Casos de intoxicação alimentar grave, hospitalizações e até mortes continuam a preocupar especialistas em segurança alimentar nos Estados Unidos, levando alguns advogados que lidam diariamente com vítimas destes incidentes a evitarem completamente determinados alimentos considerados de maior risco.
Segundo dados dos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC), citados pelo HuffPost, cerca de um em cada seis norte-americanos sofre anualmente de doenças transmitidas por alimentos. Todos os anos, estas infeções levam aproximadamente 128 mil pessoas ao hospital e provocam cerca de três mil mortes.
Os profissionais entrevistados trabalham em processos relacionados com intoxicações alimentares, representando vítimas ou aconselhando empresas sobre cumprimento de normas sanitárias. Entre os surtos mais marcantes associados a este tipo de litígios estão o caso da cadeia de fast food Jack in the Box, em 1993, quando hambúrgueres mal cozinhados contaminados com E. coli afetaram mais de 700 pessoas e causaram a morte de quatro crianças, e os surtos registados em vários restaurantes da Chipotle entre 2015 e 2018, que deixaram cerca de 1.100 pessoas doentes devido a E. coli, salmonela e norovírus.
Histórias de contaminação e objetos encontrados em refeições
O advogado de danos pessoais Lem Garcia, da Califórnia, afirmou que já “viu de tudo” em incidentes relacionados com alimentos. Entre os casos que recorda está o de um cliente que encontrou um parafuso escondido dentro de um burrito, bem como outro que descobriu um garfo de plástico triturado numa bebida misturada.
Contudo, o episódio que descreveu como mais alarmante envolveu um cliente que ingeriu um fio metálico escondido num burrito de peixe. Segundo Garcia, o objeto ficou preso no trato digestivo e obrigou a uma cirurgia de emergência para ser removido.
O advogado explicou que estes relatos não servem apenas para provocar repulsa, mas para demonstrar os perigos reais associados à segurança alimentar. “São exemplos reais sobre perigos reais que podem causar danos físicos e emocionais graves”, afirmou, acrescentando que a segurança alimentar “não é algo para ser levado de ânimo leve”.
Garcia reconheceu ainda que o trabalho alterou profundamente os seus hábitos alimentares. Disse que se tornou “a pessoa mais cautelosa à mesa”, garantindo que agora come devagar, dá pequenas dentadas e inspeciona cuidadosamente cada garfada antes de comer.
Também Jory Lange, advogado especializado em segurança alimentar em Houston, admitiu que mais de duas décadas a lidar com estes casos mudaram completamente a sua relação com a comida. “O trabalho que faço tem um enorme impacto nos alimentos que como ou deixo de comer”, afirmou.
Já Heather Bustos, sócia do escritório texano Bustos Law Group, revelou que mantém cuidados rigorosos tanto em casa como no trabalho. A advogada explicou que evita alimentos crus considerados mais suscetíveis à contaminação, como espinafres e melões, e acompanha regularmente os alertas de recolha emitidos pela Administração de Alimentos e Medicamentos dos EUA (FDA).
Os três alimentos que estes especialistas evitam
Entre os vários alimentos considerados problemáticos pelos especialistas surgem ostras cruas, leite não pasteurizado, sumos não pasteurizados, hambúrgueres mal passados, ovos crus e até dispensadores de massa para waffles em hotéis, que alguns classificam como potenciais focos de proliferação bacteriana.
Ainda assim, três categorias destacaram-se como particularmente perigosas.
Rebentos crus
Os rebentos foram apontados como um dos alimentos de maior risco. O advogado Bill Marler afirmou que estes produtos estão frequentemente associados a surtos de grande dimensão em vários países e alertou que ainda não existe uma forma totalmente fiável de garantir que não estão contaminados.
Jory Lange explicou que o problema começa muitas vezes logo nas sementes. Segundo o advogado, as bactérias podem desenvolver-se durante a fase de crescimento e não existe um método garantido para eliminá-las, nem através da lavagem.
Entre os rebentos considerados potencialmente perigosos estão os de alfafa, feijão mungo, trevo e rabanete, todos suscetíveis a contaminação por E. coli, listeria ou salmonela.
O advogado Mark Hirsch revelou ter acompanhado casos em que o consumo de rebentos contaminados provocou danos renais permanentes.
Lange recordou ainda que várias lojas da cadeia Jimmy John’s acabaram por retirar rebentos dos menus depois de sucessivos surtos associados a estes ingredientes.
Sushi de buffet
Os buffets de sushi também figuram entre os alimentos que estes especialistas evitam.
Lem Garcia explicou que peixe cru deixado durante horas à temperatura ambiente representa um ambiente ideal para proliferação bacteriana. Já Mark Hirsch sublinhou que muitos casos de intoxicação alimentar relacionados com marisco resultam de falhas no controlo da temperatura.
Os especialistas admitem, contudo, que o contexto faz diferença. Restaurantes de sushi de maior qualidade e com melhores práticas de conservação tendem a apresentar menos riscos do que buffets “all you can eat” focados sobretudo em preços baixos.
Bill Marler resumiu a diferença dizendo que não compraria sushi numa loja de conveniência, mas aceitaria comer num restaurante especializado e de confiança.
Fruta e vegetais pré-lavados ou pré-cortados
Fruta já cortada e vegetais embalados prontos a consumir são outra das grandes preocupações destes advogados.
O texto recorda que, em 2023, duas pessoas morreram depois de contraírem salmonela associada a melão cantaloupe pré-cortado. Nesse surto, 99 pessoas em 32 estados norte-americanos foram infetadas e 45 acabaram hospitalizadas.
Segundo os especialistas, o principal problema surge quando a casca protetora da fruta é removida, expondo a polpa a bactérias e outros agentes patogénicos.
Bill Marler alertou ainda que quanto maior for o manuseamento de um alimento, maior é também a probabilidade de contaminação ao longo da cadeia de distribuição.
Lem Garcia destacou que os consumidores não sabem durante quanto tempo a fruta cortada esteve armazenada nem em que condições foi preparada. Já Mark Hirsch advertiu que a listeria se desenvolve facilmente em fruta embalada, revelando ter representado clientes que adoeceram gravemente após o consumo destes produtos.
Os especialistas aconselham os consumidores a comprarem produtos inteiros e a lavá-los em casa antes do consumo. Heather Bustos defendeu que frutas e vegetais devem ser sempre lavados, devido à presença de “muitos microrganismos perigosos”.
Bill Marler acrescentou que evita, sempre que possível, espinafres e alfaces pré-lavados embalados, considerando mais seguro comprar os vegetais inteiros e tratá-los em casa. Embora reconheça a conveniência destes produtos, considera que “por vezes não compensa o risco de apanhar salmonela”.
Especialistas pedem atenção, mas sem alarmismo
Apesar dos riscos identificados, os advogados sublinham que o objetivo não é gerar pânico em torno da alimentação.
Mark Hirsch recordou que “a comida é um dos grandes prazeres da vida”, defendendo que algum cuidado e atenção podem ajudar a manter as refeições seguras e agradáveis. O advogado frisou ainda que “nenhuma refeição vale uma ida às urgências”.
Heather Bustos alertou, por sua vez, que os consumidores podem ter uma perceção demasiado otimista sobre os padrões de segurança alimentar nos Estados Unidos. A especialista recomendou a subscrição dos alertas de recolha e segurança emitidos pela FDA e aconselhou a escolha de marcas com padrões rigorosos ou certificações independentes de elevada qualidade.




