Alemanha prepara-se para a guerra: “Operação Deutschland” define resposta em caso de ataque russo

Ameaça russa é especialmente sentida pelos Estados que fazem fronteira com a Rússia, incluindo as repúblicas bálticas e a Finlândia, mas também por nações mais a oeste, como a Polónia, a Roménia e a Alemanha

Francisco Laranjeira
Dezembro 3, 2025
12:12

A proposta de acordo de paz para a Ucrânia, negociada pelos EUA e ainda em refinamento, está a gerar preocupação na Europa. O receio central é que um cessar-fogo que implique ganhos territoriais para Moscovo — como indica o cenário em discussão — acabe por legitimar o uso da força e incentive futuras agressões russas. Os Governos europeus temem que uma paz imperfeita transmita a Vladimir Putin a ideia de que a pressão militar compensa.

Segundo a publicação ’20Minutos’, esta inquietação reacende um ambiente de tensão que lembra a Guerra Fria e explica o aumento acentuado dos gastos em Defesa por parte de vários países europeus. A ameaça é especialmente sentida pelos Estados que fazem fronteira com a Rússia, incluindo as repúblicas bálticas e a Finlândia, mas também por nações mais a oeste, como a Polónia, a Roménia e a Alemanha.

Serviços de inteligência alertam para risco de guerra com a NATO até 2029

Em novembro, o secretário de Estado da Defesa alemão, Johann Wadephul, avisou no Fórum de Política Externa de Berlim que Moscovo poderá reunir capacidade para atacar um membro da NATO nos próximos quatro anos. A Bundeswehr, as Forças Armadas alemãs, afirma que o ataque russo à Ucrânia em 2022 “mudou radicalmente” o panorama de segurança europeu, definindo a Rússia como a maior ameaça atual à estabilidade do continente.

Esse clima de alerta levou Berlim a desenvolver o OPLAN DEU — Operação Alemanha — um plano de guerra ultradetalhado, com 1.400 páginas, que define a resposta do país em caso de conflito de larga escala na Europa. O documento, classificado como secreto e em atualização permanente, envolve múltiplos departamentos governamentais e especifica procedimentos, prioridades e infraestruturas críticas que requerem proteção especial.

Operação Alemanha prevê trânsito de 800 mil soldados da NATO

A estratégia alemã assume que, perante um agravamento das tensões no flanco leste da NATO, a Alemanha será um corredor fundamental para o destacamento de tropas e equipamentos. O plano prevê a passagem de 800 mil militares da NATO e 200 mil veículos através do território alemão num período de seis meses, com operações coordenadas por estrada, ferrovia, mar e transporte aéreo.

Esta operação exigiria capacidade logística massiva: controlo de tráfego, segurança, abastecimento, manutenção, assistência médica, alojamento e até apoio jurídico. As Forças Armadas sublinham que uma missão desta dimensão só poderá ser concretizada com a participação de empresas civis e com o reforço de setores essenciais, incluindo o transporte rodoviário. O Exército alemão alerta que a dependência atual de motoristas oriundos da Europa de Leste — cerca de 70% — representa um risco em cenário de guerra.

Plano militar inclui mobilização civil e preparação económica

O OPLAN DEU integra componentes militares e civis, prevendo medidas excecionais que vão desde a reorganização da economia até à obrigatoriedade de trabalho em setores críticos. A Bundeswehr reconhece que o plano implicará restrições significativas para a população, mas considera-as essenciais para garantir resiliência nacional e capacidade de resposta rápida.

O comando militar alemão também alerta para sinais de preparação russa, que incluem sobrevoos de drones, atos de sabotagem, espionagem e ataques cibernéticos. Estas atividades, descritas como “configurar o espaço de batalha”, são interpretadas como indícios de operações coordenadas com vista a futuras ações militares.

Rússia acelera produção militar enquanto Alemanha tenta recuperar atraso

Fontes militares citadas no plano afirmam que a Rússia poderá estar pronta para novos avanços militares dentro de quatro a cinco anos, apoiada pela intensificação do seu complexo industrial de defesa. A produção russa de tanques — atualmente cerca de 25 por mês — contrasta com a capacidade alemã, estimada em apenas três unidades por ano.

A Operação Alemanha procura garantir que, em caso de ataque, as forças alemãs e aliadas estejam plenamente operacionais e mobilizáveis no momento crítico, assegurando dissuasão credível e defesa eficaz num ambiente europeu cada vez mais instável.

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