BCE prepara primeira subida dos juros em quase três anos: o que pode mudar para famílias e empresas

Decisão deverá ser tomada esta quinta-feira e marca uma inversão face ao cenário esperado até há poucas semanas, quando os mercados ainda antecipavam possíveis novos cortes nos juros

Executive Digest

O Banco Central Europeu prepara-se para aumentar as taxas de juro pela primeira vez em quase três anos, numa tentativa de enviar uma mensagem firme contra a inflação depois de o conflito com o Irão ter voltado a pressionar os mercados energéticos, escreve o ‘El País’. A decisão deverá ser tomada esta quinta-feira e marca uma inversão face ao cenário esperado até há poucas semanas, quando os mercados ainda antecipavam possíveis novos cortes nos juros.

A guerra no Irão alterou o equilíbrio que Frankfurt vinha a gerir desde o fim do ciclo de aperto monetário iniciado após a invasão russa da Ucrânia. Com a inflação da zona euro em 3% em abril e 3,2% em maio, o BCE deverá carregar novamente no travão, tentando evitar a repetição dos erros de 2022, quando demorou a reagir à escalada dos preços.

A subida é dada como praticamente certa pelos mercados, com uma probabilidade superior a 95%. A dúvida agora é saber se este aumento será apenas uma medida isolada ou o início de um novo ciclo de subidas das taxas de juro.

Inflação volta a pressionar Frankfurt

A decisão coloca o BCE perante um dilema difícil. Por um lado, a autoridade monetária quer mostrar que continua determinada a controlar a inflação. Por outro, uma nova subida dos juros pode penalizar uma economia europeia que já precisava de estímulos para crescer.

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Os analistas Carsten Brzeski e Bert Colijn, do ING, citados pelo ‘El País’, alertam para o risco de erro de política monetária num contexto marcado por uma crise energética de duração incerta, inflação em alta e efeitos negativos sobre o crescimento. Na sua leitura, o banco central deverá agir com prudência.

Apesar da pressão, o cenário atual é diferente do vivido em 2022. A inflação não está tão elevada como nessa altura e o choque energético não tem a mesma dimensão. As previsões mais extremas, que apontavam para petróleo a 200 dólares por barril e aviões parados por falta de querosene, não se confirmaram até agora.

Por isso, os contratos de futuros apontam apenas para uma ou, no máximo, duas subidas adicionais dos juros até ao final do ano. E mesmo esse cenário pode mudar caso o conflito termine de forma abrupta e não se materialize um impacto mais forte nos preços dos alimentos e dos serviços.

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Europa está menos exposta do que em 2022

O próprio BCE tem insistido que o ponto de partida desta crise é diferente. Numa análise divulgada na semana passada, vários especialistas da instituição, incluindo o espanhol Óscar Arce, sublinharam que o atual choque energético é relevante e global, mas afeta uma economia da zona euro mais equilibrada do que a de 2022.

A diferença está também na origem da pressão. Na crise provocada pela guerra na Ucrânia, o gás natural foi o principal fator de instabilidade, com forte impacto nos preços da eletricidade. Agora, a turbulência está mais ligada ao petróleo. Além disso, a Europa está mais preparada, com maior peso das energias renováveis no cabaz energético.

O ING considera baixa a probabilidade de repetição do cenário de 2022 e também reduzido o risco de uma espiral inflacionista incontrolável. Ainda assim, o banco alerta para outro perigo: o BCE ficar demasiado concentrado na inflação e ignorar os danos que juros mais altos podem causar ao crescimento económico.

O fantasma do erro de Trichet

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A discussão recupera o chamado “erro de Trichet”, referência à decisão do BCE de subir os juros em 2011, numa altura em que a zona euro ainda recuperava da crise financeira. Essa opção acabou por agravar a crise da dívida soberana e travar a recuperação económica.

O receio é que Frankfurt volte a reagir de forma excessiva a uma subida dos preços da energia, apertando demasiado a política monetária num momento em que a economia europeia continua frágil.

Durante o último ano, o BCE tinha vivido uma fase de maior estabilidade, mantendo os juros em 2% e a inflação próxima desse nível. A nova crise energética interrompe essa pausa e torna mais exigente a estreia de Boris Vujcic como vice-presidente da instituição, depois de substituir Luis de Guindos a 1 de junho.

Analistas divididos sobre o que vem a seguir

Entre os especialistas, não há consenso sobre o caminho que o BCE deverá seguir. Lorenzo Codogno, antigo secretário do Tesouro italiano, acredita que o pior ainda pode estar para chegar e defende que a autoridade monetária poderá ser obrigada a acelerar o aperto da política monetária.

Na sua análise, os preços tendem a cair lentamente, mas sobem rapidamente quando há choques energéticos. Codogno antecipa uma inflação mais elevada nos próximos meses, independentemente do resultado das negociações sobre o Estreito de Ormuz, devido ao risco de contágio para outros produtos.

David Kohl, economista-chefe do Julius Baer, tem uma leitura diferente. Considera que o crescimento fraco e a moderação salarial reduzem os riscos inflacionistas de longo prazo, pelo que o BCE poderá limitar-se a uma única subida das taxas de juro.

Para já, a decisão desta quinta-feira servirá sobretudo como sinal político e monetário. Frankfurt quer mostrar que não vai permitir que a inflação volte a escapar ao controlo. Mas, se exagerar na dose, arrisca travar ainda mais uma economia europeia que já crescia pouco antes da nova crise energética.

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