responsável, quanto mais difícil se torna o acesso a rotas regulares e seguras, maior é a probabilidade de os migrantes recorrerem a organizações ilegais para alcançar o Reino Unido, perpetuando um ciclo que as autoridades europeias continuam sem conseguir travar de forma definitiva.








