As rotas marítimas do Ártico vão mesmo redesenhar o mapa do comércio mundial?

Seguradora de crédito Coface conclui que, apesar de as alterações climáticas estarem a melhorar as condições de navegação na região, as rotas do Ártico deverão continuar a ter um papel secundário no comércio mundial

Francisco Laranjeira

As tensões no Médio Oriente e o bloqueio do Estreito de Ormuz estão a reacender o interesse nas rotas marítimas do Ártico como alternativa aos corredores tradicionais, mas a Coface considera que o impacto comercial destas ligações continuará a ser reduzido nos próximos cinco anos.

Num novo estudo, a seguradora de crédito conclui que, apesar de as alterações climáticas estarem a melhorar as condições de navegação na região, as rotas do Ártico deverão continuar a ter um papel secundário no comércio mundial. A estimativa aponta para que apenas 3,5% do comércio entre o Leste Asiático, o Norte da Europa e a América do Norte possa vir a utilizar estas rotas dentro de cinco anos.

O estudo surge num momento em que os principais corredores marítimos enfrentam nova pressão geopolítica. O transporte marítimo representa mais de 80% do comércio mundial de bens e continua fortemente concentrado em poucos eixos estratégicos, o que aumenta a exposição a choques externos.

Segundo a Coface, as rotas do Ártico podem reduzir significativamente as distâncias, em alguns casos até 40% entre o Leste Asiático e o Norte da Europa e cerca de 20% até à costa leste da América do Norte. Ainda assim, essa vantagem não chega para transformar estas ligações numa alternativa ampla e imediata aos circuitos convencionais.

A principal oportunidade está no transporte de matérias-primas. A análise mostra que os maiores ganhos de competitividade podem surgir no transporte de granéis líquidos, como petróleo bruto, gasóleo, metanol ou gás natural liquefeito, com reduções de custos que podem atingir 45% a 50% em determinados fluxos. Também os granéis sólidos, como cereais, minérios e materiais de construção, poderão beneficiar, sobretudo quando os navios puderem operar sem escolta de quebra-gelos.

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Já no transporte contentorizado, o cenário é diferente. Apesar das rotas mais curtas, a Coface considera que o Ártico continua pouco competitivo para este tipo de tráfego. As limitações operacionais, a dimensão mais reduzida dos navios e os custos específicos da navegação polar impedem, para já, qualquer rivalidade séria com as economias de escala das rotas tradicionais.

O estudo identifica, ainda assim, alguns possíveis vencedores setoriais. Exportadores de energia, cereais, metais e madeira, sobretudo no nordeste dos Estados Unidos e no Norte da Europa, poderão ganhar competitividade nos mercados asiáticos com custos de transporte mais baixos e tempos de trânsito mais curtos.

Em contrapartida, alguns concorrentes de outras regiões poderão perder terreno. É o caso de países como o Brasil, no minério de ferro, o Chile, no cobre, ou a República Democrática do Congo, em determinados minerais. Também economias dependentes das rotas tradicionais, como o Egito e o Panamá, podem enfrentar maior vulnerabilidade, já que as receitas dos seus canais têm peso relevante na atividade económica.

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A Coface assinala ainda que alguns grandes hubs portuários do comércio entre a Ásia e a Europa, como Singapura e, em menor grau, Jebel Ali, poderão ver o seu papel estratégico questionado caso parte dos fluxos migre para norte. Ainda assim, esse risco é apontado como sendo de prazo mais longo, uma vez que o transporte de contentores no Ártico não deverá tornar-se economicamente viável antes de 2030.

Além da vertente logística, a seguradora destaca o peso crescente da dimensão geopolítica. A Rota Marítima do Norte continua amplamente controlada pela Rússia, enquanto a China reforça a sua presença polar e os Estados Unidos tentam também aumentar a influência na região. Neste quadro, o Ártico afirma-se cada vez mais como um espaço de disputa estratégica, ligado a soberania, infraestruturas críticas, acesso a recursos e reconfiguração do poder global.

Citada no estudo, Eve Barré, economista setorial da Coface, resume que as rotas marítimas do Ártico estão a atrair atenção por encurtarem distâncias, mas que o interesse comercial nos próximos anos continuará muito limitado e concentrado essencialmente nas matérias-primas.

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