Alguém ‘queimou’ 107 bitcoins e atirou 6,7 milhões de euros para um buraco negro digital

No mundo das criptomoedas, onde cada movimento fica registado publicamente, há poucas operações capazes de gerar tantas perguntas com tão poucas respostas.

Executive Digest

Uma das operações mais invulgares da história das criptomoedas ficou registada esta semana na blockchain da bitcoin: 107 bitcoins, avaliados em cerca de 6,7 milhões de euros, foram enviados para uma morada considerada um ‘poço sem saída’ digital. A operação, descrita pelo El Confidencial, deixou a comunidade cripto a tentar perceber quem poderia abdicar de uma fortuna desta dimensão.

O envio foi feito a partir de cinco moradas diferentes, todas com fundos parados desde abril de 2014. Depois das transações, as cinco carteiras ficaram com saldo zero. A coincidência temporal chamou a atenção dos observadores, uma vez que todos os movimentos entraram no mesmo bloco, o que sugere que podem ter sido executados pela mesma entidade ou através do mesmo processo técnico.

A morada de destino foi a 1111111111111111111114oLvT2. Apesar de parecer uma morada normal de bitcoin, é conhecida por funcionar como uma ‘burn address’, ou seja, um endereço para onde os fundos podem ser enviados, mas de onde, na prática, não podem ser recuperados.

O que é uma ‘burn address’?

As chamadas ‘burn addresses’ são moradas assumidas como destinos sem retorno. Para voltar a movimentar as moedas enviadas para estes endereços, seria necessário quebrar pressupostos criptográficos fundamentais ou encontrar uma colisão extremamente improvável. Na prática, os 107 bitcoins são considerados perdidos.

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A morada usada nesta operação não era desconhecida. Desde 2010, recebeu mais de 385 mil saídas e nunca gastou nenhuma. Antes deste envio, acumulava cerca de 700 bitcoins. Com a nova transferência, o saldo ultrapassou os 807 bitcoins, reforçando o seu estatuto como um dos grandes cemitérios digitais da rede bitcoin.

Queimar bitcoin não é uma ideia nova no universo das criptomoedas. Alguns projetos já usaram mecanismos de ‘proof-of-burn’ para demonstrar a destruição de fundos e emitir outros ativos digitais. O Counterparty, por exemplo, recorreu em 2014 a uma morada diferente para criar os seus XCP. Ainda assim, a bitcoin não tem uma função específica para retirar moedas de circulação.

Erro técnico, gesto simbólico ou algo mais?

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A ausência de explicação pública abriu caminho a várias hipóteses. Há quem considere que a operação pode ter resultado de um erro durante a recuperação de uma carteira, de uma falha na geração de moradas de troco ou até de um sistema automatizado que interpretou mal uma referência técnica ligada ao Counterparty.

O El Confidencial refere também que a Galaxy Research considerou pouco provável tratar-se de uma manobra fiscal, uma vez que as moedas vinham de 2014 e a sua valorização é evidente.

Outras teorias apontam para a destruição de fundos ilícitos, uma decisão tomada sob coação, motivações religiosas ou uma ação puramente simbólica. Para já, ninguém reclamou a autoria da operação e o mistério continua por resolver.

O que torna este caso tão raro é a dimensão do valor destruído e o facto de as carteiras estarem inativas há mais de uma década. No mundo das criptomoedas, onde cada movimento fica registado publicamente, há poucas operações capazes de gerar tantas perguntas com tão poucas respostas.

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