Adversários de Putin fogem para o exílio, são presos ou assassinados em circunstâncias estranhas: estes são os mais mediáticos

Oligarcas, jornalistas e antigos espiões da FSB estão entre os alvos alegadamente do Kremlin

Francisco Laranjeira
Março 30, 2022
7:45

Vladimir Putin é o homem mais poderoso da Rússia há um quarto de século, que governa com mão de ferro. A 9 de agosto de 1999, foi nomeado presidente interino pelo então presidente Boris Yeltsin e demorou um ano a conquistar a presidência, com 53% dos votos. Antes, havia sido chefe do FSB, o serviço de inteligência russo que representava a temível KGB da era soviética. Muitos pensaram que iria dar continuidade às reformas democráticas que Yeltsin promovera após o desmembramento da URSS, que iria manter a Rússia no caminho da economia do mercado e da pacificação do Cáucaso… mas a realidade foi outra.

A primeira coisa que fez em 1999 foi desencadear a segunda guerra na Chechénia, um conflito sangrento no qual morreram entre 50 mil e 100 mil civis. “Vamos matar os terroristas até nas casas de banho”, justificou. A popularidade de Putin, durante os 10 anos da guerra, cresceu e venceu a reeleição presidencial de 2004 com 72% dos votos.



O seu sucesso trouxe-se igualmente um aumento dos inimigos mas Putin estava imparável: mesmo com a Constituição contra ele, uma vez que não permitia um terceiro mandato presidencial contra ele, tirou uma carta da manga e escolheu Dimitri Medvedev como presidente, tendo concorrido como chefe do Governo para continuar a administrar o poder nas sombras até retomar à presidência em 2011.

Desde a queda da União Soviética, nenhum presidente da Federação Russa está no cargo há tanto tempo quanto Putin, apesar de nesta segunda fase ter estragado as relações com o Ocidente e multiplicado as crises internacionais. Em primeiro lugar, com a guerra na Geórgia (2008); depois, com as suas críticas à ONU por intervir na Líbia (2011), e, finalmente, como resultado do seu conflito com a Ucrânia tanto em 2014 quanto agora, apesar das reclamações dos demais países europeus.

Por entre as críticas ao seu autoritarismo e repressão policial à oposição, Vladimir Putin acumulou um longa lista de inimigos políticos e não só: alguns tiveram de fugir para o exílio, outros foram presos e não foram poucos os assassinados em circunstâncias estranhas. Estes foram os mais mediáticos:

Valentin Tsvetkov (2002)

Tsvetkov, governador de Magadan, no Extremo Oriente russo, morreu em outubro de 2002, com um tiro no centro de Novi Arbat, uma das ruas mais turísticas e comerciais de Moscovo. A polícia atribuiu o assassinato ao trabalho de uma das máfias que atuam naquela região às margens do Oceano Pacífico. Putin declarou que o assassinato foi um “ataque contra o Estado” e Tsvetkov foi mesmo o líder político mais proeminente a ser assassinado nos 12 anos desde a desintegração da União Soviética.

O tiro fatal foi disparado às 9h15 por um homem de 30 a 35 anos, com aparência eslava e roupas escuras, que viria a ser preso em Marbella no verão de 2006. O organizador do ataque foi Martin Babakejián, que, soube-se mais tarde, recebeu 100 mil dólares para o efeito – utilizou esse dinheiro para se esconder em Espanha até ser extraditado para a Rússia. Em 2008, um tribunal de Moscovo condenou-o a 19 anos de prisão.

Vladimir Golovlyov (2002)

Golovlyov era deputado da Duma e copresidente do partido ‘Rússia Liberal’ quando foi assassinado a 21 de agosto de 2002, num rua de Moscovo – nessa manhã, foi passear tranquilamente o seu cão a um parque perto de sua casa e não voltou. O seu corpo foi encontrado pouco depois, com um bala na cabeça, no bairro residencial de Mitino, onde residem diversas personalidades políticas. Sergei Yuschenkov, copresidente do ‘Rússia Liberal’, assegurou que o “homicídio tinha um caráter político indiscutível”, garantindo que Golovlyov já tinha sido alvo de uma primeira tentativa há alguns meses, tendo sido salvo pelo seu animal de estimação. Conhecido era o desacordo com Putin. Não há suspeitos do assassinato.

Yuri Shchekochikhin (2003)

Shchekochikhin, vice-presidente do Comité de Segurança da Duma, morreu repentinamente aos 53 anos no Hospital Clínico Central do Kremlin. Foi também jornalista do jornal de oposição ‘Novaya Gazeta’, um dos mais famosos defensores dos direitos humanos na Rússia e um incansável combatente do crime e da máfia. Até ao momento da sua morte, nenhuma doença específica havia sido diagnosticada. Os médicos garantiram que a causa era uma forte alergia, embora, segundo os seus colegas, tenha sido envenenado com tálio. A investigação terminou em 2009… sem resultados.

Serguei Yushenkov (2003)

Sergei Yuchenkov, deputado da oposição liberal, foi morto a tiro em Moscovo, tendo sido atingido no peito. Membro do partido ‘Rússia Liberal’, tinha 52 anos e tornou-se um dos políticos mais críticos de Putin por iniciar a guerra contra a Chechénia em 1999. Um ano depois, quatro pessoas foram presas pelo seu envolvimento mas as ligações nunca puderam ser estabelecidas ao Kremlin.

