Administração Trump censura termos como “mulheres”, “LGBTQ” e “Golfo do México”. Veja a lista das ‘palavras proibidas’

Investigadores da Faculdade de Medicina da Universidade de Harvard apresentaram queixa na justiça contra a Administração Trump, denunciando a remoção de diversos artigos de investigação médica do site governamental Patient Safety Network. Segundo os cientistas, estudos que continham palavras como “trans” ou a sigla “LGBTQ” foram eliminados sem justificativa aparente.

Pedro Gonçalves
Março 17, 2025
19:04

Investigadores da Faculdade de Medicina da Universidade de Harvard apresentaram queixa na justiça contra a Administração Trump, denunciando a remoção de diversos artigos de investigação médica do site governamental Patient Safety Network. Segundo os cientistas, estudos que continham palavras como “trans” ou a sigla “LGBTQ” foram eliminados sem justificativa aparente.

Esta plataforma online é essencial para profissionais de saúde, permitindo a partilha de informação sobre erros médicos, diagnósticos erróneos e tratamentos. No entanto, as diretrizes impostas pela Administração Trump determinaram restrições no uso de certos termos, incluindo em contextos científicos.

O New York Times publicou uma lista com quase 200 palavras banidas pelo governo, com base em diretrizes internas e emails divulgados por membros da Administração. Entre os termos censurados estão “trans”, “LGBTQ”, “racismo”, “anti-racismo”, “diversidade”, “igualdade”, “discriminação” e “discriminatório”. Também expressões como “biologicamente feminino”, “biologicamente masculino”, “discurso de ódio”, “pessoa que amamenta” e “apropriação cultural” foram suprimidas.

Entre as palavras vetadas, encontra-se ainda “mulheres”, um facto que chocou Celeste Royce, professora assistente de obstetrícia, ginecologia e biologia reprodutiva em Harvard. Em declarações à GBH, Royce revelou a sua surpresa ao perceber que um artigo de sua coautoria, publicado há cinco anos, tinha desaparecido do site. “Não me lembro de nada no artigo que pudesse ser controverso, a não ser o facto de se centrar na saúde das mulheres. E, sabe, acho que ‘mulheres’ é uma das palavras censuradas nesta lista”, afirmou.

Curiosamente, enquanto “mulheres”, “feminismo” e “fêmea” foram retiradas dos documentos oficiais, termos como “homens”, “macho” ou “masculinidade tóxica” não aparecem na lista de palavras censuradas.

Outra polêmica gerada pelas novas diretrizes foi a alteração da designação do Golfo do México. No primeiro dia do seu segundo mandato, Donald Trump assinou uma ordem executiva determinando que a região passasse a ser chamada de “Golfo da América”. A decisão foi rapidamente implementada em estados como Luisiana, cujo Departamento de Educação atualizou os currículos escolares em conformidade.

“O Golfo é um motor económico para a Luisiana – ajuda a alimentar o nosso sector energético e a indústria alimentar e de marisco e sustenta gerações de famílias”, declarou Cade Brumley, superintendente de Educação do estado, justificando a alteração curricular. “A atualização dos nossos padrões académicos garante o alinhamento com a liderança do Presidente Trump e do governador Landry, ao mesmo tempo que reforça a importância do golfo para o futuro do nosso estado.”

A censura imposta pela Administração Trump estende-se também a referências históricas. Segundo um artigo publicado na New Republic, o Secretário da Defesa, Pete Hegseth, ordenou a remoção da expressão “Enola Gay” dos sites oficiais do governo. O “Enola Gay” foi o avião responsável pelo lançamento da bomba atómica sobre Hiroxima, e o seu nome tornou-se icônico na história da Segunda Guerra Mundial.

De acordo com a Associated Press, Hegseth enviou uma diretriz para a remoção de cerca de 26 mil imagens e textos dos sites oficiais, um número que pode chegar a 100 mil. “Referências a um galardoado com a medalha de honra da Segunda Guerra Mundial, ao avião Enola Gay e às primeiras mulheres a completar o treino de infantaria dos fuzileiros navais estão entre os conteúdos marcados para eliminação, à medida que o Departamento da Defesa trabalha para excluir materiais sobre diversidade, igualdade e inclusão”, relatou a AP.

A polémica intensificou-se quando se soube que até termos aparentemente neutros, como “institucional”, foram incluídos na lista de palavras proibidas. Para Timothy Noah, autor do artigo na New Republic, esta medida reforça o ataque de Trump contra as instituições democráticas. “Todos sabemos que Trump está determinado a destruir todas as instituições governamentais a que consegue deitar a mão, mas proibir a própria palavra eleva as coisas a um nível superior de fanatismo”, afirmou.

A censura linguística promovida pela Administração Trump representa uma mudança significativa no discurso político e governamental dos EUA. O impacto destas medidas ultrapassa a esfera administrativa, afetando diretamente a investigação académica, a educação e a preservação histórica. Como destacou o New York Times, “as palavras e frases listadas representam uma mudança marcante – e assinalável – no corpus da linguagem utilizada tanto nos corredores do poder do Governo federal como entre os seus funcionários. São um reflexo inequívoco das prioridades desta administração.”

Com esta política de censura, a Administração Trump reforça a sua oposição à chamada “mentalidade woke”, ao mesmo tempo que impõe restrições sem precedentes no vocabulário oficial. Resta saber qual será o impacto duradouro destas medidas na comunicação política e científica dos Estados Unidos.

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