Imagens impressionantes de uma enorme avalanche a descer as encostas dos Alpes italianos, soterrando esquiadores em fuga, voltaram a colocar o risco nas montanhas europeias no centro das atenções. De acordo com o jornal britânico ‘The Independent’, esta época já registou 88 mortes nos Alpes.
Só na última semana, Itália contabilizou 13 vítimas mortais em zonas montanhosas, dez das quais em avalanches. Na Suíça, um comboio descarrilou na região de Valais após uma avalanche, deixando cinco feridos, num contexto em que as autoridades emitiram o alerta de avalanche mais grave de sempre. Em França, morreram pelo menos 27 pessoas desde o início da temporada, incluindo três esquiadores britânicos na última semana — o maior número desde 2020/2021, quando se registaram 40 mortes.
Segundo o ‘The Independent’, várias agências meteorológicas europeias têm emitido alertas de tempo severo. Em Itália, a Aineva classificou recentemente o risco de avalanche em 4 numa escala de 5 — o segundo nível mais elevado — em várias zonas alpinas junto às fronteiras com França, Suíça e Áustria. Grande parte dos Alpes suíços mantém-se igualmente sob alerta máximo.
Porque estão a ocorrer tantas avalanches?
Especialistas explicam que as condições deste inverno criaram o “cenário perfeito” para grandes deslizamentos de neve. Henry Schniewind, especialista em neve e avalanches, citado pelo ‘The Independent’, afirma que a queda de neve foi “excecionalmente instável”.
O problema está na formação de uma chamada “camada frágil persistente”: uma base de neve menos densa e mais cristalizada — descrita como “açucarada” — sobre a qual se acumula nova neve pesada. Isoladamente, esta camada não é necessariamente perigosa, mas quando coberta por uma forte nevasca torna-se altamente propensa a deslizamentos de grandes dimensões.
Muitas das avalanches recentes ocorreram após um padrão meteorológico semelhante: forte queda de neve e vento, seguida de dias de céu limpo que incentivaram a prática de esqui fora de pista, antes de a montanha estabilizar.
Qual o papel das alterações climáticas?
À primeira vista, poderia parecer que temperaturas globais mais elevadas levariam a menos neve e, portanto, menos avalanches. No entanto, especialistas alertam que o efeito pode ser o oposto em altitudes superiores a 2.000 metros — onde se situam muitas estâncias alpinas, algumas entre os 3.000 e os 4.000 metros.
O aumento das temperaturas pode provocar nevões mais intensos a grande altitude e favorecer avalanches “húmidas”, que contêm maior quantidade de água devido a chuva ou degelo. Estas avalanches são mais densas e exercem maior força de impacto.
O fator humano também pesa
Outro elemento destacado pelo ‘The Independent’ é o crescimento da prática de esqui fora de pista e esqui de montanha. Segundo Henry Schniewind, entre 90% e 95% das vítimas de avalanche acabam por desencadear o deslizamento — diretamente ou através de alguém do grupo.
A popularização destas modalidades leva mais pessoas a aventurarem-se em zonas instáveis, muitas vezes com base numa falsa sensação de segurança. O facto de uma encosta não ter cedido anteriormente não significa que esteja estável. Em condições mais frágeis do que o habitual, pequenos estímulos podem desencadear avalanches de grande dimensão.
O que significa este inverno para o futuro?
O aumento do número de vítimas, aliado a padrões meteorológicos mais extremos, reforça as preocupações sobre a segurança nas montanhas europeias. Alertas vermelhos foram emitidos pouco antes de acidentes mortais recentes, incluindo em estâncias de prestígio como Val d’Isère.
A conjugação de neve instável, alterações climáticas e maior exposição humana está a tornar esta época uma das mais letais dos últimos anos nos Alpes.





