Ambidestria Corporativa: a capacidade de entregar o presente enquanto se constrói o futuro

Opinião de Luís Rasquilha, CEO do Ecossistema Inova. Board Member/Non Executive Diretor (NED) da GIANT Brasil e da Maza Tarraf. Líder do Comitê de estratégia do Consórcio Unifisa. Professor convidado na FDC, Hospital Albert Einstein e ESALQ/USP. Colunista do MIT Sloan Review Brasil e Executive Digest Portugal

Luís RasquilhaLuís RasquilhaCEO do Ecossistema Inova. Board Member/Non Executive Diretor (NED) da GIANT Brasil e da Maza Tarraf. Líder do Comitê de estratégia do Consórcio Unifisa. Professor convidado na FDC, Hospital Albert Einstein e ESALQ/USP. Colunista do MIT Sloan Review Brasil e Executive Digest PortugalVer todos os artigos
Luís Rasquilha
Luís RasquilhaCEO do Ecossistema Inova. Board Member/Non Executive Diretor (NED) da GIANT Brasil e da Maza Tarraf. Líder do Comitê de estratégia do Consórcio Unifisa. Professor convidado na FDC, Hospital Albert Einstein e ESALQ/USP. Colunista do MIT Sloan Review Brasil e Executive Digest PortugalSetembro 29, 2026 14:35

Existe uma tensão que acompanha praticamente todas as organizações: entregar o resultado de hoje ou preparar o negócio para amanhã? Durante muito tempo, essa pergunta foi tratada quase como uma escolha. De um lado, eficiência, produtividade, processos, escala, metas, orçamento e resultado. Do outro, inovação, experimentação, tendências, novos modelos de negócio, transformação e futuro. O problema é que o mundo atual já não permite escolher um dos lados.

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Uma empresa que olha apenas para o presente pode ser extremamente eficiente em fazer algo que, em pouco tempo, deixará de ser relevante. E uma empresa obcecada apenas pelo futuro pode consumir recursos, energia e atenção em experimentações sem conseguir sustentar economicamente a operação que paga as contas. É nesse ponto que a Ambidestria Corporativa deixa de ser apenas um conceito interessante de gestão e passa a ser uma competência fundamental para a longevidade empresarial.

Ambidestria significa desenvolver a capacidade de fazer duas coisas aparentemente contraditórias ao mesmo tempo: maximizar o negócio atual e explorar sistematicamente o negócio futuro.

Não se trata de escolher entre eficiência e inovação. Trata-se de dominar ambas.

Exploitation + Exploration

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A literatura sobre ambidestria consolidou dois movimentos fundamentais: exploitation e exploration.

  • Exploitation representa o aproveitamento máximo daquilo que a organização já sabe fazer. Significa melhorar processos, aumentar produtividade, reduzir custos, elevar margens, aperfeiçoar produtos e serviços, desenvolver clientes, ganhar eficiência operacional e extrair o máximo valor possível das competências existentes.
  • Exploration representa a procura pelo novo. Novos mercados, tecnologias, comportamentos, modelos de negócio, produtos, serviços, competências e fontes de receita.

Um lado trabalha predominantemente com certeza, eficiência e execução. O outro trabalha com incerteza, experimentação e descoberta.

O primeiro pergunta: Como podemos fazer melhor aquilo que já fazemos?

O segundo pergunta: O que deveríamos começar a fazer que ainda não fazemos?

Uma organização verdadeiramente ambidestra precisa responder às duas perguntas simultaneamente. Os estudos sobre o tema mostram que empresas ambidestras precisam resolver continuamente o trade-off entre velocidade e criatividade, de um lado, e escala e produtividade, do outro. Poucas organizações conseguem ser realmente fortes nas duas dimensões.

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E talvez esteja exatamente aí uma das grandes diferenças entre empresas que apenas crescem e empresas que conseguem construir longevidade.

O sucesso do presente pode ser o maior inimigo do futuro

Existe um paradoxo importante na gestão. Quanto mais bem-sucedida uma organização se torna, maior tende a ser sua confiança naquilo que a levou até ali. Os processos funcionam. Os clientes compram. As margens existem. Os indicadores são conhecidos. As estruturas estão estabelecidas. Os executivos dominam as regras daquele jogo. Naturalmente, a empresa procura aperfeiçoar esse sistema.

O problema surge quando o contexto muda mais rapidamente do que a capacidade da organização de questionar suas próprias certezas. Nesse momento, aquilo que ontem era competência pode transformar-se em rigidez. Aquilo que era experiência pode tornar-se resistência. Aquilo que era vantagem competitiva pode converter-se em dependência do passado. E aquilo que era excelência operacional pode significar apenas executar com enorme eficiência um modelo que está perdendo relevância.

