Centenas de milhares de empregos poderão estar em risco na União Europeia nos próximos anos, numa altura em que os custos elevados da energia, a reestruturação industrial e a transição verde aumentam a pressão sobre a economia europeia. A Comissão Europeia deverá deixar esse alerta no pacote da Primavera do Semestre Europeu, documento com recomendações económicas e políticas para os Estados-membros, segundo os dados consultados pelo POLITICO.
O aviso surge num momento em que Bruxelas procura reforçar a competitividade europeia, mas reconhece que tecnologia, capital e regulação financeira não serão suficientes para responder aos desafios do bloco. Para a Comissão, a capacidade da Europa para competir dependerá também das competências dos trabalhadores e das oportunidades criadas para que possam contribuir para a economia.
Roxana Mînzatu, vice-presidente executiva da Comissão Europeia responsável pelas Competências, defende que a competitividade europeia será construída pelas pessoas, pelas qualificações que desenvolvem e pelas condições que lhes são dadas para participar plenamente na economia e na sociedade.
Energia cara pode colocar 560 mil empregos em risco
A pressão sobre os preços da energia em 2026 poderá colocar em risco até 560 mil empregos na União Europeia. Os setores mais expostos incluem a construção, os metais, a química e os transportes.
O cenário é agravado pelo impacto da guerra entre os Estados Unidos e Israel contra o Irão, que continua sem sinais de terminar e tem efeitos nos preços do petróleo. A Comissão Europeia revê também em alta as previsões para o desemprego, refletindo uma atividade económica mais fraca.
No outono passado, Bruxelas previa uma taxa de desemprego de 5,9% em 2026 e 5,8% em 2027. Agora, a previsão passa para 6% em ambos os anos.
A Comissão espera igualmente que os governos europeus assumam mais dívida. O saldo das administrações públicas dos 27 Estados-membros deverá passar de -3,1% do PIB em 2025 para -3,5% em 2026 e -3,6% em 2027.
Automóvel europeu com 600 mil postos de trabalho ameaçados
O setor automóvel é um dos mais pressionados. Na indústria automóvel europeia, considerada central para o sucesso económico da Alemanha, a Comissão deverá alertar para 600 mil empregos em risco.
A pressão resulta da transição dos veículos com motor de combustão para tecnologias mais limpas, mas também da forte concorrência chinesa. O tema alimenta o debate em Bruxelas sobre a capacidade da Europa para manter posição em setores estratégicos face a rivais como a China e os Estados Unidos.
A indústria das baterias também surge entre as áreas vulneráveis, com cerca de 85 mil empregos em risco. No fabrico de painéis solares, quase 59 mil postos de trabalho poderão ser afetados por pressões de mercado. Já no setor siderúrgico, medidas de baixo carbono poderão ter impacto em mais 4.500 empregos.
Competências passam para o centro da estratégia económica
O pacote do Semestre Europeu deverá deslocar parte da atenção para a força de trabalho. A Comissão entende que a agenda de competitividade da União Europeia não poderá ter sucesso sem enfrentar a falta de trabalhadores e as lacunas de competências.
Os números apresentados por Bruxelas mostram que 68% das empresas médias reportaram falta de competências em 2023. Em 2024, 77% das empresas afirmaram que a escassez de mão-de-obra e qualificações funcionava como obstáculo ao investimento.
Pela primeira vez, as recomendações europeias vão incluir um foco específico na educação, formação profissional, aprendizagem ao longo da vida, competências STEM e requalificação de trabalhadores.
Roxana Mînzatu afirma que investir nas pessoas é a estratégia de competitividade mais forte da Europa e a base para uma União capaz de inovar, competir e resistir a desafios. Segundo a responsável, a mudança neste Semestre Europeu está no facto de o capital humano passar a ser tratado como motor central da competitividade, com orientações específicas para cada Estado-membro.
Famílias de baixos rendimentos sob pressão
O alerta da Comissão não se limita à perda de empregos. Bruxelas deverá avisar que as famílias com baixos rendimentos poderão suportar uma carga desproporcionada devido à subida dos preços dos combustíveis nos transportes.
Segundo os dados citados pelo POLITICO, esse impacto poderá representar um custo adicional equivalente a 1,4% do rendimento destas famílias.
A Comissão deverá também apontar desigualdades persistentes no mercado de trabalho. Os cidadãos de países fora da União Europeia continuam a ter maior probabilidade de estar sobrequalificados para os empregos que ocupam, em comparação com trabalhadores nacionais.
Outro ponto de preocupação é a qualidade do emprego. Bruxelas assinala que um em cada cinco trabalhadores está preso a empregos de baixos salários em setores com fraco crescimento da produtividade. Além disso, um em cada 12 trabalhadores enfrenta risco de pobreza apesar de estar empregado.
Bruxelas quer reformas no emprego e proteção social
Perante este cenário, a Comissão Europeia deverá usar o pacote de recomendações para pressionar os países da União Europeia a avançarem com reformas nas competências, na qualidade do emprego e nos sistemas de proteção social.
A mensagem central é que a resiliência económica europeia dependerá cada vez mais do investimento em capital humano. Para Bruxelas, a transição industrial e ambiental não pode ser separada da formação, da requalificação e da capacidade de proteger trabalhadores e famílias mais vulneráveis.
No mesmo pacote, a Comissão deverá ainda sinalizar preocupações com a saúde financeira da Bulgária, depois de analisar os seus padrões de despesa. Alemanha, Estónia, Letónia e Eslovénia também foram avaliadas, mas escaparam, por agora, a um alerta semelhante.




