O que se passou com a vacina AstraZeneca? Uma das vacinas pioneiras contra a pandemia da Covid-19 caiu ‘em desgraça’ e atualmente prima… pela ausência das campanhas de vacinação mundiais. Afinal, o que se passou com a vacina pioneira do conglomerado farmacêutico anglo-sueco, que apresentava uma taxa de sucesso de 76%?
A 30 de dezembro de 2020, o Reino Unido celebrava a chegada de uma nova vacina, ainda por cima produzida no país, com resultados relevantes no combate ao coronavírus. “Hoje é um dia importante para milhões de pessoas no Reino Unido que vão ter acesso a esta nova vacina que tem demonstrado ser eficaz, bem tolerada, simples de administrar e é fornecida pela AstraZeneca sem qualquer lucro”, referiu um otimista Pascal Soriot, responsável da AstraZeneca.
Apesar do ‘hype’ inicial, a AstraZeneca rapidamente se viu envolvida em diversas dúvidas, o que tende a ser ‘fatal’ para uma vacina. A associação a efeitos secundários, como “mal-estar generalizado, tenha nódoas negras ou hemorragias cutâneas”, conforme relatou Graça Freitas, diretora-geral de Saúde, em março de 2021, depois de ter anunciado a suspensão da aplicação da vacina da AstraZeneca por uma questão de precaução com a saúde pública. Em outubro, um novo efeito secundário foi acrescentado à lista – um distúrbio extremamente raro que danifica os nervos, o Síndrome de Guillain-Barré, que atirou ainda mais a vacina anglo-sueca para a rua da amargura. Os coágulos sanguíneos também começaram a andar ‘de braço dado’ com a vacina.
Pior: a hesitação na toma da vacina aumentou na União Europeia depois da suspensão da vacina da AstraZeneca, com mais de um terço dos adultos no bloco a mostrar ter sérias dúvidas na imunização contra a Covid-19, segundo avançou na altura a ‘Bloomberg’. Depois de vários países da UE terem suspendido o uso da vacina da AstraZeneca em meados de março, 34% dos inquiridos numa sondagem online da ‘Eurofound’ disseram estar hesitantes em tomar a vacina. Antes da pausa, essa percentagem era de 25%, o que mostra um aumento da hesitação.
Apesar dos diversos efeitos adversos acrescentados, maio de 2021 foi o ponto final da ‘aventura’ da AstraZeneca, com o fim da suspensão da comercialização das vacinas na União Europeia. O contrato foi quebrado a partir de Bruxelas – segundo tinha sido contratualizado, a AstraZeneca tinha de entregar 180 milhões de doses de vacinas até ao segundo trimestre de 2021 e terminar em 300 milhões até dezembro. No entanto, a empresa reconheceu que só poderia entregar um terço das prometidas até junho, o que foi uma violação do contrato.
Em junho de 2021, o Tribunal de Primeira Instância de Bruxelas ordenou que a AstraZeneca entregasse 50 milhões de doses da vacina para a Covid-19 à União Europeia, no âmbito de um processo interposto pela Comissão Europeia. Em caso de incumprimento destes prazos de entrega, a AstraZeneca teria de pagar uma multa de 10 euros por dose não entregue. Um alto funcionário da União Europeia rejeitou, em maio, a ideia de que Bruxelas poderia entrar em novas negociações de contrato com a AstraZeneca.
A decisão da Justiça surge na sequência de uma queixa apresentada pela Comissão Europeia que alega que a AstraZeneca cometeu uma violação grave das suas obrigações contratuais com a UE. Um processo que apenas terminou em setembro.
Em Portugal, foi suspenso em abril o processo de vacinação contra a Covid-19 da AstraZeneca em alguns grupos etários, desaconselhando o seu uso a menores de 60 anos. Esta posição surgiu depois da Agência Europeia de Medicamentos (EMA) ter confirmado uma “possível ligação” da AstraZeneca com os casos incomuns de coagulação sanguínea relatados em algumas pessoas que receberam a vacina, apesar de manter uma opinião positiva sobre o seu benefício.