Esse é um dos grandes desafios da gestão contemporânea: não permitir que o sucesso acumulado reduza a capacidade de enxergar o que está chegando. Ambidestria, portanto, não é apenas inovação. É uma disciplina de gestão capaz de impedir que a organização fique aprisionada ao próprio sucesso.

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O presente financia o futuro. O futuro garante a continuidade do presente.

Existe uma forma simples de entender essa lógica.

  • RUN — operar e maximizar o presente.
  • CHANGE — transformar aquilo que precisa evoluir.
  • CREATE — construir aquilo que ainda não existe.

A organização precisa das três dimensões.

  • RUN garante receita, margem, qualidade, produtividade e execução.
  • CHANGE garante adaptação, transformação e atualização.
  • CREATE garante novas possibilidades de crescimento e relevância futura.

O erro está em imaginar que uma dessas dimensões pode substituir as demais.

  • Sem RUN, falta resultado.
  • Sem CHANGE, cresce a obsolescência.
  • Sem CREATE, desaparece o futuro.

A gestão ambidestra é justamente a capacidade de distribuir atenção, talento, recursos, liderança e investimento entre essas três agendas. E isso exige escolhas. Porque a disputa mais importante dentro das empresas raramente é apenas por dinheiro. É por tempo, atenção e prioridade da liderança.

A realidade brasileira mostra que ainda temos um longo caminho

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O estudo Ambidestria Corporativa: Raio X da Realidade Brasileira, realizado pelo Ecossistema Inova em parceria com a Michael Page, trouxe um dado particularmente interessante: 72,81% dos gestores pesquisados afirmavam estar familiarizados com o conceito. À primeira vista, um excelente resultado. Quando a pesquisa aprofundou o nível de conhecimento, porém, apareceu outra realidade. A média ponderada de profundidade ficou em apenas 2,9 numa escala de 0 a 10, mostrando que conhecer a expressão está muito distante de dominar sua aplicação. E talvez esse seja um dos pontos mais importantes de toda essa discussão.

Não precisamos de empresas que conheçam a palavra ambidestria. Precisamos de empresas que operem de forma ambidestra.

A mesma pesquisa identificou outros sinais importantes. Embora 66,12% dos respondentes considerassem que suas organizações apoiavam a exploração de novas oportunidades, 33,69% sentiam que não eram incentivados a pensar de maneira inovadora. Quase metade demonstrava dúvidas ou discordância sobre a eficácia da alocação de recursos entre explorar o novo e melhorar o existente. E 54,65% percebiam barreiras internas à mudança, apesar de uma maioria classificar a cultura de sua organização como inovadora.

Aqui aparece um clássico problema de gestão: o discurso anda mais rápido do que a prática.

  • Empresas dizem querer inovação, mas continuam premiando exclusivamente eficiência.
  • Pedem visão de longo prazo, mas cobram resultados trimestrais.
  • Falam em experimentação, mas penalizam o erro.
  • Defendem colaboração, mas mantêm estruturas organizacionais em silos.
  • Querem transformação, mas preservam os mesmos modelos de decisão, orçamento, liderança e avaliação de desempenho.

Ambidestria não acontece por declaração. Acontece por design organizacional.

Não existe ambidestria sem contexto

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Uma das contribuições importantes dos estudos sobre ambidestria é mostrar que ela pode assumir diferentes configurações.

  • Na ambidestria estrutural, a organização separa estruturas dedicadas à exploração do futuro das estruturas responsáveis pela operação atual. Uma unidade pode estar concentrada em eficiência, escala e execução enquanto outra trabalha inovação, novos negócios ou tecnologias emergentes.
  • Na ambidestria contextual, essa separação não é necessariamente formal. As próprias pessoas e equipes precisam desenvolver capacidade para alternar entre alinhamento e adaptação, execução e experimentação, presente e futuro. Nesse modelo, cada profissional toma continuamente pequenas decisões sobre onde colocar sua atenção e seu tempo. Por isso, sistemas, incentivos, controles, autonomia e suporte social tornam-se fundamentais para criar comportamentos verdadeiramente ambidestros.

Não existe, portanto, uma receita única. Dependendo da maturidade, tamanho, setor, cultura, recursos e velocidade de transformação do mercado, cada organização terá de construir sua própria arquitetura de ambidestria.

A pergunta não é: “Qual modelo devemos copiar?”

