Apenas por terem o mesmo apelido: excêntrico milionário deixa 10 milhões de euros em testamento a pacata vila francesa

Guy Paris, presidente da câmara há 28 anos, ficou sem palavras

Francisco Laranjeira

Numa manhã perfeitamente banal, o telefone tocou na câmara municipal de Thiberville, uma pequena vila da Normandia (França) com pouco mais de 1.800 habitantes. Do outro lado da linha estava um advogado. O assunto? Uma herança. O valor? 10 milhões de euros.

Guy Paris, presidente da câmara há 28 anos, ficou sem palavras. O dinheiro vinha de um homem chamado Roger Thiberville — meteorologista parisiense, 91 anos, sem filhos, que morreu em agosto último, relatou a publicação ‘Euronews’. Nunca viveu na vila. Nunca lá passou férias. Não tinha família ali. Apenas partilhava o apelido com a localidade.

E, ainda assim, decidiu deixar toda a sua fortuna à pequena comuna.

Os 10 milhões de euros representam cinco vezes o orçamento anual da vila. Para um município deste tamanho, é como ganhar o Euromilhões coletivo. E há mais uma boa notícia: como se trata de uma entidade pública, Thiberville não terá de pagar imposto sucessório.

“É uma quantia que ultrapassa a imaginação”, confessou o autarca à rádio ‘France Bleu’. Mas, se alguém espera loucuras ou gastos impulsivos, pode esquecer. “Não vamos gastar tudo. Vamos gerir este legado com prudência e responsabilidade.”

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Roger Thiberville nasceu em 1932 numa família de viticultores em Mantes-la-Jolie, a cerca de 50 quilómetros de Paris. Herdou o património dos pais, que inicialmente o tinham deixado à irmã. Após a morte desta, sem descendentes, o dinheiro passou para ele. E, sem herdeiros diretos, decidiu que o seu nome deveria continuar a viver… numa terra com o mesmo apelido.

Fez apenas um pedido simples: que as suas cinzas fossem colocadas no cemitério local, acompanhadas de uma placa com o seu nome. Um gesto discreto, quase poético — trocar o anonimato parisiense por um lugar definitivo numa pequena vila normanda.

Thiberville é o retrato típico da França rural: um castelo do século XIX, ruas tranquilas, nada de turismo em massa nem manchetes nacionais. Até agora.

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Com o novo “tesouro”, a vila já começou a pensar no futuro. A prioridade será liquidar um empréstimo superior a 400 mil euros contraído para construir uma escola primária. Depois, vêm os projetos que podem transformar o quotidiano dos habitantes: um jardim público com zona de lazer, um campo de petanca com painéis fotovoltaicos para criar sombra, melhorias de eficiência energética nas escolas, um centro de serviços públicos e até um campo de futebol em relva sintética.

Não se fala em extravagâncias. Fala-se em qualidade de vida.

Numa altura em que tantas pequenas localidades lutam contra o despovoamento e a falta de recursos, Thiberville recebeu uma oportunidade rara. Não veio de um investidor estrangeiro nem de um plano estatal, mas da decisão silenciosa de um homem que quis que o seu nome tivesse morada definitiva. E, ironicamente, foi essa escolha solitária que pode agora redesenhar o futuro de toda uma comunidade.

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