A Alemanha encontra-se sob vigilância reforçada depois de uma fatwa emitida no Irão na sequência da morte do aiatola Ali Khamenei, abatido em ataques conjuntos dos Estados Unidos e de Israel. Especialistas em segurança alertam para o risco de ativação de células adormecidas iranianas na Europa, num contexto em que as autoridades norte-americanas também investigam possíveis atentados com motivações terroristas.
A preocupação aumentou após o Grande Aiatola Nasser Makarem Shirazi ter emitido, a 1 de março, uma fatwa apelando à “guerra santa” contra os Estados Unidos e Israel, responsabilizados pela morte de Khamenei. Segundo a agência estatal iraniana Tasnim News Agency, o decreto religioso declara que todos os muçulmanos estão obrigados a vingar o “sangue do mártir” e identifica Washington e Telavive como “os principais perpetradores deste crime”.
Uma fatwa é uma decisão emitida por uma autoridade religiosa islâmica ou por um académico de alto nível, vinculativa para aqueles que reconhecem a sua autoridade.
Um instrumento com histórico de intimidação e violência
O regime de Teerão tem recorrido repetidamente a este mecanismo como instrumento de intimidação ou de incitamento à violência. Em 1988, o aiatola Ruhollah Khomeini emitiu uma fatwa contra opositores “impenitentes” do regime, o que resultou em execuções em massa.
No ano seguinte, outra fatwa de Khomeini visou o escritor Salman Rushdie, desencadeando protestos globais e ataques violentos contra tradutores e editores da sua obra — incluindo o atentado a tiro contra o editor norueguês William Nygaard — culminando, em 2022, num ataque à faca contra o próprio Rushdie, que sofreu graves consequências de saúde e perdeu um olho.
Especialistas falam em risco elevado de ataques isolados
Perante o novo decreto religioso, especialistas alemães admitem um cenário de risco acrescido. Heiko Heinisch, especialista em extremismo, afirmou à Euronews que considera “relativamente elevado o risco de ataques espontâneos isolados e da ativação de células adormecidas”.
O investigador em terrorismo Nicolas Stockhammer advertiu que a fatwa funciona como “um acelerador para possíveis ataques na Europa”, afetando “redes existentes, simpatizantes e atores híbridos” que se inserem numa “base de apoio difusa e transnacional”.
Por seu turno, Heiko Teggatz, presidente do Sindicato da Polícia Federal Alemã, declarou que “não se pode excluir que o Irão envie pessoas para todo o mundo para realizar ataques terroristas contra instalações israelitas e norte-americanas”.
Ataques sob investigação na América do Norte
As autoridades dos Estados Unidos alertaram para o aumento da ameaça de ataques perpetrados por “lobos solitários” ou pela ativação de células adormecidas. No domingo, registaram-se dois incidentes na América do Norte, cujas motivações continuam sob investigação.
Em Austin, no Texas, um homem matou duas pessoas e feriu outras 14 num bar. O FBI identificou o suspeito como Ndiaga Diagne, de 53 anos, cidadão norte-americano naturalizado, originalmente do Senegal. Segundo responsáveis policiais citados pela CBS News e pela Associated Press, Diagne usava uma camisola com a inscrição “Property of Allah” e uma t-shirt com a bandeira iraniana durante o ataque. No seu veículo foi encontrado um Alcorão.
O FBI está a investigar o caso como potencial ato terrorista, embora as autoridades tenham advertido que o suspeito apresentava antecedentes de problemas de saúde mental. Os investigadores analisam a hipótese de radicalização autónoma.
Horas antes, um ginásio de boxe em Richmond Hill, no Ontário (Canadá), pertencente ao dissidente iraniano-canadiano Salar Gholami, foi alvo de disparos. Não houve feridos. Gholami, organizador de protestos anti-regime em Toronto, declarou à Iran International que acredita tratar-se de “intimidação dirigida a críticos da República Islâmica”. A polícia regional de York confirmou que está a investigar o caso, sem ter ainda identificado suspeitos ou motivações.
Alemanha admite mudança súbita do nível de ameaça
A Alemanha acolhe redes iranianas significativas ligadas ao Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC). Em 2022, um indivíduo identificado como Babak J lançou um cocktail molotov contra uma sinagoga em Bochum, em nome do IRGC. No mesmo ano, foram disparados tiros contra a residência de um rabino em Essen, também com envolvimento do IRGC.
O Ministério do Interior da Renânia do Norte-Vestefália afirmou à Euronews que atualmente “não existem conclusões ou indícios” de ameaças concretas, mas reconheceu que “uma mudança na situação de ameaça” é possível “a qualquer momento” devido à natureza dinâmica dos acontecimentos.
O ministro regional do Interior, Herbert Reul, declarou: “Se houver novos dados, reagiremos imediatamente e reforçaremos as medidas”.
Também o ministro do Interior da Baviera, Joachim Herrmann, afirmou que “não existem atualmente provas concretas de ameaça”, mas assegurou que “as autoridades de segurança estão a acompanhar de perto a evolução”.
O Ministério Federal do Interior alemão garantiu que todas as autoridades de segurança estão “a avaliar continuamente a situação” e permanecem “em elevado estado de alerta”.
Mais de 100 ataques atribuídos ao Irão desde 1979
Heinisch recordou que, desde 1979, se registaram “mais de 100 ataques executados ou frustrados na Europa que podem ser atribuídos ao Irão”. Um relatório do MI5 britânico, divulgado no final de 2024, referia 20 tentativas de ataque iranianas no Reino Unido desde janeiro de 2022.
Heiko Teggatz apelou ao governo alemão para que “suspenda imediatamente todos os programas de admissão em que ONG participem na seleção de pessoas”, mencionando especificamente Afeganistão, Sudão do Sul e Gaza.
Heinisch criticou igualmente falhas políticas: “Os políticos deveriam ter reagido à ameaça iraniana muito mais cedo, colocado a Guarda Revolucionária na lista de organizações terroristas e encerrado todas as mesquitas ligadas ao regime dos mulás, ao IRGC ou ao Hezbollah”.
Apesar do encerramento do Centro Islâmico de Hamburgo, especialistas em segurança afirmam que várias mesquitas na Europa continuam sob controlo direto do regime iraniano.
Num contexto de tensão crescente após a morte de Khamenei e a subsequente fatwa, as autoridades alemãs admitem que o cenário pode alterar-se rapidamente. Para já, não existem ameaças específicas identificadas, mas o alerta permanece elevado perante o risco de radicalização, ações isoladas ou ativação de redes clandestinas ligadas a Teerão.







