Ameaça russa ao gás europeu vai fazer Portugal sentir “choque nos preços”, apesar da baixa dependência, alerta especialista

Vítor Santos, antigo presidente da Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE) e professor catedrático aposentado do ISEG, falou em exclusivo à ‘Executive Digest’ para contextualizar a ameaça feita pelo líder do Kremlin

Francisco Laranjeira

“Portugal tem hoje uma exposição direta muito reduzida ao gás russo, mas isso não significa que esteja imune ao impacto de uma crise energética na Europa.”

O alerta é do economista Vítor Santos, antigo presidente da Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE) e professor catedrático aposentado do ISEG, que considera que o verdadeiro risco para o país estaria sobretudo no aumento dos preços da energia. “O nosso país depende essencialmente de gás natural liquefeito descarregado no terminal de Sines, vindo sobretudo da Nigéria e dos Estados Unidos”, explica. “Isso significa que um corte imediato do gás russo não criaria um problema de escassez física em Portugal, ao contrário do que poderia acontecer em alguns países da Europa Central.”

Mas o especialista deixa um aviso claro: “Mesmo com pouca dependência direta, Portugal sentiria o impacto através dos preços, porque está integrado no mercado europeu de energia.”

A ameaça de Moscovo

A análise surge depois de o presidente russo, Vladimir Putin, ter sugerido que a Rússia poderá deixar de fornecer gás aos mercados europeus e direcionar as exportações para outras regiões do mundo.

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“Talvez fosse mais lucrativo para nós parar de abastecer o mercado europeu neste momento e entrar noutros mercados que estão a abrir-se”, afirmou o líder russo, citado pela ‘Reuters’.

Putin reagia aos planos da União Europeia de proibir totalmente as importações de gás russo até 2027, incluindo contratos de gás natural liquefeito de curto prazo.

O presidente russo sublinhou que não se trata ainda de uma decisão formal, mas admitiu que poderá avançar com estudos sobre essa possibilidade. “Estou apenas a pensar em voz alta, mas vou instruir o Governo a trabalhar nesta questão em conjunto com as nossas empresas”, afirmou.

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A ligação residual de Portugal ao gás russo

Apesar da forte redução da dependência energética europeia da Rússia desde o início da guerra na Ucrânia, Portugal ainda mantém uma ligação residual ao gás russo.

Segundo a ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, cerca de 5% do gás natural liquefeito importado por Portugal ainda tem origem na Rússia.

“Há uma única empresa que tem um contrato de longo prazo, uma empresa espanhola, a Naturgy, que importa gás russo através de Sines”, explicou a governante.

Esse volume representa uma fatia pequena do consumo nacional, mas está ligado a contratos comerciais que o Estado português não pode cancelar unilateralmente.

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“Enquanto não existir um enquadramento legal europeu forte, não podemos atuar por questões contratuais”, afirmou a ministra.

A estratégia energética da Europa

A União Europeia aprovou no final do ano passado um plano para eliminar totalmente as importações de energia russa.

O calendário prevê:

– fim do gás natural liquefeito russo em 1 de janeiro de 2027

– fim do gás por gasoduto até 30 de setembro de 2027

A decisão foi tomada após a invasão da Ucrânia pela Rússia em fevereiro de 2022.

Desde então, o peso do gás russo no abastecimento europeu caiu drasticamente.

“Antes da guerra, a Rússia representava cerca de 40% a 45% das importações de gás da União Europeia”, recorda Vítor Santos. “Hoje essa quota caiu para cerca de 10% a 15%, graças à diversificação de fornecedores.”

O risco está nos mercados

Apesar dessa redução, um corte total do fornecimento russo continuaria a ter impacto.

“O principal efeito seria um aumento da procura europeia por gás natural liquefeito no mercado global”, explica o economista.

Esse movimento poderia provocar maior pressão sobre os preços internacionais do gás, além do aumento do custo da eletricidade produzida em centrais a gás, assim como repercussões nas tarifas energéticas pagas pelos consumidores.

“Mesmo sem depender diretamente do gás russo, Portugal sentiria esse choque através do preço da energia”, sublinha.

Uma ameaça sobretudo geopolítica

Para Vítor Santos, a ameaça de Moscovo deve ser interpretada sobretudo como um sinal político. “Em 2022 a Rússia tinha capacidade para gerar simultaneamente escassez e choque de preços na Europa. Hoje a situação é diferente, porque o continente está muito mais preparado e diversificado.”

Ainda assim, um corte abrupto poderia provocar forte volatilidade nos mercados energéticos. “Não significaria necessariamente falta de gás, mas poderia criar instabilidade e aumentar os custos da energia no curto prazo”, conclui o especialista.

E isso bastaria para voltar a colocar a energia — e a geopolítica — no centro das preocupações económicas da Europa.

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