Uma parte significativa dos aliados mais próximos dos EUA passou a encarar o país como uma força negativa no cenário mundial, à medida que Donald Trump avança com uma ampla reformulação da política externa americana. É essa a conclusão de novas sondagens internacionais citadas pelo jornal ‘POLITICO’, que revelam um aumento do ceticismo em relação ao papel global de Washington.
Na Alemanha, em França e no Canadá, a maioria dos inquiridos considera que os EUA têm hoje um impacto negativo no mundo. No Reino Unido, embora as opiniões estejam mais divididas, mais de um terço dos entrevistados partilha essa visão crítica. Em paralelo, quase metade dos inquiridos nos quatro países acredita que os EUA tendem a criar mais problemas internacionais do que a resolvê-los.
Segundo o ‘POLITICO’, estes resultados ajudam a medir a forma como a agenda externa de Trump — marcada por uma retórica dura em relação a aliados tradicionais, uma estratégia comercial agressiva e uma postura militar revista — está a ser recebida nas democracias mais próximas de Washington.
Confiança abalada entre aliados históricos
Quando questionados sobre se os EUA apoiam ou desafiam os seus aliados, a maioria dos canadianos afirma que Washington tende a desafiar, posição partilhada por pouco menos de metade dos inquiridos na Alemanha e em França. No Reino Unido, cerca de quatro em cada dez consideram que os EUA desafiam os aliados em vez de os apoiar, enquanto mais de um terço diz que não se pode contar com o país numa crise internacional.
Durante o primeiro ano do novo mandato, Trump voltou a tensionar relações históricas, sobretudo na Europa e no Canadá. Numa entrevista recente ao ‘POLITICO’, o presidente classificou a Europa como um conjunto de países “em decadência”, liderados por dirigentes “fracos”, enquanto a sua Estratégia de Segurança Nacional sustenta que o continente perdeu as suas “identidades nacionais e autoconfiança”.
Em contraste, o documento adota um tom menos agressivo em relação à Rússia, numa altura em que vários aliados europeus alertam para o risco de uma “guerra híbrida” com Moscovo.
Respostas políticas na Europa e no Canadá
Perante este contexto, líderes europeus e canadianos têm vindo a reavaliar estratégias. Na Alemanha, as dúvidas sobre o compromisso dos EUA com a NATO, o apoio vacilante à Ucrânia e a guerra tarifária lançada por Trump reforçaram a pressão para um aumento histórico do investimento em defesa e infraestruturas, impulsionado pelo chanceler Friedrich Merz ainda antes de tomar posse.
Em França, onde o ceticismo em relação aos EUA é antigo, o presidente Emmanuel Macron tem combinado uma diplomacia pessoal com Trump com um discurso mais firme a favor da autonomia estratégica europeia. Oficiais militares franceses admitem que a nova estratégia de segurança americana reforçou a perceção de que algo mudou de forma estrutural na relação transatlântica.
No Reino Unido, Donald Trump continua a ser uma figura profundamente polarizadora, mas o primeiro-ministro Keir Starmer tem evitado confrontos públicos, concentrando-se na negociação de um acordo comercial com os EUA e na coordenação europeia sobre a guerra na Ucrânia.
Já no Canadá, a deterioração das relações foi mais abrupta, alimentada por uma guerra comercial punitiva e por declarações intermitentes de Trump sobre uma eventual anexação. Representantes da indústria descrevem perdas de emprego e de investimento como consequência direta das decisões da Casa Branca.
Divisão interna nos Estados Unidos
Apesar do ceticismo crescente entre aliados, os próprios americanos continuam, em média, a ter uma visão mais favorável do seu país. Cerca de metade considera que os EUA apoiam os aliados e mais de 50% acredita que o país é uma força positiva no mundo.
No entanto, essa perceção varia fortemente consoante a filiação política. Entre os democratas, o pessimismo aumentou de forma acentuada desde o regresso de Trump à presidência. Quase metade dos eleitores que apoiaram Kamala Harris afirma agora que os EUA são uma força negativa no mundo, em contraste com apenas 13% entre os eleitores de Trump.
Segundo responsáveis da ‘Public First’, citados pela ‘POLITICO’, esta mudança rápida revela uma fratura inédita na forma como os próprios americanos avaliam o papel histórico do país. Em apenas um ano, uma parte significativa do eleitorado democrata alterou a sua visão sobre se os EUA foram, ao longo da história, uma força positiva no mundo.