Paul Klebnikov (2004)

Editor da edição russa da revista ‘Forbes’, Klebnikov foi atingido quando um carro passou pelas portas do seu escritório, em julho de 2004, e disparou quando ele saía. Cidadão dos Estados Unidos, foi o 11º jornalista a ser morto na era Putin, segundo o Comité para a Proteção dos Jornalistas. O porta-voz do Departamento de Estado americano, Richard Boucher, indicou que a Casa Branca ofereceu ajuda na investigação mas Moscovo rejeitou. Em 2006, a justiça acusou Khozh-Akhmed Nukhayev, um dos líderes da máfia chechena sobre a qual Klebnikov havia escrito, de organizar o assassinato. A investigação foi reaberta em 2009 mas até agora não teve sucesso.

Alexander Litvinenko (2006)

É o caso mais famoso. A 23 de novembro de 2006, Alexander Litvinenko, antigo espião da KGB, morreu num hospital em Londres, três semanas depois de ter ido a um restaurante com dois agentes dos serviços secretos russos. Segundo a investigação, ingeriu uma dose de polónio-210, material radioativo que destruiu o seu corpo. As provas eram incontestáveis pois foram encontrados vestígios dessa substância na casa e no carro de um dos agentes antes de desaparecer.

Ninguém duvida que foi uma vingança de Putin e do Serviço Federal de Segurança, que o condenaram à morte após as suas revelações e fuga para o Reino Unido. Litvinenko denunciou publicamente que Putin lhe deu a ordem para assassinar o magnata Boris Berezovski. Numa mensagem no seu leito da morte, no hospital londrino, em novembro de 2006, garantiu não ter dúvidas de quem era o culpado: “Podem silenciar um homem mas os gritos de protesto do mundo vão continuar, sr. Putin, nos seus ouvidos para o resto da vida.”

Anna Politkovskaya (2006)

Anna Politkovskaya tornou-se uma das ativistas de direitos humanos mais críticas da guerra da Rússia na Chechénia. A jornalista do jornal ‘Nóvaya Gazeta’ publicou uma série de artigos denunciando os abusos do Exército russo naquele território. “Temia-se que algo acontecesse com ela”, disse a jornalista russa Olga Syrova à ‘ABC’, referindo-se ao assassinato de Politkovskaya, em outubro de 2006, depois de ter sido baleada quatro vezes na entrada do seu apartamento em Moscovo.

Em junho de 2014, a Justiça russa condenou cinco chechenos a diferentes penas de prisão, incluindo duas penas de prisão perpétua, acusados ​​de organizar, preparar e executar o assassinato de Politkovskaya. As autoridades disseram que um homem não identificado pediu a Lom-Ali Gaitukayev, uma das pessoas que o júri considerou culpado do crime, para matar a ativista em troca de 150 mil dólares pelas suas denúncias de violações dos direitos humanos. “Nunca tivemos dúvidas sobre quem a matou, embora algumas pessoas tenham sido presas por supostamente terem sido os seus assassinos. O facto de ter acontecido no aniversário de Putin levou muitos a acreditar que a sua morte tenha sido uma prenda de Ramzan Kadyrov (presidente checheno)”, revelou Syrova, embora Putin tenha negado que o Kremlin estivesse envolvido.

Anastasia Baburova e Stanislav Markelov (2009)

Dois assassinatos em um. O assassino mascarado, em janeiro de 2009, disparou e matou Stanislav Markelov, advogado de direitos humanos conhecido pelo seu trabalho sobre abusos de soldados russos na Chechénia, e executou ainda a jornalista Anastasia Baburova, do mesmo jornal ‘Novaya Gazeta’, quando esta interviu. Markelov representou a família de uma mulher chechena assassinada pelo antigo coronel russo Yury Budanov em março de 2000. Horas antes de ser baleado, ele deu uma conferência de imprensa na qual se opôs à libertação do coronel. As autoridades russas, no entanto, alegaram que os responsáveis ​​pelo assassinato eram membros de um grupo neonazi e dois deles foram condenados.

Natalya Estemirova (2009)

A ativista de direitos humanos e jornalista Natalia Estemirova, que documentou diversos raptos na Chechénia, foi igualmente raptada de sua casa na capital chechena Grozny, em julho de 2009. O seu corpo sem vida foi encontrado horas depois, com tiros na cabeça e no peito, numa estrada. “Só teve tempo de gritar que estava a ser raptada”, garantiu um ativista da organização americana ‘Human Rights Watch’. Tinha 50 anos e documentou raptos, execuções sumárias, torturas e outros abusos contra civis desde a primeira guerra chechena.

Boris Berezovski (2013)

O empresário, cujo assassinato foi supostamente atribuído a Litvinenko na década de 1990, acusou o Kremlin de matar o antigo agente da KGB. Durante anos, ele apoiou a viúva do antigo espião numa investigação sobre a morte do seu marido. Quanto mais se envolvia no esclarecimento dos factos, mais se temeu pela sua vida, a ponto de ter de se exilar na Grã-Bretanha em 2000. Não foi suficiente: foi encontrado em 2013 morto em sua casa, com uma corda ao pescoço. O médico legista não conseguiu determinar se foi ou não suicídio.

A sua namorada, Katerina Sabirova, leu a carta supostamente enviada por Berezovski a reconhecer “ter cometido muitos erros e a pedir perdão”. “Era muito difícil acreditar que ele tinha cometido suicídio”, explicou.

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