Avulsão fluvial: Estudo prevê mudanças catastróficas nos rios em todo o mundo. Há milhões de pessoas em risco

Investigadores da Universidade de Indiana descobriram novos e importantes insights sobre o fenómeno perigoso da “avulsão fluvial”, oferecendo uma forma inovadora de prever quando e onde os rios podem mudar drasticamente o seu curso.

Pedro Zagacho Gonçalves

Investigadores da Universidade de Indiana descobriram novos e importantes insights sobre o fenómeno perigoso da “avulsão fluvial”, oferecendo uma forma inovadora de prever quando e onde os rios podem mudar drasticamente o seu curso. O estudo, publicado na revista Nature, traz nova luz sobre um processo que moldou a história humana através de inundações devastadoras e continua a representar uma ameaça para milhões de pessoas em todo o mundo.

Liderado por James “Jake” Gearon, doutorando no Departamento de Ciências da Terra e Atmosféricas da Universidade de Indiana Bloomington, a equipa de investigação delineou, pela primeira vez, as condições que levam às avulsões fluviais. Entre os coautores estão Harrison Martin, investigador pós-doutorado na CalTech, Clarke DeLisle, agora na EVS, Inc., Eric Barefoot, atualmente professor na UC-Riverside, e o Professor Douglas Edmonds, que ocupa a cátedra Malcolm e Sylvia Boyce em Ciências Geológicas.

Avulsão fluvial: um fenómeno milenar

A avulsão fluvial ocorre quando um rio, devido à acumulação de sedimentos no seu leito, transborda e muda drasticamente o seu curso, abrindo um novo caminho pela planície de inundação. Este fenómeno pode causar inundações graves e inesperadas, deslocando o curso do rio para áreas que não estão preparadas para suportar grandes volumes de água. Um exemplo dramático foi a avulsão do rio Kosi, no norte da Índia, em 2008, que afetou diretamente mais de 30 milhões de pessoas, matou centenas e causou danos superiores a mil milhões de dólares.

Tecnologia avançada para prever avulsões

A equipa de Gearon utilizou tecnologia avançada de satélites, incluindo o lidar, que usa lasers para medir a topografia do terreno, mesmo em áreas com densa vegetação. “Medir a topografia ao redor de um rio é uma tarefa difícil e demorada devido à vegetação densa”, explicou Gearon. “Aproveitámos um novo satélite que utiliza lasers para medir a topografia, permitindo-nos obter medições precisas da elevação do terreno.”

Esta abordagem permitiu aos investigadores mapear como certas características da paisagem aumentam a probabilidade de avulsões fluviais. Ao combinar estas medições topográficas com a análise de dados históricos, a equipa conseguiu criar um novo modelo preditivo, permitindo identificar com maior precisão quando e onde uma avulsão pode ocorrer.

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O que causa as avulsões?

Historicamente, os cientistas acreditavam que as avulsões eram causadas por dois fatores principais: a elevação do leito do rio acima da planície de inundação e a presença de um caminho mais íngreme e apelativo para as águas fluviais. “Com os dados de topografia que agora temos, podemos finalmente testar estas ideias de 80 anos”, disse Douglas Edmonds, um dos coautores do estudo. “Surpreendeu-nos descobrir que ambos os fatores trabalham em conjunto, mas desempenham papéis diferentes, dependendo da localização do rio.”

Os investigadores analisaram dados de 174 avulsões fluviais em todo o mundo, usando imagens de satélite para rastrear os movimentos dos rios nas últimas décadas. Descobriram que as avulsões são muito mais comuns perto de cadeias montanhosas e áreas costeiras, onde 74% dos eventos ocorreram devido à rápida acumulação de sedimentos.

Mapeamento de “corredores de avulsão” e os riscos de inundações

Com base nestas descobertas, os investigadores desenvolveram um modelo para mapear “corredores de avulsão” – possíveis trajetos que os rios podem seguir se romperem o seu curso atual. Este modelo pode ajudar governos e planeadores a identificar áreas com alto risco de inundações repentinas, especialmente em regiões com poucos recursos de gestão de inundações.

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Gearon destacou que os modelos tradicionais de previsão de inundações se focam em níveis de água crescentes devido a chuvas fortes, mas que não contemplam o risco de avulsões, que podem ocorrer subitamente, mesmo em áreas onde a precipitação não é uma preocupação significativa. “As avulsões podem acontecer sem aviso prévio, de forma semelhante a terramotos”, explicou Gearon.

Impacto no Sul Global

As descobertas do estudo têm particular relevância para o Sul Global – regiões menos desenvolvidas de África, América Latina e Ásia – onde as avulsões são mais frequentes e muitas vezes mais mortais. Em muitas destas áreas, fatores geológicos combinados com a falta de infraestrutura adequada tornam as comunidades especialmente vulneráveis a mudanças repentinas nos cursos dos rios. Um exemplo devastador foi a inundação de 2010 no rio Indo, no Paquistão, relacionada com uma avulsão, que afetou mais de 20 milhões de pessoas.

O novo modelo, que requer dados mínimos para funcionar, oferece uma ferramenta poderosa para que estes países possam preparar-se para desastres causados por avulsões, potencialmente salvando vidas e reduzindo danos económicos. À medida que as alterações climáticas continuam a alterar os padrões meteorológicos globais e a aumentar o risco de inundações, a capacidade de prever e mitigar os perigos das avulsões torna-se cada vez mais crucial.

Um novo paradigma para a gestão de riscos fluviais

O estudo sublinha a importância de considerar as avulsões nas avaliações de risco de inundações, algo que os modelos tradicionais de previsão geralmente ignoram. À medida que o planeta se adapta a um clima em mudança e as populações humanas se expandem para áreas mais vulneráveis, ferramentas como este novo modelo desenvolvido pela equipa da Universidade de Indiana serão essenciais para a gestão e mitigação dos riscos associados às avulsões fluviais.

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