Arte da falsificação: dos Maias ao euro, a atividade ilegal é tão antiga quanto o próprio dinheiro

Ao longo da história, diversos falsificadores tentaram imitar moedas e notas através de todos os tipos de materiais e técnicas

Francisco Laranjeira

A falsificação de dinheiro é uma atividade ilegal tão antiga quanto o próprio dinheiro – é mesmo considerado “o segundo comércio mais antigo do mundo”.

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Ao longo da história, diversos falsificadores tentaram imitar moedas e notas através de todos os tipos de materiais e técnicas… ainda antes até de haver dinheiro: na época dos Maias, quando o cacau era utilizado como uma espécie de moeda para trocas comerciais, foram encontrados vestígios de fraude – foi usada terra, lama ou casca de abacate como ‘substitutos’.

No ano 600 A.C., altura da cunhagem das primeiras moedas, na Grécia, foi quando começou a fraude – o método mais utilizado consistia em misturar materiais baratos com o ouro ou a prata. Outra prática comum era reduzir o peso das moedas, cortando ou limando as arestas que sobraram após a cunhagem. Eram conhecidas como ‘moedas cortadas’, explicou esta segunda-feira o jornal espanhol ‘El Economista’, uma vez que continham menos do principal metal precioso e por isso menos valor do que o legal.

Outro método mais rápido, cujo resultado era no entanto grosseiro, consistia em fazer cópias exatas das moedas originais com moldes de argila ou gesso: era bastante popular na época romana, devido ao baixo custo, mas também mais fácil para detetar pelas imperfeições ou mesmo o som que fazia ao cair. Por último, uma técnica que ficou conhecida como ‘chapeamento’, uma falsificação no qual o interior da moeda era substituído por um metal básico de valor inferior, coberto depois com uma camada fina do metal precioso.

O combate à fraude foi uma das preocupações dos Governos de todo o mundo desde cedo: através de medidas de segurança, como o cordão aplicado nas arestas de algumas moedas. Mas sobretudo através da aplicação de sanções e punições, como medida dissuasiva.

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O imperador chinês Gaozong, em 1162, emitiu um decreto a punir a falsificação com a morte, assim como recompensas para os informantes. Na Inglaterra, um casal foi condenado no século VXII por cortar 40 moedas de prata – ele foi enforcado e esquartejado, ela queimada viva. O último falsificador inglês a ser enforcado foi David Hartley, em 1770.

No início dos Estados Unidos, a pena para a falsificação de moedas também era a morte. A punição foi tão severa porque a falsificação foi considerada uma ameaça à segurança do Estado. Em Espanha, a pena de morte para crimes relacionados à falsificação de dinheiro vigorou até 1822, quando foi substituída pela prisão perpétua.

O papel-moeda revolucionou a falsificação de dinheiro. Na China, onde foi introduzida esta forma de pagamento, surgiram as primeiras falsificações: esse “dinheiro voador”, como era conhecido devido ao seu baixo peso, já tinha um sistema de circulação muito bem-conseguido no século X. O papel-moeda era feito de amoreira e as matas eram vigiadas por guardas para garantir que os falsificadores não tinham acesso fácil ao papel.

Mas, apesar das medidas punitivas, a falsificação nunca parou. Os especialistas calcularam que, nos Estados Unidos, na primeira metade do século XIX, metade do dinheiro em circulação era falso, apesar de nas notas vir inscrita a frase “falsificação é a morte”. Não era dissuador o suficiente.

Entre o século XIX e o início do século XX, muitos países enfrentaram casos graves de falsificação: a Espanha e seus durões sevilhanos; Portugal e a crise das notas de 1925; Hungria e os francos para vingar a I Guerra Mundial.

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No que diz respeito a períodos de conflito, como no caso da II Guerra Mundial, ficou famosa a ‘operação Bernhard’, da Alemanha: um ataque financeiro para falsificar 30 mil milhões de libras, jogá-las do ar sobre a Inglaterra e assim causar o colapso da sua economia. O plano acabou por não seguir em diante depois de os respetivos promotores terem caído em desgraça aos olhos da liderança de Hitler. Mas o dinheiro falso, de excelente qualidade, quase indistinguível dos originais, ainda foi usado para financiar operações dos serviços de inteligência alemães.

O caso dos ‘superdólares’ foi considerado uma das melhores falsificações da história, devido ao grau de qualidade e semelhança: eram tão perfeitos que nem os serviços secretos conseguiam distinguir. Tinham a mesma tinta de mudança de cor de alta qualidade e foram impressos em papel com a mesma composição de fibras dos originais.

Essas imitações, que começaram a circular em 1980, foram distribuídas pelo mundo, e ainda eram encontradas nos anos 2000. Em 2013, entrou em circulação uma nova nota de 100 dólares, com novas medidas de segurança para tentar travar a falsificação. Há dúvidas sobre quem foi o responsável pela operação fraudulenta mas os Estados Unidos sempre apontaram a Coreia do Norte como responsável.

A chegada do euro também significou uma mudança de paradigma na falsificação, já que muitos especialistas em fraudes especializaram-se na nova moeda. Tanto que, na primeira década do século, foi detetada uma queda significativa dos dólares falsificados. Todos os anos, o BCE retira de circulação centenas de milhares de notas falsas.

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