Vários aliados dos Estados Unidos no Golfo Pérsico manifestaram descontentamento com a forma como Washington conduziu os ataques contra o Irão, alegando que não receberam aviso prévio suficiente para se prepararem para a vaga de mísseis e drones lançados por Teerão em retaliação. A informação foi avançada pela Associated Press.
Segundo responsáveis de dois países da região, citados sob condição de anonimato por se tratar de um assunto diplomático sensível, os governos ficaram particularmente desiludidos com a forma como foi conduzido o ataque inicial ao Irão, ocorrido a 28 de fevereiro. De acordo com essas fontes, os países do Golfo não foram informados antecipadamente da operação militar conjunta dos Estados Unidos e de Israel.
Os mesmos responsáveis afirmaram ainda que os seus governos tinham advertido Washington de que uma ofensiva contra o Irão poderia desencadear consequências devastadoras em toda a região, alertas que, segundo disseram, acabaram por ser ignorados.
Além disso, um dos responsáveis indicou que existe frustração crescente no Golfo com o que consideram ser uma resposta insuficiente por parte das forças norte-americanas para defender os seus parceiros regionais. Segundo essa fonte, na região consolidou-se a perceção de que a operação militar tem estado concentrada sobretudo na proteção de Israel e das tropas norte-americanas, deixando os países do Golfo praticamente entregues à sua própria defesa.
O mesmo responsável acrescentou que o arsenal de mísseis intercetores disponível no seu país está a diminuir rapidamente, descrevendo a situação como preocupante face à intensidade dos ataques.
Reações públicas e críticas à estratégia de Washington
Até agora, as reações oficiais dos governos árabes do Golfo têm sido relativamente contidas. No entanto, algumas figuras públicas com ligações próximas aos respetivos governos têm manifestado críticas abertas à estratégia norte-americana.
Entre essas vozes está o príncipe Turki al-Faisal, antigo chefe dos serviços de informações da Arábia Saudita, que afirmou numa entrevista à CNN que a guerra resulta essencialmente da estratégia israelita. “Esta é a guerra de Netanyahu”, declarou. “Ele conseguiu de alguma forma convencer o presidente a apoiar os seus pontos de vista.”
Os governos do Bahrein, Kuwait, Omã, Qatar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos não responderam a pedidos de comentário.
A Casa Branca rejeitou as críticas. A porta-voz Anna Kelly afirmou que os ataques de retaliação do Irão têm diminuído significativamente desde o início da operação militar.
“Os ataques de retaliação do Irão com mísseis balísticos diminuíram 90%, porque a Operação Epic Fury está a destruir a capacidade do regime para disparar estas armas ou produzir mais”, afirmou. A responsável acrescentou que o presidente Donald Trump mantém contacto estreito com os parceiros regionais e defendeu que “os ataques do regime terrorista iraniano contra os seus vizinhos demonstram como era imperativo eliminar esta ameaça ao nosso país e aos nossos aliados”.
O Pentágono não comentou até agora a situação.
Ataques massivos com drones e mísseis
Desde o início do conflito, o Irão lançou pelo menos 380 mísseis e mais de 1480 drones contra cinco países árabes do Golfo, segundo uma contagem da Associated Press baseada em declarações oficiais. De acordo com autoridades locais, esses ataques provocaram pelo menos 13 mortos.
Além disso, seis militares norte-americanos morreram no domingo no Kuwait depois de um drone iraniano atingir um centro de operações localizado num porto civil, a mais de 16 quilómetros da principal base do Exército dos Estados Unidos no país.
O marido de uma das militares mortas — que integrava uma unidade de abastecimento e logística sediada no estado norte-americano do Iowa — afirmou que o centro de operações atingido era um edifício semelhante a um contentor marítimo e que não dispunha de sistemas de defesa.
A vulnerabilidade de alguns alvos norte-americanos na região foi também reconhecida por responsáveis do Pentágono. Em sessões informativas à porta fechada com membros do Congresso, realizadas esta semana, o secretário da Defesa, Pete Hegseth, e o chefe do Estado-Maior Conjunto, general Dan Caine, admitiram dificuldades em travar as vagas de drones iranianos.