A pergunta correta é: “Qual configuração nos permite proteger o presente e construir o futuro simultaneamente?”

O verdadeiro gargalo está na liderança

Se existe um elemento capaz de acelerar ou bloquear a ambidestria, ele é a liderança. A pesquisa realizada pela Inova identificou cinco perfis de gestores diante do tema: Aspirantes, Céticos, Entusiastas, Comprometidos e Desconectados.

  • Os Aspirantes reconhecem a necessidade, mas procuram método.
  • Os Céticos tendem a interpretar novos conceitos de gestão como modismos ou reformulações de ideias antigas.
  • Os Entusiastas entendem o potencial e procuram combinar práticas tradicionais com abordagens mais ágeis.
  • Os Comprometidos já avançaram na jornada e procuram transformar ambidestria em prática organizacional.
  • E os Desconectados ainda possuem conhecimento superficial ou pouco estruturado sobre o tema.

Essa diversidade ajuda a explicar por que organizações submetidas às mesmas transformações externas respondem de maneiras tão diferentes.

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  • Tecnologia pode ser comprada.
  • Metodologias podem ser contratadas.
  • Dados podem ser adquiridos.

Mas nenhuma transformação relevante acontece se a liderança continuar tomando decisões com a lógica que construiu o passado.

O líder ambidestro precisa enxergar dois tempos

O líder tradicional foi treinado predominantemente para controlar. Planejar. Organizar. Orçar. Executar. Medir. Corrigir.

Tudo isso continua importante. Mas deixou de ser suficiente.

O líder ambidestro precisa dominar a operação e, simultaneamente, desenvolver aquilo que podemos chamar de visão periférica.

  • Precisa olhar para os indicadores internos, mas também para os sinais externos.
  • Precisa entender o cliente atual e observar o cliente emergente.
  • Precisa conhecer profundamente o negócio e, ao mesmo tempo, questionar suas premissas.
  • Precisa entregar resultado e criar opções.
  • Precisa controlar riscos conhecidos e aprender a navegar riscos desconhecidos.
  • Precisa saber quando insistir e quando abandonar.
  • Quando otimizar e quando experimentar.
  • Quando proteger e quando transformar.

O levantamento da Inova identificou um conjunto amplo de competências associadas ao líder ambidestro, entre elas pensamento estratégico, resolução de problemas complexos, gestão de riscos, comunicação, curiosidade, orientação para o futuro, visão sistêmica e periférica, empreendedorismo, adaptabilidade, criatividade, capacidade analítica, empatia e conhecimento multidisciplinar.

Mas talvez todas possam ser sintetizadas numa competência maior: flexibilidade cognitiva. A capacidade de mudar de lente sem perder coerência.

Ambidestria é também uma questão de incentivos

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Existe ainda um obstáculo pouco discutido. O horizonte temporal do executivo nem sempre coincide com o horizonte temporal da organização. Um executivo pode permanecer três, quatro ou cinco anos numa posição. A empresa, entretanto, precisa pensar em décadas.

Surge então uma tensão evidente: por que sacrificar parte do resultado atual para investir numa oportunidade que talvez produza retorno quando aquele executivo já não estiver mais naquela cadeira? Essa lógica ajuda a explicar por que tantas organizações possuem forte viés de curto prazo. Os sistemas de metas, bônus e reconhecimento frequentemente reforçam esse comportamento.

Por isso, falar de ambidestria sem discutir governança, incentivos, métricas e horizonte de decisão é tratar apenas parte do problema. Se queremos comportamentos ambidestros, precisamos construir sistemas ambidestros.

O futuro precisa entrar no orçamento

Talvez essa seja uma das mudanças mais práticas que as empresas precisam realizar. Durante décadas, o futuro foi tratado como reflexão. Agora precisa ser tratado como investimento. Uma organização ambidestra precisa decidir conscientemente quanto de seus recursos será destinado a:

  • KEEP — manter aquilo que continua gerando valor;
  • TRANSFORM — transformar aquilo que precisa evoluir;
  • CREATE — criar novas capacidades, produtos, serviços e modelos;
  • EXIT — abandonar aquilo que deixou de fazer sentido.

Essa lógica muda profundamente a conversa estratégica.

Porque estratégia deixa de ser apenas decidir o que fazer e passa também a significar decidir o que deixar de fazer.

  • Recursos são finitos.
  • Tempo é finito.
  • Talento é finito.
  • Capital é finito.

A empresa do futuro não será aquela que fizer tudo. Será aquela que conseguir realocar recursos mais rapidamente à medida que o contexto muda.

