África está a ‘rasgar-se’ ao meio: Cientistas detetam movimentos sísmicos profundos sob a Etiópia

Investigadores revelaram novas evidências de que o continente africano está a iniciar um processo geológico de rutura que, ao longo de milhões de anos, poderá dividir a África em duas massas continentais distintas, criando um novo oceano.

Pedro Gonçalves
Junho 29, 2025
15:30

Investigadores revelaram novas evidências de que o continente africano está a iniciar um processo geológico de rutura que, ao longo de milhões de anos, poderá dividir a África em duas massas continentais distintas, criando um novo oceano. O estudo, publicado recentemente na revista científica Nature Geoscience, foi conduzido por cientistas das universidades de Swansea, Southampton e Florença, e aponta para uma série de pulsos de rocha derretida a ascender do manto terrestre sob a região de Afar, na Etiópia — um fenómeno descrito como semelhante a um “coração a bater” no interior da Terra.

Segundo os autores, estas “batidas” profundas de rocha parcialmente fundida estão a exercer pressão ascendente e a contribuir para a separação gradual das placas tectónicas africanas, num processo que, embora lento, já se encontra em marcha.

“A separação vai eventualmente percorrer toda a África. Já começou e está a ocorrer neste momento, embora a um ritmo lento – entre 5 e 16 milímetros por ano – no norte do Rift,” explicou à MailOnline a principal autora do estudo, a geóloga Emma Watts, da Universidade de Swansea. “Este processo de separação da África levará vários milhões de anos até estar completo.”

Uma cicatriz tectónica a nascer no coração de África
A fratura tectónica está a desenvolver-se a partir da região do Grande Vale do Rift, no nordeste da Etiópia, estendendo-se para sul, em direção aos grandes lagos do leste africano, como o Lago Turkana (no Quénia) e o Lago Malawi. O ponto de origem situa-se na região de Afar, onde convergem três rifts tectónicos — o do Mar Vermelho, o do Golfo de Aden e o Rift Etíope — formando o que os geólogos chamam de “junção tripla”.

O estudo baseou-se na recolha de mais de 130 amostras de rochas vulcânicas extraídas ao longo desta região, associada a intensa atividade sísmica e vulcânica. Os investigadores combinaram estas amostras com dados sísmicos já existentes e modelos estatísticos avançados para investigar a estrutura do manto terrestre — a camada viscosa e parcialmente fluida que se encontra entre a crosta e o núcleo da Terra.

“Descobrimos que o manto sob Afar não é homogéneo nem estacionário – ele pulsa,” afirmou Emma Watts. “Estes pulsos ascendem como colunas de rocha parcialmente fundida e são canalizados pelas placas tectónicas em separação.”

África poderá dividir-se em duas massas continentais
Se o processo seguir o rumo previsto pelos geólogos, o continente africano acabará por separar-se em duas massas principais: uma mais pequena, a leste, com cerca de 2,6 milhões de quilómetros quadrados, incluirá países como a Somália, o Quénia, a Tanzânia, Moçambique e parte significativa da Etiópia; a restante, mais extensa, com cerca de 26 milhões de quilómetros quadrados, incluirá a maioria dos atuais 54 países africanos, como o Egipto, a Argélia, a Nigéria, o Gana e a Namíbia.

A separação está já visível na região do Golfo de Aden — um estreito corpo de água entre o Iémen e a Somália — onde o Mar Vermelho desagua. É aí que os investigadores acreditam que se está a formar um novo oceano, a partir da acumulação e solidificação de magma nas fraturas abertas pelas placas em movimento.

Um novo oceano em formação
O manto terrestre, normalmente sólido, comporta-se nesta região como um fluido viscoso devido ao calor intenso e à presença de magma. À medida que as placas tectónicas se afastam, o magma ascende e ocupa o espaço deixado, solidificando-se gradualmente e criando novo fundo oceânico.

“Encontrámos provas de que a evolução destas colunas profundas do manto está intimamente ligada ao movimento das placas por cima delas,” afirmou o coautor do estudo, Dr. Derek Keir, professor de geociências nas universidades de Southampton e Florença. “Isto tem implicações profundas para a forma como interpretamos o vulcanismo à superfície, a atividade sísmica e o processo de separação continental.”

A região de Afar é uma das poucas zonas do mundo onde este tipo de processo pode ser observado ainda em fase inicial. As imagens recolhidas mostram vastas extensões cobertas por lava basáltica recente, evidenciando que o fundo da crosta terrestre ali está já extremamente afinado, prestes a romper.

Apesar de se tratar de um processo que se desenrola a escalas de tempo geológicas — entre cinco a dez milhões de anos — a divisão da África terá consequências profundas na configuração dos continentes e dos oceanos da Terra. A criação de um novo oceano entre as duas massas africanas poderá alterar rotas marítimas, padrões climáticos e ecossistemas em larga escala.

A investigação levanta também novas questões sobre a dinâmica interna do planeta, já que até agora se desconhecia a estrutura detalhada e o comportamento dos chamados “plumes” — colunas de material quente e parcialmente fundido que sobem das profundezas do manto terrestre.

“Durante décadas suspeitávamos da presença de uma ascensão quente sob o Rift, mas só agora começamos a perceber como estas colunas de manto funcionam, como interagem com as placas por cima delas e como contribuem para a génese de novos oceanos,” afirmou Keir.

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