Segundo três pessoas com conhecimento dessas reuniões, os responsáveis disseram aos legisladores que os Estados Unidos não conseguirão intercetar muitos dos veículos aéreos não tripulados que estão a ser lançados, especialmente os drones do tipo Shahed.
Num dos briefings, os dois responsáveis não apresentaram explicações detalhadas quando questionados sobre as razões pelas quais os Estados Unidos pareciam não estar preparados para enfrentar ataques em massa de drones contra alvos na região.
Uma fonte norte-americana familiarizada com a postura de segurança dos Estados Unidos no Golfo explicou que Washington não dispõe de capacidades amplamente distribuídas na região capazes de neutralizar eficazmente grandes vagas de drones suicidas, sobretudo em locais fora das bases militares tradicionais no Iraque e na Síria.
Instalações diplomáticas também visadas
Os ataques iranianos também atingiram instalações diplomáticas norte-americanas. Um ataque com drone contra a embaixada dos Estados Unidos na Arábia Saudita provocou um pequeno incêndio no edifício em Riade.
Outro ataque semelhante nos Emirados Árabes Unidos causou um incêndio de pequena dimensão junto ao consulado norte-americano no Dubai.
Perante a intensidade da campanha aérea iraniana, os Estados Unidos e os seus aliados procuraram inclusive apoio externo. Segundo o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, Washington e parceiros do Médio Oriente pediram ajuda à Ucrânia, que acumulou experiência significativa na neutralização de drones Shahed durante a guerra contra a Rússia.
Donald Trump confirmou essa possibilidade numa entrevista à agência Reuters, afirmando: “Certamente aceitarei qualquer assistência de qualquer país.”
Países do Golfo tornam-se alvos estratégicos
Os países do Golfo tornaram-se alvos particularmente vulneráveis para o Irão, devido à proximidade geográfica e à presença de múltiplos alvos estratégicos no seu território.
Entre esses alvos incluem-se bases militares norte-americanas, infraestruturas energéticas, centros financeiros e turísticos de grande visibilidade internacional, bem como rotas fundamentais para o comércio global de petróleo.
O analista Bader Mousa Al-Saif, especialista sediado no Kuwait e ligado ao centro de estudos Chatham House, considera que os Estados Unidos poderão ter subestimado o risco que a ofensiva contra o Irão representava para os seus aliados árabes.
“Não creio que tenham percebido que os países do Golfo ficariam tão expostos”, afirmou. Na sua opinião, a ausência de um plano robusto para proteger esses países “mostra a falta de visão estratégica dos Estados Unidos”.
Parte da frustração nos países do Golfo resulta também da comparação com Israel, que tem conseguido intercetar uma parte significativa dos drones e mísseis lançados contra o seu território.
Segundo uma fonte com conhecimento do dossiê diplomático, os sistemas de defesa aérea dos países do Golfo são muito menos robustos do que os israelitas. Ainda assim, as autoridades norte-americanas terão ficado surpreendidas com a relutância desses países em responder militarmente ao Irão com ataques diretos.
Possível escalada regional
Alguns antigos responsáveis norte-americanos alertam para o risco de uma escalada regional mais ampla.
Elliott Abrams, que no final do primeiro mandato de Trump desempenhou funções como representante especial para o Irão e para a Venezuela, afirmou que os serviços de segurança dos Estados Unidos e os aliados do Golfo sabiam que Teerão possuía capacidade para lançar ataques significativos.
“Os vizinhos sabiam disso e tinham receio”, disse. “Mas nunca foi claro que o Irão realmente o faria, porque também tem muito a perder.”
Abrams acrescentou que os ataques poderão deixar marcas duradouras nas relações regionais. “Estes ataques vão deixar uma inimizade duradoura e, se continuarem, os países árabes do Golfo podem começar a atacar o Irão.”
Também Michael Ratney, antigo embaixador dos Estados Unidos na Arábia Saudita, considera que os países da região enfrentam um dilema estratégico.
Segundo Ratney, embora os governos do Golfo tenham interesse em ver o Irão enfraquecido, estão igualmente preocupados com os impactos económicos e com a instabilidade provocada pelo conflito.
“O que acontece a seguir?”, questionou. “Os países do Golfo terão de suportar o peso do que quer que aconteça.”














