Banca europeia vive o melhor ano em décadas mas há um alerta no horizonte, avisa especialista em mercados

Os bancos europeus atravessam um dos períodos mais fortes da última década, com lucros recorde, valorizações expressivas e um regresso ao centro do interesse dos investidores. Ainda assim, o setor começa a enfrentar uma nova questão: estará em curso o pico do ciclo?

André Manuel Mendes

Os bancos europeus atravessam um dos períodos mais fortes da última década, com lucros recorde, valorizações expressivas e um regresso ao centro do interesse dos investidores. Ainda assim, o setor começa a enfrentar uma nova questão: estará em curso o pico do ciclo?

Segundo uma análise de João Lampreia, especialista de mercado na Freedom24, 2025 marcou um ponto de viragem para a banca europeia, com o setor a beneficiar de um ambiente de taxas de juro normalizadas, forte atividade de mercado e uma reavaliação após anos de subdesempenho em bolsa.

O índice EURO STOXX Banks disparou 76% em 2025, naquele que foi o melhor desempenho anual de sempre do setor. Praticamente todos os grandes bancos registaram ganhos de dois dígitos, incluindo instituições como o Banco Santander, o BNP Paribas e o ING Groep.

Depois de uma década marcada por taxas de juro negativas, fraca rentabilidade e avaliações deprimidas, o setor regressou ao radar dos investidores como uma história de crescimento e geração de capital. No entanto, o início de 2026 trouxe maior complexidade ao cenário.

O agravamento das tensões geopolíticas no Médio Oriente, em particular o conflito em torno do Irão, alterou o enquadramento macroeconómico. A inflação voltou a acelerar na zona euro devido à energia, levando o Banco Central Europeu a interromper o ciclo de cortes das taxas de juro e a deixar em aberto a possibilidade de novo endurecimento da política monetária.

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Este contexto cria um efeito duplo para os bancos: por um lado, taxas de juro mais elevadas prolongam margens financeiras robustas; por outro, aumentam os riscos de desaceleração económica e deterioração da qualidade do crédito.

Apesar do enquadramento mais incerto, os resultados continuam sólidos. O BNP Paribas fechou 2025 com lucros recorde de 12,2 mil milhões de euros e voltou a superar expectativas no arranque de 2026, com crescimento de 9% no lucro no primeiro trimestre. Já o Banco Santander registou 14,1 mil milhões de euros de lucro em 2025, mantendo uma forte política de remuneração aos acionistas através de dividendos e recompra de ações.

Também o ING Groep tem vindo a destacar-se pela qualidade do modelo de negócio, com receitas recorde pelo terceiro ano consecutivo e maior peso das comissões, reduzindo a dependência da margem financeira — um fator cada vez mais relevante num ciclo de taxas instável.

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O forte desempenho do setor em 2025 foi impulsionado por três fatores principais: a normalização das taxas de juro após anos de política monetária expansionista, o dinamismo da atividade de fusões e aquisições e a reavaliação de um setor historicamente penalizado em bolsa.

Contudo, o mercado começa agora a dar sinais de maior seletividade. Apesar de muitos bancos continuarem a negociar com múltiplos baixos — frequentemente abaixo de 8 a 9 vezes os lucros — os investidores estão a passar de uma aposta “no setor” para uma análise mais granular da qualidade dos resultados, estrutura de receitas e solidez de capital.

Na prática, o mercado começa a precificar que o pico de rentabilidade poderá estar próximo, refletido também na moderação das expectativas de dividendos futuros, apesar da recuperação das cotações.

Para os investidores, o foco desloca-se para bancos com maior diversificação de receitas, forte posição de capital, disciplina de custos e políticas claras de remuneração acionista. Instituições mais dependentes da margem financeira tendem a ser vistas como mais vulneráveis num cenário macroeconómico instável.

Entre os principais riscos para o setor destacam-se uma eventual deterioração da qualidade do crédito, um crescimento económico mais fraco na zona euro, alterações regulatórias mais exigentes, a redução da atividade de M&A e a persistência de tensões geopolíticas.

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Ainda assim, os bancos europeus mantêm-se como uma das histórias mais fortes dos mercados em 2026, combinando rentabilidade elevada e avaliações ainda relativamente contidas face a outros setores globais. A diferença face ao ano anterior é clara: já não chega apostar na banca como um todo — a seleção de ativos tornou-se determinante.

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