Alentejo arrisca perder 700 milhões de euros em fundos europeus por deixar de ser região mais pobre

Cortes incidem sobretudo no Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional e no Fundo Social Europeu, com um duplo impacto. Por um lado, o Alentejo terá uma fatia menor dos programas regionais; por outro, diminuem também as taxas de comparticipação comunitária nos projetos financiados, agravando as dificuldades para autarquias, empresas e instituições locais

Revista de Imprensa

O Alentejo deverá ser a única região portuguesa a perder verbas europeias no próximo quadro comunitário, ao abrigo das regras dos fundos de coesão que privilegiam os territórios com menor rendimento. O aumento do Produto Interno Bruto per capita acima do limiar de 75% da média da União Europeia coloca a região numa nova categoria, implicando uma redução estimada em cerca de 700 milhões de euros entre 2028 e 2034.

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De acordo com o ‘Jornal de Notícias’, o crescimento do indicador económico fará com que o Alentejo deixe de ser classificado como região menos desenvolvida, passando a integrar o grupo das regiões em transição, que recebem menos apoios comunitários. No atual quadro financeiro plurianual, relativo ao período de 2021 a 2027, a região beneficia de cerca de 1.100 milhões de euros. No próximo ciclo, a verba deverá cair para menos de metade.

Os cortes incidem sobretudo no Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional e no Fundo Social Europeu, com um duplo impacto. Por um lado, o Alentejo terá uma fatia menor dos programas regionais; por outro, diminuem também as taxas de comparticipação comunitária nos projetos financiados, agravando as dificuldades para autarquias, empresas e instituições locais.

A mudança resulta da média do PIB per capita dos anos de 2022 a 2024, que fixa o Alentejo nos 76% da média europeia. Todas as restantes regiões portuguesas mantêm a sua classificação, incluindo o Norte, que continua abaixo do limiar dos 75% e, por isso, entre os principais beneficiários dos fundos de coesão.

Há vários meses que os responsáveis regionais alertam para este cenário. O presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Alentejo, António Ceia da Silva, já tinha advertido que a passagem a região em transição implicaria uma perda próxima dos 700 milhões de euros. O responsável apontou o peso do desenvolvimento de Sines no crescimento do PIB regional, sublinhando que se trata de um aumento significativo do ponto de vista estatístico.

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No entanto, os dados do Instituto Nacional de Estatística revelam que o salto do PIB do Alentejo não se explica apenas pelo investimento em Sines. O crescimento mais expressivo ocorreu em 2023, coincidindo com a reorganização territorial que levou à criação das regiões da Península de Setúbal e do Oeste e Vale do Tejo. Com a transferência de sub-regiões mais pobres, como a Lezíria do Tejo, o cálculo do PIB per capita do Alentejo passou a assentar sobretudo nas áreas economicamente mais fortes, inflacionando o indicador.

Segundo o INE, o PIB per capita do Alentejo esteve abaixo dos 75% da média da União Europeia desde 2010. Em 2023, primeiro ano após a nova divisão regional, subiu de 73% para 77%, mantendo-se nesse nível em 2024. Este aumento ocorreu antes da entrada em funcionamento do primeiro centro de dados de Sines, que só arrancou no ano seguinte.

A perspetiva de perda de fundos preocupa também a Agência de Desenvolvimento Regional do Alentejo. O seu presidente, João Grilo, tem alertado para a necessidade de repensar o modelo de crescimento da região caso os apoios comunitários diminuam de forma abrupta, admitindo que o impacto poderá ser profundo num território já marcado por fragilidades estruturais.

O futuro dos fundos de coesão está a ser discutido no âmbito do próximo Quadro Financeiro Plurianual da União Europeia. Apesar de a Comissão Europeia não adiantar detalhes enquanto decorrem as negociações, mantém-se o princípio de diferenciação entre regiões mais ricas e mais pobres, deixando o Alentejo numa posição particularmente sensível a partir de 2028.

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