As cinco teorias da conspiração que Putin promoveu e em que acabou por acreditar

Todas essas teorias da conspiração são usadas para justificar a guerra na Ucrânia, tanto por cidadãos comuns como pelo Kremlin.

Simone Silva

Ilya Yablokov, professor da Universidade de Sheffield e especialista em desinformação, escreveu um artigo no ‘The New York Times’, no qual detalha teorias da conspiração espalhadas pelo governo russo, que acabaram assimiladas por líderes russos como o próprio Vladimir Putin.

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Todas essas teorias da conspiração são usadas para justificar a guerra na Ucrânia, tanto por cidadãos comuns como pelo Kremlin. Especificamente, Yablokov concentra-se em cinco discursos que permearam a sociedade russa.

O Ocidente quer dividir o território da Rússia
Em 2007, numa conferência de imprensa, Putin foi questionado sobre o que achava do comentário da ex-secretária de Estado dos EUA, Madeleine Albright, de que a riqueza natural da Rússia deveria ser redistribuída e controlada pelos Estados Unidos.

Putin respondeu que tais ideias eram partilhadas por “certos políticos”. Jornalistas do ‘Rossiyskaya Gazeta’, um jornal estatal, reproduziram a citação alegando que as secretas russas eram capazes de ler a mente de Albright.

Em 2015, o secretário do Conselho de Segurança da Federação Russa, Nikolai Patrushev, repetiu a alegação, adiantando que Albiright tinha dito que a Rússia não deveria controlar a Sibéria e o seu Extremo Oriente, e era por isso que os Estados Unidos estavam envolvidos na Ucrânia.

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Em maio de 2021, Putin mostrou que a teoria não tinha sido esquecida. O mundo inteiro, declarou o presidente, “quer arrancar um pedaço da Rússia” porque “é injusto que apenas a Rússia possua as riquezas de uma região como a Sibéria” . Uma citação inventada tornou-se um “facto”.

A NATO transformou a Ucrânia num campo militar
A NATO é o assunto de algumas das teorias de conspiração mais persistentes do regime, que têm a mão da organização por trás de revoltas populares em todo o mundo.

Desde a revolução ucraniana Maidan de 2014, que Putin e os seus apoiantes propagaram a noção de que a Ucrânia estava a tornar-se num estado fantoche sob o controlo dos EUA. Num longo ensaio publicado em julho de 2021, Putin deu plena expressão a essa teoria, afirmando que a Ucrânia era totalmente controlada pelo Ocidente e que a NATO estava a militarizar o país.

O seu discurso a 21 de fevereiro, poucos dias antes da invasão, confirmou que as atividades da NATO na Ucrânia eram, para Putin, o principal motivo da agressão russa. Crucialmente, a aliança foi o que dividiu russos e ucranianos, que eram, na sua opinião, um só povo. Foi a atividade militar do Ocidente que transformou a Ucrânia num país anti-russo, abrigando inimigos que procuram a humilhação da Rússia.

A oposição quer destruir a Rússia e é apoiada pelo Ocidente
Desde pelo menos 2004, Putin tem sido cauteloso com a oposição doméstica, temendo uma revolução no estilo ucraniano. Nessa linha de pensamento, as forças da oposição eram uma quinta coluna que se infiltrava na pátria pura, levando à marcação de ativistas, jornalistas e organizações como agentes estrangeiros.

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Putin declarou que o seu oponente Alexei Navalny era um agente da CIA usando “materiais dos serviços especiais dos EUA”. Até ao envenenamento de Navalny em agosto de 2020 houve, segundo o presidente, um complô perpetrado para manchar a reputação de Putin.

A limpeza da oposição pode agora ser vista como um pré-requisito para a invasão da Ucrânia. Desde o início da guerra, os últimos vestígios de meios de comunicação independentes foram eliminados e centenas de milhares de pessoas fugiram da Rússia. Qualquer crítica à guerra pode levar russos à prisão durante 15 anos.

O movimento LGBTQ é um complô contra a Rússia
Em 2012, o caso contra Pussy Riot, uma banda punk crítica ao regime, foi o ponto de viragem. O Kremlin tentou apresentar o grupo e os seus seguidores como provocadores sexualmente subversivos cujo objetivo era destruir a Igreja Ortodoxa Russa e os valores tradicionais.

As queixas estenderam-se a organizações não governamentais estrangeiras e ativistas LGBTQ, acusados ​​de corromper russos desde a infância. Logo, o alarmismo anti-LGBTQ se tornou um dos pilares da política russa.

Putin, apresentando o manifesto do seu partido antes das eleições parlamentares de 2021, afirmou que quando o Ocidente tentou abolir o conceito de género, os professores foram autorizados a decidir o sexo das crianças.

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O patriarca Kirill, chefe da Igreja Ortodoxa Russa, disse que a invasão é necessária para proteger a Ucrânia de língua russa de um Ocidente que insiste que qualquer participante do seu clube de nações realize uma parada do orgulho gay.

Ucrânia está a preparar armas biológicas contra a Rússia
Esta teoria ecoa as declarações de Putin em 2017, quando o líder russo acusou especialistas ocidentais de recolher material biológico de russos para experiências científicas.

Na segunda semana da guerra, ‘influencers’ pró-regime e políticos de alto escalão, incluindo o ministro dos Negócios Estrangeiros, Sergei Lavrov, alegaram que as secretas russas tinham obtido evidências de que os Estados Unidos e a Ucrânia estavam a desenvolver armas biológicas – na forma de morcegos e pássaros doentes – para espalhar vírus na Rússia.

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