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António Miguel Ferreira: “A tecnologia salvou a economia de um colapso”

António Miguel Ferreira é Managing Director da Península Ibérica e América Latina e membro da Comissão Executiva do grupo Claranet, fornecedor de serviços geridos em Cloud, Security e Workplace. É também Presidente da Claranet Portugal.

Em 1994 foi um dos fundadores da Esotérica, o primeiro operador privado de Internet em Portugal. De 1999 a 2005 foi diretor de Operações para a Europa do Sul, na Via Networks Inc (USA), em 2004 fundou a Amen Portugal e em 2011 a Lunacloud. De 2004 a 2010 foi membro do Conselho Fiscal da APRITEL (Associação de Operadores de Telecomunicações), de 2003 a 2010 presidente da APREGI (Associação de prestadores de registos de domínios e alojamentos), de 2010 a 2016 foi vice-presidente e líder da comissão de hosting da ACEPI (Associação de Economia Digital) e, de 2014 a 2016, vogal não-executivo do Conselho de Administração da DNS.pt.

Licenciado em Engenharia Informática pelo INSA Lyon (França), em 1996, também é autor de vários livros sobre temas relacionados com a Internet e a Cloud, em Portugal, Brasil e EUA.

Cerca de quatro meses após o início do confinamento que levou centenas de milhar de pessoas para teletrabalho, como estavam preparadas em termos tecnológicos as empresas portuguesas para esse cenário?

Em geral, não muito bem preparadas. Mas tanto a capacidade inata de improviso dos portugueses, como a dedicação dos colaboradores e da gestão das empresas, nas primeiras semanas de confinamento, mitigaram parte da impreparação. As empresas maiores, com exceção do setor público, estavam melhor preparadas, pois têm práticas de governança mais maduras, incluindo planos de continuidade de negócio. A Claranet, por exemplo, já testava todos os anos a sua capacidade de trabalho remoto, a sua produtividade e a capacidade dos seus sistemas, pois isso faz parte no nosso plano anual de teste à política de continuidade de negócio e de gestão do risco. No dia 16 de Março tínhamos a quase totalidade dos nossos colaboradores em trabalho remoto, com os meios adequados, a aceder aos recursos da empresa de forma normal, mantendo o serviço prestado aos clientes e os processos da empresa. Aquilo a que assistimos, durante o mês de Março e Abril, foi que muitas empresas precisaram de se preparar rapidamente – numa situação de maior escassez de recursos tecnológicos físicos, como computadores, devido ao impacto nas cadeias de fornecimento – para adequarem as suas plataformas e sistemas para o trabalho remoto. As ferramentas colaborativas, os laptops, as VPNs, tiveram maior procura. As nossas plataformas de Cloud, que suportam aplicações críticas de negócio para os nossos clientes, também tiveram um aumento de procura significativo. As empresas que já tinham feito a sua transformação e já utilizavam a Cloud, tanto no que respeita aos seus sistemas centrais, ERPs, sistemas de produção, plataformas de e-commerce, etc., como no que respeita às ferramentas de produtividade, tiveram uma adaptação muitíssimo mais fácil à nova realidade. As que ainda dependiam de TI mais tradicional, com utilização de meios físicos, sem recurso à Cloud, tiveram muito mais dificuldades e foram menos ágeis, com consequências para a sua produtividade na fase inicial do confinamento.

Apesar de se ter registado uma travagem brusca da atividade económica, foi um pouco diferente para as empresas de tecnologia. Como é que a Claranet enfrentou esse período? 

Como referi anteriormente, tivemos áreas em que a procura aumentou – como soluções de Cloud, Cibersegurança ou Workplace. E tivemos outras em que a procura baixou, nomeadamente soluções de Datacenter on-premises (in-house), o que chamamos de “IT tradicional”. As empresas tecnológicas foram relativamente menos afetadas que as empresas em geral, pois o recurso à tecnologia certa aumenta a competitividade e agilidade das empresas. Dentro das empresas de tecnologia e devido ao modelo “as a service” que a Claranet propõe aos seus clientes desde sempre, fortemente baseado em soluções Cloud, podemos constatar que o impacto na nossa atividade, apesar de existir, foi relativamente reduzido. É um privilégio poder estar do lado da economia que pode ajudar as empresas a transformarem-se digitalmente e a ultrapassarem os desafios mais rapidamente, como ocorreu nesta pandemia. Assim como temos um papel importante na otimização dos custos das empresas, na fase seguinte em que nos encontramos, de recuperação económica.

Esta transformação digital à pressa, como muitos especialistas chamaram, preparou as empresas para cenários adversos semelhantes a estes – por exemplo, que obriguem a uma nova necessidade de teletrabalho em larga escala?

Em Portugal, estamos muito mais bem preparados agora para o teletrabalho do que há seis meses atrás, sem dúvida. Mas ainda não houve tempo para a verdadeira transformação, com uma análise da importância estratégica que as TI têm em cada negócio, em cada empresa, para discutir, elaborar, aprovar e implementar um plano de verdadeira transformação digital. As empresas não podem continuar a investir em TI da mesma foram que o faziam há 10 ou 15 anos. Hoje existem modelos de serviços de TI, maduros e testados, que permitem reduzir o investimento e, sobretudo, aumentar a agilidade e flexibilidade das TI, adequando-a ao ritmo e necessidades de cada negócio. Só recorrendo aos melhores especialistas as empresas que ainda não o fizeram podem iniciar esta transformação. Esta fase que passámos nos últimos meses foi uma forte “chamada de atenção”, mas convém agora não perder o foco e, sobretudo, a visão estratégica. É preciso transformar o papel das TI nas empresas. É preciso recorrer mais à Cloud e a modelos ágeis de serviços. As TI não podem ser só tratadas “dentro de portas” com uma equipa limitada, dada a escassez de recursos humanos especializados que vivemos.

O que falta às empresas a nível tecnológico para rentabilizar o potencial dessa transformação digital forçada e começar a recolher benefícios?

Abandonar uma visão antiquada do IT, que privilegia o investimento em infraestruturas físicas. Devem desafiar os seus parceiros tecnológicos mais inovadores – e não necessariamente os mais antigos –  e dizer “eu hoje faço assim, mostre-me como posso fazer melhor”. As empresas podem e devem deixar de decidir investimentos em ciclos de 3 ou 4 anos, de forma pouco flexível. O plano estratégico tem esse horizonte ou até superior, mas a adequação das necessidades é feita em ciclos anuais ou mais curtos, é a nova realidade.

O chamado “novo normal” foi uma buzzword que tomou contra das declarações de empresários e políticos. No que toca à tecnologia o que acha que vai mudar?  

A tecnologia alcançou um estatuto de pilar estratégico numa grande parte da nossa economia e sociedade. A tecnologia salvou a economia de um colapso. Sem tecnologia não há transformação digital. Sem digital não há empresas com futuro. No setor público, fruto do enfoque excessivo nas finanças nos últimos anos, perdeu-se a estratégia digital, que tem que ser recuperada. O “novo normal” significa um maior recurso á tecnologia, para pessoas, empresas privadas e instituições do setor público.

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