Animação portuguesa tem “talento” e “qualidade” apesar de falta de financiamento

Produtoras e estúdios portugueses apresentaram, durante três dias no Cartoon Forum, em Toulouse, os seus projetos à procura de parcerias que permitam alcançar o financiamento necessário para os poderem realizar.

“Os projetos portugueses têm sempre enorme qualidade e criatividade. Trazemos sempre algo de novo para os mercados. O que nos batemos é contra dificuldades de produção e essas dificuldades são sobretudo derivadas de pouco financiamento”, afirmou o presidente do Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA), Luís Chaby Vaz.

Portugal teve um lugar de destaque esta semana no Cartoon Forum, a maior mostra europeia de séries de animação para televisão e plataformas, onde criadores e produtores rumam todos os anos para conseguirem engrossar os orçamentos de produção que permitam levar até miúdos e graúdos conteúdos de autor.

Após uma longa ausência entre o fim dos anos 1990 e o início dos anos 2000, a animação portuguesa voltou à ribalta europeia, mas debate-se, tal como outros países europeus, com dificuldades de financiamento.

Por temporada, uma série de animação pode ter um custo de produção de um a dois milhões de euros, dependendo dos formatos, valores que ficam muito aquém das ajudas públicas em Portugal.

“Do lado do ICA, temos feito o que acreditamos que é um caminho importante de desenvolvimento e apoio dos projetos, mas esse passo, que é bastante significativo para nós, do ponto de vista do orçamento de produção de projetos destes, fica muito aquém das necessidades”, reconheceu Luís Chaby Vaz.

Em Portugal, o fundo de apoio à animação é de 600 mil euros anuais, não podendo um projeto receber mais de 300 mil euros, sendo depositada alguma esperança na nova diretiva do audiovisual.

Até agora, um pouco por toda a Europa, o apoio à animação tem sido feito através dos canais públicos de televisão. Em Portugal, a RTP dispõe de um fundo anual de 100 mil euros para subvencionar conteúdos de animação, o que a própria estação pública admite ser “irrisório” tendo em conta os custos de produção.

“Há alguns anos estabelecemos o montante mínimo de 100 mil euros anuais para apoio da animação portuguesa, apoio esse mais orientado para séries de animação, especiais de TV e longas-metragens. Temos noção que, quando se trata de animação, tal montante é irrisório, mas é o valor que nos é possível. Temos honrado esse compromisso e até excedido esse valor”, disse Andrea Basílio, responsável de Desenvolvimento de Conteúdos na RTP.

Mesmo reduzido, este apoio já ajudou a produzir séries como “Lengalongas”, “7 Caixas”, “Diário de Alice”, “Crias”, “Sr. Passageiro” “Duarte, uma peça de arte”, “Olá, como te sentes” e ainda “Saaskatoons”, que foi apresentada no Cartoon Forum de 2021 e procura agora complementar este apoio da RTP.

Com um orçamento mais avultado, a vizinha TVE esteve no Cartoon Forum à procura de séries com um elemento mais pedagógico para preencher as suas grelhas nos próximos anos e os projetos portugueses apresentados nesta edição da mostra não passaram despercebidos.

“Não vou revelar quais os projetos, mas tenho a certeza de que alguns vão estar no nosso anúncio anual, que fazemos sempre no início do ano e onde desvendamos quais as séries que vamos ajudar a produzir”, disse o subdiretor de conteúdos infantis na TVE, Yago Fandiño Lousa.

Muitas vezes, uma série de animação pode ter financiamento de vários canais de televisão europeus, como é o caso de “Diário de Alice”, do estúdio português Sardinha em Lata, que é coproduzida pela TVE e pela RTP.

Yago Fandiño Lousa gostaria que o número de coproduções entre os dois países aumentasse: “Apesar de sermos vizinhos, parece que Portugal e Espanha estão de costas voltadas. Olhamos para fora e não uns para os outros, mas há cada vez mais relações entre produtoras espanholas e portuguesas e mantemos uma boa relação com a RTP. Aqui vemos como somo próximos e, juntos, temos mais força para atacar este mercado”.

Outra possibilidade para desenvolver o setor em Portugal é atrair produções de animação para território nacional, onde as autoridades portuguesas querem mostrar que existem todas as condições para desenvolver projetos de qualidade.

“Portugal vende-se através do nosso talento, através daquilo que os nossos estúdios e as nossas empresas de produção têm capacidade de fazer e produzir, com um incentivo muito competitivo do reembolso até 30% do investimento”, disse o diretor da Portugal Film Commission, Manuel Claro.

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