O número de cidades capazes de sediar os Jogos Olímpicos de inverno pode ser reduzido para apenas uma até ao final do século XXI se as emissões globais de gases de efeito estufa não forem drasticamente reduzidas, alertou um estudo publicado na ‘Current Issues in Tourism’, numa altura em que os atuais Jogos Olímpicos, em Pequim, fazem história por serem os primeiros realizados com quase 100% de neve artificial.
O estudo analisou dados climáticos da década de 1920 até hoje, bem como futuros modelos de mudanças climáticas para o final deste século. “As mudanças climáticas estão a alterar a geografia dos Jogos Olímpicos de Inverno e, infelizmente, vão excluir muitas cidades-sede famosas pelos desportos de inverno”, apontou Robert Steiger, da Universidade de Innsbruck, na Áustria, em comunicado. “A maioria dos locais de acolhimento na Europa são projetados para serem marginais ou não confiáveis já na década de 2050, mesmo num futuro de baixas emissões.”
Para a realização do estudo, foi pedido aos atuais atletas de desportos de inverno que avaliassem quais as suas condições preferidas para os desportos olímpicos – esqui alpino, esqui nórdico, esqui estilo livre, combinado nórdico, snowboard alpino e snowboard freestyle – e que classificassem uma série de condições climáticas (por exemplo, neblina, neve fresca em pós, neve tratada quimicamente, superfície gelada, vento…) numa escala de inaceitável a “ideal para desempenho máximo, segurança e justiça”, bem como a temperatura ideal para competir no seu desporto, assim como a temperatura em que considerariam estar inseguros ou injustos.
“Queríamos entender, da perspectiva do atleta, que condições climáticas e de neve tornavam a competição justa e segura”, disse Natalie Knowles, ex-esquiadora canadiana que participou no estudo. A probabilidade de condições injustas e inseguras aumentou em todos os cenários futuros de mudanças climáticas, de acordo com o estudo. No entanto, se nos cingirmos ao Acordo de Paris, os efeitos podem ser significativamente mitigados.
“Num futuro de baixas emissões consistentes com um Acordo de Paris bem-sucedido, apenas 13 dos 21 locais anfitriões (todos no Hemisfério Norte) permaneceriam confiáveis para competições de desportos de neve na década de 2050 e 12 na década de 2080”, escreveram os especialistas.
“O impacto de um cenário de altas emissões foi muito mais pronunciado, reduzindo o número de locais climaticamente confiáveis para 10 na década de 2050 e 8 na década de 2080. O prognóstico para os Jogos Paralímpicos de Inverno, que ocorrem em março após as Olimpíadas, foi muito pior”, pode ler-se no estudo. Num cenário de altas emissões, apenas uma cidade permanece viável para sediar os Jogos Olímpicos de Inverno: Sapporo, no Japão.
“O caminho de altas emissões resulta num resultado muito diferente para a capacidade de fornecer de maneira confiável condições justas e seguras para desportos de neve nos locais dos Jogos Olímpicos de Inverno”, escrevem os autores. “Em meados do século, o número de hosts confiáveis diminui para quatro (Lack Placid, Lillehammer, Oslo e Sapporo) e até ao final do século apenas um local permanece confiável (Sapporo).”
A equipa de investigadores descobriu que 89% dos atletas de inverno já consideram que a crise climática está a afetar as condições de competição, ao passo que 94% temem que isso venha a afetar o futuro dos seus desportos. “Nenhum desporto pode escapar dos impactos de um clima em mudança”, finalizou Daniel Scott, professor de Geografia e Gestão Ambiental da Universidade de Waterloo, Canadá.



