O segundo período do ano letivo de 2025/2026 começa com menos 310 professores devido a aposentações, um número que reflete apenas os docentes subscritores da Caixa Geral de Aposentações, podendo ser superior, já que os dados da Segurança Social não são públicos. As reformas continuam a ser um dos principais fatores da falta de professores, problema que mais preocupa a comunidade escolar. Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP), admite recear um agravamento da situação ao longo de 2026, com impactos crescentes no funcionamento das escolas.
Em declarações ao Diário de Noticias (DN), Filinto Lima antevê que “o ano [2026] continuará a ser ensombrado pelo agravamento da escassez de professores”, alargando-se progressivamente a regiões para além das já mais afetadas — Lisboa e Vale do Tejo, Alentejo e Algarve. O responsável defende que cabe ao Ministério da Educação, Ciência e Inovação (MECI) “criar estratégias para valorizar e dignificar a carreira docente, de modo a atrair jovens para a profissão”, sublinhando que, além da falta de professores, será essencial reforçar terapeutas, mediadores linguístico-culturais, técnicos especializados e assistentes operacionais, “uma necessidade premente” para melhorar a qualidade das aprendizagens e da Escola Pública.
Também Cristina Mota, porta-voz da Missão Escola Pública (MEP), um movimento apartidário de professores, afirma não ter “grandes expectativas para 2026”, resumindo o cenário a “ano novo, problemas velhos”. Na sua análise, após dois anos de legislatura, não se registaram mudanças significativas nas escolas, apontando um “discurso público propagandista” em contraste com a realidade diária. A responsável acusa o MECI de avançar com “medidas avulsas”, inicialmente apresentadas como temporárias, mas que acabam por se instalar, contribuindo para o desgaste da profissão, a perda de atratividade da carreira e o agravamento do declínio da escola pública. A MEP alerta ainda que a redução das exigências para o acesso à docência, já verificada em 2023, poderá aprofundar-se, com a admissão de docentes não profissionalizados, sobretudo no 1.º ciclo, e a diminuição dos requisitos para a habilitação própria.
No setor privado, os desafios não são menores. João Trigo, diretor do Colégio Efanor, em Matosinhos, considera que 2026 será marcado por mudanças constantes “num mundo de complexidade, desigualdades e perda da cultura escolar”, identificando como principal preocupação a mesma das escolas públicas: a falta de professores. “Público e privado estão no mesmo barco”, afirma, acrescentando que o ensino privado enfrenta um problema acrescido com os concursos lançados pelo MECI após o início do ano letivo. Para o responsável, esta prática está a “gerar instabilidade”, deixando turmas sem professores a meio do ano para resolver carências noutros estabelecimentos, uma situação que considera difícil de compreender num sistema tutelado pelo mesmo ministério.
A escassez de docentes tem também impactos profundos na saúde mental. Alfredo Leite, especialista em Psicologia Organizacional e da Educação e fundador da “Mundo Brilhante”, alerta que, sem mudanças estruturais, 2026 trará mais instabilidade de horários e “mais desigualdade silenciosa”. Para o especialista, “a falta de professores não é apenas um problema logístico, é um problema emocional”, pois a ausência de adultos estáveis aumenta a ansiedade, a indisciplina e o conflito, gerando um ciclo de desgaste que conduz a mais burnout entre quem permanece. Alfredo Leite antecipa ainda maior pressão sobre os professores e um crescimento da preocupação com o uso de smartphones, por afetarem a atenção sustentada e o autocontrolo, essenciais ao processo educativo.
O cenário a médio prazo reforça os alertas. Segundo o Estudo de diagnóstico de necessidades docentes de 2025 a 2034, da Nova School of Business and Economics, dos cerca de 122 mil professores em funções em 2024/2025, apenas 76 mil deverão permanecer ativos em 2034/2035, o que representa a perda de mais de um terço do corpo docente em dez anos. Até 2029/2030 serão necessários 20 mil novos professores e, até 2034/2035, cerca de 38 mil, exigindo o recrutamento anual de aproximadamente 3800 docentes. O 3.º ciclo e o Secundário serão os mais afetados, com carências críticas em Português, Matemática e Física e Química. Em termos regionais, o estudo aponta o Norte e o Centro como as zonas que enfrentarão maiores dificuldades, com 43% dos docentes do Centro e 39% do Norte a reformarem-se até 2035, ultrapassando Lisboa, Alentejo e Algarve.














