Apesar de proximidade com Ucrânia, empresas portuguesas com presença na Polónia estão a trabalhar de forma “normal”, dizem Câmaras do Comércio

No dia 24 de fevereiro de 2022, a Rússia iniciou a sua ofensiva ao país vizinho, a Ucrânia. Mais de dois meses depois, a guerra continua, as baixas são muito elevadas e ainda não é possível prever os custos da reconstrução das cidades ucranianas.

Perto da fronteira com a capital ucraniana, Kiev, a Polónia é dos países que recebe mais refugiados e que consegue ver mais de perto as dificuldades.

Portugal e a Polónia têm relações comerciais promovidas pela Câmara de Comércio Polónia-Portugal (PPCC) e pela Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa (CCIP), que gerem os interesses de cerca de 200 empresas parceiras.

Em declarações à ‘Executive Digest’ sobre como estão as empresas com ligações a Portugal a operar no país neste momento, Pedro Magalhães, Diretor da área de Internacionalização da CCIP, e Wojciech Baczynski, Diretor Executivo da PPCC, explicaram que “de um modo geral, todas as empresas portuguesas associadas à Câmara de Comércio Polónia-Portugal estão a trabalhar de uma maneira normal”.

“Muitas delas têm-se envolvido diretamente no apoio aos refugiados da guerra, que chegaram à Polónia em número a rondar os 3 milhões, ou seja, perto de 10% da população polaca. Várias empresas têm também ajudado a trazer para a Polónia os familiares dos seus colaboradores ucranianos, que faziam parte uma parte importante dos seus quadros antes da guerra. Existem também alguns casos de empresas com presença direta na Ucrânia, onde foi necessário aplicar medidas que vão desde a mitigação imediata de riscos comerciais, até à relocação dos quadros na Polónia.”

Sobre se existe algum medo perante a situação atual, os dirigentes dizem que sim, mas acrescentaram que se verificou “um movimento muito rápido, tanto ao nível particular como corporativo, de um clima de ação e apoio ao povo ucraniano, forçado a abandonar as suas casas e o seu país”.

Os pedidos de ajuda que ambas as câmaras obtiveram até agora foram sobretudo relacionados com “fatores económicos que apareceram antes da erupção da guerra, como por exemplo o aumento dos preços da energia e gás para o segmento industrial”, mas também referem “pedidos de apoio por parte das organizações e empresas diretamente ligadas ao apoio diário à comunidade ucraniana e aos refugiados”.

Quando questionados sobre os impactos já sentidos na atividade do país, a CCIP e a PPCC referiram dois em particular. “Em primeiro lugar, aumentou a pressão da inflação, por volta dos 12% atualmente, mas que já vinha a ser acentuada antes da guerra. Em segundo lugar, vemos um impacto negativo da saída de funcionários ucranianos para defender o seu país, visível, sobretudo, na maior escassez de trabalhadores nas áreas dos transportes, logística e setor de construção.”

Referem ainda a dificuldade em encontrar alternativas para a importação de gás e petróleo, sendo que já não podem recorrer à Rússia, dizendo que o problema “está a ser resolvido a nível governamental”.

“Existem também muitas empresas com níveis de penetração comercial significativa na Rússia, Ucrânia e Bielorrússia, que sofreram impactos significativos, mas estamos convencidos que, no médio prazo, serão encontradas as soluções alternativas.”

Para ajudar, ambas as câmaras têm “feito um trabalho de apoio customizado às empresas, esclarecendo dúvidas, disponibilizando informações e, acima de tudo, colocando frente a frente as empresas exportadoras portuguesas com os principais importadores, distribuidores ou clientes finais na Polónia”.

“As oportunidades de negócio continuam a acontecer, o mercado está a funcionar e existe procura por produtos e serviços made in Portugal. Nós temos a vantagem de estar em cima do acontecimento e de ter os meios disponíveis para que as empresas corram menos riscos e comecem ou aumentem os seus negócios de uma forma mais célere com este mercado”, concluem.

 

DFJ VINHOS

Um dos membros da PPCC é a DFJ VINHOS, que exporta “diversas referências de vinho, maioritariamente da região de Lisboa, tinto, branco e rosé” para a Polónia.

Luís Gouveia, Diretor Comercial e Marketing, disse à ‘Executive Digest’ que a relação recíproca de tensão entre os dois países (Polónia e Rússia) já existia antes da guerra, exemplificando que “não eram aceites na rotulagem para a Rússia textos em polaco. O mesmo se passava com o inverso”.

Para além disso, explica que os negócios da empresa em Portugal e na Polónia enfrentam desafios relacionados com a guerra que vão “refletir-se no preço do consumidor”, acrescentando que “deixaram de haver determinados modelos de garrafas, tipo de cartão, tipo de papel”. No entanto, não reportam qualquer problema relativamente ao importador.

Como o vinho é um produto que não faz parte da “cesta básica” de bens na Polónia, a empresa pode enfrentar mais desafios com a continuação da guerra, a pressão da inflação e o aumento das taxas de juro.

 

RFF & Associados – Sociedade de Advogados

A sociedade de advogados RFF também faz parte das empresas com presença na Polónia, prestando serviços de assessoria a “clientes individuais de nacionalidade polaca que mudaram a sua residência para Portugal” e para as empresas atua ao nível de “potenciais investimentos no mercado português, essencialmente na área das telecomunicações e do IT”.

A empresa explicou também à ‘Executive Digest’ que, até ao momento, não sentiu qualquer medo por parte dos parceiros no país, mas que receberam pedidos “de diversas pessoas que se encontravam na fronteira e às quais prestámos os nossos serviços de imigração e tax”.

Em termos de resultados, escassez de recursos e funcionários, a empresa ainda não sofreu qualquer impacto, mas diz que enfrenta desafios “resultantes de todas as externalidades negativas da guerra, designadamente a inflação, as taxas de juro e as maiores dificuldades na nossa (pequena) transição energética”.

 

Syone

“A Syone é membro da PPCC – Polish Portuguese Chamber of Commerce e temos vindo a desenvolver vários contactos com diversas entidades, no âmbito de recrutamento de recursos e também de desenvolvimento de negócio”, começa por explicar o CEO da Syone, Eduardo Taborda.

Têm ainda algumas parcerias com universidades para protocolos de colaboração e integração de recursos, tanto em estágios curriculares como profissionais. “Neste momento, e para além dessas iniciativas, temos também algum desenvolvimento de projetos para clientes portugueses com atividade na Polónia”, acrescenta.

Sobre os impactos diretos causados pela guerra, registaram “o cancelamento de uma atividade de divulgação e prospeção que tínhamos já agendada, com a colaboração do AICEP e da embaixada de Portugal, com o apoio da PPCC e que adiámos para uma data mais oportuna”.

Mais uma vez, os principais desafios que enfrentam não estão relacionados diretamente com a guerra, pois “a Polónia está em grande desenvolvimento e tem vindo a adaptar-se a uma realidade cada vez mais inserida no espaço europeu, pelo que os principais desafios são transversais à União Europeia e prendem-se essencialmente com a grande procura e consequente escassez de recursos disponíveis no mercado”.

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