As faces da mudança: Opinião de Paulo Moita de Macedo, CEO da CGD

“Se queremos que tudo continue como está, é preciso que tudo mude”. Esta frase, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, é habitualmente mal citada. É uma das mais referidas quando se fala da forma de encarar um modo de trabalhar ou uma organização. Ou quando se fala da necessidade em mascarar a resistência à verdadeira mudança.

Muitas vezes, a pseudo-mudança é apresentada com grandes gestos teatrais, radicais na aparência, mas na realidade, avessos à inovação. O deus romano que simbolizava a mudança, Janus, tinha duas faces. Uma olhava o passado, outra encarava o futuro. Não se tratava de uma dualidade de atitude, mas sim de prudência na forma como a mudança era, a cada momento, preparada. O deus que simbolizava a mudança era também guardião, o que protegia o início de todas as atividades, o que dava início às estações.

Como Janus, queremos olhar o passado e aprender com ele. Mas queremos sobretudo tecer e construir o futuro. Operando reais e prudentes mudanças que, de facto, alterem modos de trabalho e melhorem a nossa vida. E não prometendo alterações abruptas que, muitas vezes, escondem uma real capacidade de querer mudar.

E esse princípio deve partir de cada gestor. Nunca precisamos tanto de um propósito como em alturas de crise. Numa altura como esta, de grande mudança, a questão começa por ser de organização pessoal e atitude.

Em termos pessoais, e independentemente dos objetivos que persigamos, só consegue liderar bem quem tiver um equilíbrio, um balanceamento entre os seus núcleos de interesse e as suas equipas. Sejam esses núcleos os familiares, os dos círculos de amizade ou os do trabalho. Consegue esse equilíbrio quem tem uma missão e vive confortável com a aspiração que tem. Quem tem objetivos claros, de como fazer a diferença e sabe o que quer para si próprio.

E isso é (-nos) fundamental, não só na forma como nos posicionamos, mas também como nos entendemos com as pessoas, e como chegamos às equipas. É em momentos como este, de crise acentuada, que as pessoas têm mais incertezas e que se sentem mais perdidas, que olham mais para os sinais dos que lideram, nos diferentes níveis hierárquicos e que precisam de maior empatia que é preciso corresponder, de alguma maneira, e procurar a eficácia.

Tal como numa empresa, individualmente precisamos primeiro de encontrar respostas internas:

  • Qual é a minha estratégia em termos de risco e de sustentabilidade?
  • Qual é o meu grau de empreendedorismo e como vou manter ou criar uma vantagem competitiva para a minha equipa?
  • Quais dos meus ativos, são os geradores de riqueza (atuais e quais os de futuro)?
  • O que é que eu estou a fazer pelo meu P&L (profit and loss)?
  • Estarei a cuidar para adquirir novos ativos (conhecimento, competências) que são aqueles que irão gerar os rendimentos futuros?
  • Estou a reaprender, estou disponível para assegurar um nível de competência, compromisso e clareza de caminho (Fórmula da elevada performance CxCxC – Dr. Vitor Sevilhano), para poder ser um líder eficaz?

É, seguramente, fundamental assegurar muito mais, em termos do propósito de liderança. Quando pedimos às equipas para serem resilientes, nós, que o pedimos, asseguramos a resiliência? Conseguimos ter pragmatismo, ver as oportunidades e não apenas as ameaças? (em diversas análises o SOWT passou a SWO).

Não se espera uma atitude banal, ou passiva, de quem lidera.

No final da linha importa questionarmos-mos se enquanto lideres já fizemos a mudança necessária. Quem é liderado nota se nós fizemos essa mudança ou não. É esse o tópico e é essa a palavra-chave. Em quem lidera e em quem é chefiado. Fazendo como Janus. Olhando para trás e para a frente. Olhando para nós, olhando as nossas equipas e percebendo se temos as pessoas certas para o caminho a percorrer.

Pensemos este processo como o corpo humano. Com cabeça, para criar uma visão. Com coração, para ativar propósitos e capacitar colaboradores. Com mãos, para executar. De cérebro se passa à ação, como da atitude individual se passa para a da estrutura. Fazendo a mudança pessoal, primeiro, ajudando na da equipa, de seguida.

Fazer a mudança passa por valorizar, diferenciar, avaliar, recomendar. Isso faz-se para fazer crescer. E isso interpela-nos. Porque também nos devemos questionar, a cada momento, se estamos a fazer algo de relevante, a construir mais alguma coisa para além do dia-a-dia. Ou seja, se estamos a continuar a desafiar e a partilhar insight. No fundo, essa atitude, que implica uma permanente disponibilidade para a mudança, significa sermos capazes de encarar a realidade. E fazê-lo, de forma clara, de forma sistematizada e com pensamento crítico.

Neste contexto é necessária a automotivação e acreditar no propósito. Sem estar à espera, no dia-a-dia, da aprovação do acionista, ou do presidente da empresa.

Os desafios existem e estão no caminho de todos nós. Importa é como os encaramos e respondemos, de forma a conseguir a sustentabilidade pessoal, das nossas equipas, das organizações e da sociedade.

Liderar é construir horizontes pessoais e profissionais, assumindo o rumo, mesmo que seja para um cenário ainda não construído, fazendo acontecer. Olhando para trás, como Janus. E sendo, como ele, o símbolo da mudança em direção ao futuro

Artigo publicado na Revista Executive Digest n.º 183 de Maio de 2021

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