O dia da leitura da sentença do agente da PSP acusado de matar Odair Moniz está a ser vivido com apreensão por muitos moradores do Bairro do Zambujal, na Amadora, onde a vítima residia. Entre pedidos de justiça e recordações dos violentos distúrbios que se seguiram à morte de Odair, em outubro de 2024, vários habitantes admitem recear que a decisão do tribunal possa desencadear uma nova onda de confrontos caso o polícia não seja condenado ou receba uma pena considerada insuficiente.
Em declarações à Rádio Renascença, moradores do bairro relataram o clima de expectativa que antecede o desfecho judicial do caso. Muitos recordam os tumultos que se seguiram à morte de Odair Moniz, abatido a tiro durante uma operação policial na Cova da Moura, episódios que incluíram confrontos com as autoridades, incêndios, destruição de viaturas, ataques contra agentes policiais e o reforço do dispositivo de segurança em várias zonas da Grande Lisboa.
Uma das residentes ouvidas pela estação, identificada com o nome fictício de Ana, não escondeu a preocupação quanto ao que poderá acontecer após a leitura da sentença. “Eu espero bem que o polícia seja condenado, muito sinceramente, senão isto vai virar outra vez um inferno”, afirmou. A moradora recorda os dias de tensão que se seguiram à morte de Odair Moniz, confessando que chegou a sentir medo de sair de casa durante os confrontos que marcaram o bairro. Também Teresa, outro nome fictício utilizado para proteger a identidade de uma residente, admite que novos incidentes são uma possibilidade. “Acho que sim, que pode voltar a acontecer, porque eles querem justiça”, afirmou, referindo-se à família da vítima. Apesar disso, sublinha que não toma partido por nenhuma das partes e defende apenas que a decisão seja justa.
Entre os habitantes há também quem procure uma visão mais equilibrada dos acontecimentos. Teresa reconhece que, segundo o que ouviu no bairro, Odair Moniz terá alegadamente desobedecido a uma operação STOP e estaria na posse de uma arma branca quando foi intercetado pelas autoridades. Caso essa versão corresponda aos factos apurados em tribunal, a moradora admite ter dúvidas sobre uma eventual condenação do agente. Ainda assim, a principal preocupação continua a ser a possibilidade de a decisão judicial voltar a inflamar os ânimos numa comunidade que ainda guarda memória dos acontecimentos de 2024.
Outros moradores insistem na imagem positiva que tinham de Odair Moniz. Gonçalo, também identificado com um nome fictício, garante que conhecia a vítima desde a infância. “Sou do bairro, cresci aqui. Não tenho razão nenhuma de queixa dele”, afirmou. Sobre as circunstâncias que levaram à morte de Odair, admite não saber ao certo o que aconteceu. “O que falaram nos media… a gente não sabe se é verdade ou mentira, se ele ia com álcool ou se não ia, se fugiu ou não fugiu. O que sei, do que conhecia dele, é que era uma pessoa cinco estrelas. Era espetacular”, declarou.
Apesar das diferentes perspetivas sobre o caso, uma ideia parece unir muitos dos residentes que aceitaram falar: a exigência de uma decisão que considerem justa. Um dos moradores defendeu que a responsabilidade pelos acontecimentos deve ser avaliada de forma equilibrada, reconhecendo que “somos seres humanos” e admitindo que o agente poderá ter agido sob pressão ou medo. Ainda assim, considera que uma eventual pena suspensa dificilmente será aceite por parte da comunidade. “Não sei se vai ser da mesma dimensão, mas é possível que haja de novo tumultos. Porque não será justa uma pena suspensa. Perdeu-se uma vida. Terá de haver prisão efetiva”, afirmou, resumindo o sentimento de inquietação que marca este dia decisivo para o bairro onde vivia Odair Moniz.




