Aliado de Putin ameaça que tropas de paz europeias na Ucrânia “regressarão em caixões”

Dmitry Medvedev reage com ameaças à proposta de envio de forças internacionais para monitorizar um possível cessar-fogo. Moscovo considera qualquer presença militar ocidental em solo ucraniano como uma provocação direta.

Pedro Zagacho Gonçalves

O antigo Presidente da Rússia e atual vice-presidente do Conselho de Segurança do país, Dmitry Medvedev, lançou esta quinta-feira uma ameaça explícita contra os planos discutidos por países europeus para o envio de tropas de paz para a Ucrânia, afirmando que essas forças “regressarão em caixões” caso sejam destacadas para o território ucraniano.

A advertência surge num momento em que líderes europeus e representantes dos Estados Unidos se reúnem em Paris para discutir o futuro da guerra na Ucrânia e possíveis mecanismos de paz. Segundo a imprensa russa, o encontro tem como pano de fundo as negociações em curso entre Washington, Moscovo e Kiev sobre um potencial cessar-fogo.

Medvedev recorreu à rede social X (anteriormente Twitter) para criticar duramente a proposta: “Pelos vistos, o topo da clique fascista da Ucrânia está em Paris a conversar com o Reino Unido, a Alemanha e a França sobre quantos caixões europeus estarão preparados para receber após o envio das tropas da ‘coligação dos dispostos’ para a Ucrânia”, escreveu.

A “coligação dos dispostos” a que Medvedev se refere é um grupo liderado pelo Reino Unido e pela França, que inclui cerca de 15 países e que propôs o envio de tropas para formar uma força de “reasseguramento”. Esta força, de acordo com os planos, só entraria na Ucrânia após um eventual acordo de cessar-fogo, não sendo, à partida, uma força de combate tradicional.

Apesar da natureza supostamente não-combativa da força internacional, Moscovo tem manifestado uma oposição total a qualquer presença militar ocidental em território ucraniano. O vice-ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Alexander Grushko, reforçou esta posição em declarações ao jornal Izvestia, afirmando que “não nos importa sob que rótulo os contingentes da NATO sejam colocados: seja sob a égide da União Europeia, da NATO ou em nome próprio. Se forem colocados em território ucraniano, estarão numa zona de conflito, com todas as consequências inerentes como parte do conflito.”

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Do lado ocidental, a leitura é diferente. O Presidente francês Emmanuel Macron defendeu, a 15 de março, que “a Ucrânia é soberana — se solicitar a presença de forças aliadas no seu território, não cabe à Rússia aceitar ou rejeitar”. Esta posição foi reiterada numa entrevista ao Le Parisien, onde Macron deixou claro que Moscovo não tem legitimidade para vetar o apoio internacional solicitado por Kiev.

Também o governo britânico tem vindo a preparar-se para uma eventual missão no terreno. Segundo revelou uma fonte do executivo ao jornal The Times em março, o Reino Unido prevê destacar mais de 10 mil militares para apoiar a implementação e vigilância de um futuro acordo de cessar-fogo. No entanto, o ministro da Defesa britânico, John Healey, esclareceu a 10 de abril que esses militares não funcionariam como forças de manutenção de paz tradicionais, mas antes como apoio directo às forças armadas ucranianas.

O envio de tropas continua a ser tema de controvérsia, sobretudo numa altura em que os contactos diplomáticos entre Washington e Moscovo parecem ganhar novo fôlego. O Secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, e o enviado especial do Presidente Donald Trump para esta matéria, Steve Witkoff, estão em Paris esta semana para conversações com líderes europeus e conselheiros de segurança. Estas discussões visam explorar possíveis caminhos para o fim do conflito, que se prolonga desde 2022.

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Apesar das movimentações diplomáticas, as palavras de Medvedev marcam uma nova escalada retórica vinda do Kremlin. Fiel aliado de Vladimir Putin, Medvedev tem mantido um discurso cada vez mais beligerante desde o início da guerra, procurando consolidar a sua posição como uma das vozes mais duras do regime russo em matéria de política externa.

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