“Alugam-se avós”: Medida polémica combate solidão dos japoneses

Num país que envelhece a um ritmo acelerado e onde a solidão é considerada um problema de saúde pública, surgiu no Japão uma solução invulgar: contratar “avós de aluguer” para ajudar famílias e, ao mesmo tempo, dar às idosas uma nova forma de se manterem ativas e socialmente ligadas.

Pedro Gonçalves
Agosto 17, 2025
12:30

Num país que envelhece a um ritmo acelerado e onde a solidão é considerada um problema de saúde pública, surgiu no Japão uma solução invulgar: contratar “avós de aluguer” para ajudar famílias e, ao mesmo tempo, dar às idosas uma nova forma de se manterem ativas e socialmente ligadas.

De acordo com a empresa japonesa Client Partners, citada pela Deutsche Welle, cerca de cem mulheres, com idades entre os 60 e os 94 anos, já participam neste programa. O objetivo é simples: colocar a experiência e as competências domésticas destas mulheres ao serviço de quem precisa — desde cuidar de crianças em horários específicos até ensinar costura, aconselhar na educação ou preparar famílias para rituais tradicionais.

Há ainda casos em que a presença destas “avós” serve para preencher o vazio emocional após a morte de uma mãe ou avó, ou até para melhorar a relação com a sogra. “Os jovens têm respeito e gratidão pelos idosos, que se conectam à sociedade e sentem um propósito nas suas vidas. Como primeiro passo para uma sociedade assim, queremos oferecer serviços que aproveitem ao máximo a sabedoria e a experiência dos idosos que apoiaram o Japão”, explica o site da agência.

Solidão em números alarmantes
Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisa sobre População e Segurança Social do Japão, publicados no final de novembro, os lares unipessoais representarão 44,3% do total no país até 2050 — número que poderá atingir 54,1% na capital, Tóquio. A projeção aponta para 10,8 milhões de pessoas com mais de 65 anos a viver sozinhas, um aumento de 50% face a 2020.

Já o censo desse ano revelou que 38% dos lares eram compostos por apenas uma pessoa, contra 20% em 1985. O fenómeno contribui para o chamado kodokushi — mortes solitárias —, que a polícia japonesa previa atingir 68 mil casos em 2024, segundo noticiou o The Guardian.

A professora Kimiko Tomioka, da Universidade Médica Nara, sublinha que “o aumento de domicílios de uma só pessoa pode ser atribuído a casamentos tardios, aumento do número de divorciados e ao crescimento da população que nunca se casou”. O estudo também aponta que fatores económicos, como o elevado custo de vida, dificultam a formação de famílias.

Um emprego e uma nova vida
Para algumas idosas, o projeto é mais do que uma ocupação temporária. “Eu tenho a oportunidade de sair e ter estas experiências e é por isso que aceitar este emprego foi a decisão certa para mim”, afirmou uma “avó de aluguer” de Tóquio à emissora pública australiana ABC.

A Client Partners salienta que muitas mulheres idosas no Japão enfrentam dificuldades em encontrar emprego — um problema grave num país onde, segundo dados de 2021 da OCDE, 20% das pessoas com mais de 65 anos vivem na pobreza.

O serviço tem um custo de 3.300 ienes por hora (cerca de 20 euros), acrescido de uma taxa fixa do mesmo valor por cada visita.

A prática de “aluguer” não é exclusiva para avós: no Japão, também existem agências que disponibilizam homens de meia-idade ou outros perfis para desempenhar papéis específicos, como acompanhar alguém a um almoço ou representar um parceiro num evento social.

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