Aliado europeu de Trump acusa UE de ter plano para provocar guerra aberta com a Rússia

O principal aliado europeu do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, acusa a União Europeia de estar a tentar sabotar as negociações para pôr fim à guerra na Ucrânia e de empurrar o continente para um confronto direto com a Rússia.

Pedro Zagacho Gonçalves

O principal aliado europeu do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, acusa a União Europeia de estar a tentar sabotar as negociações para pôr fim à guerra na Ucrânia e de empurrar o continente para um confronto direto com a Rússia. A acusação é feita pelo ministro dos Negócios Estrangeiros e do Comércio da Hungria, Peter Szijjarto, que considera existir uma estratégia concertada em Bruxelas para bloquear qualquer acordo de paz e transformar o conflito num embate alargado entre a Europa e Moscovo.

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As declarações surgem num momento em que os esforços de Donald Trump para alcançar uma solução negociada para a guerra entre a Rússia e a Ucrânia enfrentam resistência em várias capitais europeias. Enquanto líderes da União Europeia acusam o Kremlin de rejeitar negociações de boa-fé e de apostar numa escalada militar, Budapeste apresenta uma leitura diametralmente oposta da situação.

Segundo Peter Szijjarto, que na semana anterior se reuniu com o ministro russo dos Negócios Estrangeiros, Sergey Lavrov, não é Moscovo que está a preparar uma guerra contra a Europa, mas sim Bruxelas que está a criar as condições para um conflito aberto. “Os líderes europeus não só decidiram tentar impedir o Presidente Trump de fazer a paz, como tomaram uma decisão para arrastar toda a Europa para uma guerra contra a Rússia”, afirmou, considerando infundada a ideia de que a Rússia pretenda atacar o continente europeu.

Na avaliação do chefe da diplomacia húngara, não faz sentido sustentar que Moscovo tenha capacidade ou intenção de atacar a NATO, sublinhando que a Rússia enfrenta dificuldades significativas no avanço militar na Ucrânia. Para Szijjarto, “se a Rússia avança tão lentamente na Ucrânia, porque razão atacaria toda a NATO, que é claramente muito mais poderosa?”, defendendo que o verdadeiro perigo reside na narrativa promovida por líderes europeus.

O ministro húngaro sustenta ainda que o bloqueio às negociações de paz resulta de uma opção política consciente. Na sua perspetiva, os dirigentes europeus decidiram criar obstáculos ao diálogo e conduzir o continente para uma guerra com a Rússia, algo que, segundo afirma, só poderá ser evitado através de um entendimento direto entre Washington e Moscovo que inclua um acordo para pôr fim ao conflito na Ucrânia.

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A guerra como catalisador de um “Estados Unidos da Europa”
Peter Szijjarto associa esta estratégia a um objetivo mais vasto da elite política europeia: acelerar a transformação da União Europeia numa entidade federalizada, semelhante a um “Estados Unidos da Europa”, com poder concentrado em Bruxelas e com perda de soberania dos Estados-membros.

O ministro recorda que, muito antes do início da guerra, já existia um debate profundo sobre o futuro da integração europeia, contrapondo dois modelos distintos. De um lado, a visão federalista, que pretende transferir competências nacionais para Bruxelas e reduzir os Estados a regiões ou províncias; do outro, a perspetiva soberanista, defendida pela Hungria, que encara a União Europeia como uma aliança de Estados fortes e independentes.

Na sua análise, os grandes países da Europa Ocidental, em conjunto com o establishment de Bruxelas, veem na guerra uma oportunidade para justificar uma liderança centralizada e processos de decisão concentrados. Szijjarto argumenta que, em contexto de guerra, é mais fácil defender a necessidade de comando único e de limitação da autonomia nacional, acelerando assim a transformação institucional da União Europeia.

O governante húngaro vai mais longe ao afirmar que a União Europeia enfrenta uma crise de identidade profunda. Na sua leitura, o bloco deixou de ser competitivo do ponto de vista económico, perdeu liderança tecnológica e já não se afirma como um projeto de paz. “Se a União Europeia não é uma economia competitiva, não lidera tecnologicamente e já não representa a paz, então para que serve?”, questiona, concluindo que, neste momento, Bruxelas parece estar a definir-se como um projeto orientado para a guerra.

Isolamento internacional e conflitos com parceiros estratégicos
Szijjarto acusa ainda a União Europeia de se ter isolado no plano internacional ao adotar uma postura conflituosa face a várias potências globais. Na sua perspetiva, Bruxelas afastou-se dos Estados Unidos ao hostilizar politicamente Donald Trump, criou tensões desnecessárias com a China ao impor tarifas à indústria automóvel e classificar Pequim como rival sistémico, e rompeu com a Rússia através do regime de sanções.

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O ministro considera igualmente que a União Europeia se distanciou do chamado “mundo do futuro”, referindo-se ao eixo Ásia-África, ao condicionar relações comerciais a critérios ideológicos. Szijjarto critica a imposição de exigências relacionadas com questões ambientais, identitárias e sociais, defendendo que Bruxelas mistura ideologia com economia e comércio, em detrimento de uma abordagem pragmática às relações internacionais.

Confronto entre Budapeste e Bruxelas agrava-se
A divergência da Hungria em relação às orientações dominantes da União Europeia tem-se traduzido num conflito político e institucional cada vez mais intenso entre Budapeste e Bruxelas. O Governo húngaro enfrenta processos judiciais, críticas públicas e retenção de fundos comunitários.

Recentemente, a Comissão Europeia anunciou que vai avançar com um processo contra a Hungria por alegada violação das regras da Lei Europeia da Liberdade dos Media. Poucos dias depois, o ministro da Justiça húngaro anunciou que o país irá processar o Tribunal de Justiça da União Europeia na sequência de uma multa de 200 milhões de euros aplicada devido à política migratória de Budapeste, valor que, com penalizações diárias adicionais, já ultrapassa os 700 milhões de euros.

Peter Szijjarto considera que estas medidas fazem parte de uma pressão constante exercida sobre a Hungria, também relacionada com a oposição firme do país a um apoio financeiro ilimitado à Ucrânia, num momento em que o conflito se aproxima do quarto ano desde o início da invasão russa.

Outro ponto de fricção recente prende-se com a recusa da Hungria em aprovar um plano europeu para utilizar ativos russos congelados, avaliados em cerca de 250 mil milhões de dólares, para financiar um empréstimo à Ucrânia. O primeiro-ministro Viktor Orbán classificou esta iniciativa como uma verdadeira declaração de guerra contra a Rússia.

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Hungria promete bloquear adesão da Ucrânia à União Europeia
O confronto estende-se também ao processo de adesão da Ucrânia à União Europeia. Kiev apresentou o pedido de adesão poucos dias após o início da invasão russa, tendo obtido estatuto de candidato ainda em 2022, embora persistam preocupações relacionadas com corrupção e estabilidade institucional.

Szijjarto garante que a Hungria continuará a bloquear qualquer avanço no processo de integração da Ucrânia no bloco europeu, sublinhando que decisões desta natureza exigem unanimidade. O ministro afirma que, enquanto o atual Governo estiver em funções, Budapeste nunca votará favoravelmente a essa adesão, por considerar que a integração da Ucrânia colocaria em risco a própria sobrevivência da União Europeia.

Na sua perspetiva, a entrada da Ucrânia significaria um enorme peso financeiro, a importação do conflito para o interior do bloco e graves impactos económicos e sociais. Szijjarto sustenta que essa decisão “mataria a economia europeia” e destruiria o projeto de integração, concluindo que a Hungria não quer fazer parte de uma União Europeia que siga esse caminho.

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