Atingimos o auge mundial do mal-estar? Como a infelicidade global tem gerado monstros políticos

Sondagem mundial revelou que a infelicidade atingiu níveis recorde em todo o planeta

Francisco Laranjeira

Uma sondagem mundial revelou que a infelicidade atingiu níveis recorde em todo o planeta: nenhum líder político demonstrou particular preocupação mas os especialistas alertam para um possível impacto: “A apatia é o terreno fértil ideal para o aparecimento de totalitarismos.”

De acordo com o jornal espanhol ‘El Mundo’, o caso de George Bush, nos Estados Unidos, meses antes das eleições presidenciais de 1992, é paradigmático. A maioria dos analistas americanos considerou-o imbatível, com uma popularidade sem precedentes (90%). No entanto, James Carville, arquiteto da campanha do candidato Bill Clinton, não via o presidente repetir o mandato.

Para o evitar, sugeriu a Clinton que centrasse as suas mensagens nos problemas em pagar as contas. Para recordar a sua equipa, o estratega utilizou uma fatura no quartel-general do Partido Democrata com três ideias chave: uma das quais tornou-se o slogan oficioso (“É a economia, estúpido”) em todos os comícios que se revelou decisivo para a sua vitória nuns Estados Unidos em recessão.

A partir desse ponto, tornou-se o ‘mantra’ favorito em todo o mundo. Não só para quem ambicionava o poder mas também para quem ambicionava retê-lo, ninguém pôs o foco num conceito que dava uma ‘sensação de anúncio’: a felicidade. Mas a estratégia foi contraproducente.

Uma sondagem internacional da Gallup, na sequência de 5 milhões de entrevistas, apontou que os índices de infelicidade da população – entendido com uma mistura de ira, tristeza, dor física, preocupação e stress – alcançou níveis recorde desde que a empresa de pesquisa de opinião dos Estados Unidos começou a realizar estas medições, há uma década e meia: neste período de tempo, a perceção negativa da vida cresceu de forma constante, passando de 24 (em 2006) para 33 (em 2021).

Continue a ler após a publicidade

Foi no terreno político que se verificou um impacto alarmante. “Os líderes passaram por cima da infelicidade dos cidadãos que desencadeou eventos que vão desde a Primavera Árabe ao Brexit, assim como a eleição de Donald Trump”, sustentou Jon Clifton, CEO da Gallup. “Em todos estes casos, os indicadores macroeconómicos tradicionais, como o crescimento do PIB, indicavam um situação estável e relativamente boa. Porém, os indicadores do bem-estar subjetivo estavam em colapso.”

Clifton denunciou que os políticos deixaram de prestar atenção a como se sentiam os seus próprios cidadãos e começaram a dedicar-se a observar métricas – e com isso encontrar uma relação direta entre o mal-estar pessoal e o voto em políticos populistas e autoritários, que oferecem refúgio por entre a tormenta.

George Ward, especialista do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) e autor de um estudo sobre o fenómeno, recordou 2016: nos Estados Unidos, a população deu saída à sua frustração a outro ‘outsider’ – a insatisfação com a vida nos condados que apoiaram maioritariamente Donald Trump era o dobro dos outros que impulsionaram Mitt Romney, o seu rival nas primárias republicanas. Da mesma forma, no Reino Unido, a população inclinou-se a responder afirmativamente à pergunta sobre se o país deveria abandonar a União Europeia.

Continue a ler após a publicidade

Viktor Orbán e Mateusz Morawiecki, na Hungria e Polónia, respetivamente, foram eleitos com programas nacional-populistas, e em Itália, a extrema-direita recebeu milhões de votos e colocou Georgia Meloni no comando do Governo. “Depois de uma década de crescentes emoções negativas sob sucessivos Governos de diferentes orientações, os eleitores estão cansados das suas opções e cada vez mais dispostos a sair da corrente principal”, resumiu Clifton.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.