Os aliados da Ucrânia acordaram a transferência de mais de 45 mil milhões de dólares em armamento e material militar ao longo de 2026, num compromisso sem precedentes da comunidade internacional para apoiar a defesa de Kiev face à invasão russa. O novo pacote de ajuda, que estabelece um recorde para um único ciclo de compromissos, foi assumido sem qualquer contribuição financeira dos Estados Unidos, segundo avança o ‘Kyiv Post’.
A decisão foi tomada no âmbito da 32ª reunião do Grupo de Contacto de Defesa da Ucrânia, conhecido como Formato Ramstein, que reuniu 15 países aliados. Estes comprometeram-se a fornecer sistemas de defesa aérea, drones, artilharia, munições, capacidades de guerra aérea e outros equipamentos considerados críticos para o esforço militar ucraniano. De acordo com o ‘Kyiv Post’, parte dos sistemas de alta tecnologia a entregar ao longo dos próximos doze meses será adquirida pelos aliados junto dos EUA através do programa PURL, um mecanismo de vendas militares estrangeiras que permite a posterior transferência de armamento para a Ucrânia, com um custo acrescido superior a 10%.
Desde janeiro de 2025 que as reuniões deste formato deixaram de incluir qualquer ajuda financiada por contribuintes americanos. A administração Trump abandonou a política de apoio robusto a Kiev, substituindo-a por uma abordagem descrita como mais favorável a Moscovo e abertamente crítica da liderança ucraniana. Em declarações recentes, Trump afirmou que a Ucrânia “está a perder” a guerra e deveria aceitar um acordo de paz que implicaria concessões territoriais significativas à Rússia, uma posição que gerou forte reação entre os aliados europeus.
A extensa lista de compromissos anunciada esta semana surge, assim, como uma resposta política e financeira clara a essa mudança de posição da Casa Branca. A Alemanha destacou-se como o maior contribuinte individual, com um pacote de 11,5 mil milhões de euros para 2026, direcionado sobretudo para sistemas de defesa aérea, incluindo mísseis IRIS-T, drones e munições de artilharia produzidas por fabricantes alemães. O financiamento alemão abrange ainda a aquisição de mísseis Patriot de origem americana e munições fabricadas fora da Alemanha.
Num discurso no Parlamento, o chanceler Friedrich Merz sublinhou que a Alemanha não ficará passiva enquanto potências nucleares ditam os termos da segurança europeia, defendendo uma responsabilidade acrescida do país na construção de uma nova ordem continental. Paralelamente, o ministro da Defesa ucraniano, Denys Shmyhal, anunciou a assinatura de acordos adicionais com Berlim no valor de mais de 12 mil milhões de euros, incluindo um contrato de 750 milhões de euros para a produção conjunta de 200 obuseiros autopropulsados Bohdana, montados em chassis de camiões Mercedes-Benz Zetros.
A Noruega apresentou o segundo maior compromisso em termos absolutos, com cerca de 6,4 mil milhões de euros até 2026, sobretudo para a compra de sistemas de defesa aérea e munições através de iniciativas internacionais. Em termos per capita, Oslo lidera de forma destacada o esforço de apoio, seguida por Luxemburgo, Alemanha, Estónia e Lituânia.
O Reino Unido anunciou um pacote de cerca de 700 milhões de euros, financiado parcialmente por ativos russos congelados, destinado prioritariamente ao reforço da defesa aérea ucraniana. Londres tem sido um dos principais fornecedores de sistemas antiaéreos de curto alcance, como o Starstreak, bem como de soluções desenvolvidas durante o conflito, incluindo os sistemas Raven e Greyhawk.
Os Países Baixos comprometeram-se a investir cerca de 700 milhões de euros em drones, dos quais uma parte significativa será aplicada na compra de equipamentos produzidos na própria Ucrânia. Dinamarca, Lituânia e Estónia também anunciaram novos pacotes, abrangendo drones, defesa aérea, munições, desminagem e capacidades de guerra digital.
Entre os contributos de menor dimensão contam-se os do Canadá, Nova Zelândia e Portugal, este último com uma doação de cerca de 9 milhões de euros para drones. A República Checa e a Polónia reafirmaram ainda o apoio continuado à iniciativa checa de fornecimento de munições de artilharia, que em 2024 permitiu entregar até 1,6 milhões de projéteis às Forças Armadas da Ucrânia, com metas adicionais já definidas para 2026.