Da inovação episódica à organização permanentemente adaptável

Durante muitos anos, inovação foi tratada como projeto. Criavam-se laboratórios, hackathons, programas de ideias, aceleradoras e departamentos de inovação. Essas iniciativas continuam podendo gerar valor.

Mas ambidestria propõe algo mais profundo. Não basta ter uma área que olha para o futuro enquanto toda a organização continua presa ao passado. É preciso desenvolver uma organização que tenha a capacidade permanente de observar, interpretar, experimentar, aprender, decidir e escalar.

  • Isso exige conectar tendências à estratégia.
  • Estratégia à inovação.
  • Inovação à operação.
  • Dados à decisão.
  • Tecnologia às pessoas.
  • Pessoas à cultura.
  • E cultura à liderança.

Por isso, no Global Trends 4 Management, a Ambidestria Corporativa aparece integrada a outras transformações da gestão, como scanning de contexto, pós-taylorismo, design organizacional, estratégia prospectiva, governança customizada, empresas orientadas por dados, humanização da gestão e lifelong learning. Não são movimentos isolados. São partes de uma mesma transformação do management.

Ambidestria no mundo Pós-Taylorista

Existe ainda uma conexão maior. A gestão que herdamos foi profundamente influenciada pelo pensamento taylorista: eficiência, padronização, especialização, previsibilidade, controle e escala. Esse modelo produziu extraordinários ganhos de produtividade. Mas o contexto mudou.

Entramos num ambiente de maior complexidade, conectividade, velocidade tecnológica, inteligência artificial, novos modelos de negócio, transformação comportamental e crescente dificuldade de previsão.

Eficiência continua necessária. Mas eficiência sem adaptabilidade pode acelerar a organização na direção errada. É por isso que a ambidestria ganha uma relevância ainda maior no mundo pós-taylorista.

O desafio deixa de ser simplesmente maximizar eficiência. Passa a ser combinar eficiência com adaptabilidade.

  • Processo com experimentação.
  • Escala com agilidade.
  • Dados com criatividade.
  • Tecnologia com humanidade.
  • Execução com foresight.
  • Presente com futuro.

Uma agenda prática para começar

Ambidestria precisa sair do PowerPoint e entrar na gestão. Uma organização que queira avançar nessa jornada pode começar respondendo a algumas perguntas fundamentais:

  1. Quanto do nosso tempo de liderança está dedicado ao presente e quanto está dedicado ao futuro?
  2. Quanto do orçamento é destinado a RUN, CHANGE e CREATE?
  3. Quais negócios, produtos e competências devemos KEEP, TRANSFORM, CREATE ou EXIT?
  4. Quais tendências podem alterar estruturalmente nosso negócio nos próximos anos?
  5. Que oportunidades estamos explorando hoje que poderão representar receitas relevantes amanhã?
  6. Nossos indicadores medem apenas performance atual ou também capacidade futura?
  7. Nossos incentivos premiam apenas resultado ou também aprendizagem, experimentação e transformação?
  8. Nossa cultura permite questionar aquilo que atualmente funciona?
  9. Nossos líderes possuem visão periférica e sistêmica suficiente para interpretar sinais de mudança?
  10. Se o nosso principal modelo de negócio desaparecesse amanhã, saberíamos onde procurar crescimento?

As respostas provavelmente revelarão mais sobre a capacidade futura da empresa do que muitos planejamentos estratégicos tradicionais.

O presente paga as contas. O futuro garante que continuaremos tendo contas para pagar.

Ambidestria corporativa não significa dividir matematicamente a empresa em 50% presente e 50% futuro. Também não significa transformar todos em inovadores ou abandonar disciplina, processos, produtividade e eficiência.

Significa reconhecer que existem diferentes horizontes de gestão e que todos precisam receber atenção simultaneamente. O presente exige excelência. O futuro exige exploração.

A transformação exige capacidade para conectar os dois. Essa talvez seja uma das principais responsabilidades da liderança contemporânea: garantir a performance de hoje sem hipotecar a relevância de amanhã. Empresas longevas não abandonam aquilo que sabem fazer. Também não ficam reféns disso. Elas exploram suas competências atuais enquanto constroem as próximas. Maximizam aquilo que funciona enquanto experimentam aquilo que poderá funcionar. Protegem o core enquanto procuram novas fronteiras.

Não escolhem entre presente e futuro. Aprendem a viver nos dois.

E essa é, no final, a verdadeira essência da Ambidestria Corporativa: ter uma mão na excelência do presente e a outra na construção do futuro, sabendo que a longevidade depende da capacidade de usar as duas ao mesmo tempo.

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