Adam Smith tem razão?

Por Nelson Pires, General Manager da Jaba Recordati

A economia é vertical e o detentor do cliente (restaurante, café , supermercado, etc) detém o poder do capital sob a forma do poder de compra dos clientes. E a ponta do icebergue condiciona todos os sectores que dependem dele, os fornecedores que contribuem para que as cadeias de abastecimento continuem a funcionar, de forma a suprir as necessidades dos clientes e utilizar o seu poder de compra para garantir que as empresas funcionam e a economia progrida. Esta interdependência económica, ou verticalidade, é real mas também preocupante, pois a crise numa área, provoca a crise em todo o sector. Mesmo sabendo que o interesse e empreendedorismo individual (self interest) promovem o crescimento económico e inovação tecnológica durante os momentos de crise, mas podem não ser suficientes. Em momentos de crise, adaptam o modelo de negócios e inovam, empreendem. Adam Smith ilustrou bem este pensamento ao afirmar “não é da benevolência do padeiro, do açougueiro ou do cervejeiro que eu espero que saia o meu jantar, mas sim do empenho deles em promover o seu auto-interesse“. Este conceito de liberdade da iniciativa privada, da concorrência, do sistema bancário, do trabalho, da inovação tecnológica, é arrastado pela “mão invisível” que o mestre criou, para propulsionar a economia. Aquele em que a sociedade exclui quem não respeita os seus valores. E teria total razão, se a economia se movesse numa sociedade moralmente elevada, baseada em valores comunitários ESG (environment, social, governance) bastante desenvolvidos. Haveria pleno emprego e crescimento económico. Mas esta utopia não é real, portanto Adam Smith não tem razão, pois a ambição individual (sem mais) não contribui para o bem geral. Apenas a ambição individual regulamentada e devidamente auditada pelo estado (não centralizada no estado e no seu planeamento, nem pensar), baseada na celeridade da justiça (nas situações de ilegalidade e irregularidade), contribui para o bem geral. Portanto a “mão” tornou-se uma “mão visível”.

A ambição individual + liberdade do empreendedorisno + ESG + regulamentação e efectiva auditoria + sistema fiscal baixo e justo  = riqueza das nações. Ou seja Adam Smith já teve razão. Agora não, ou então tem apenas parcialmente razão. O liberalismo continua a ser o melhor modelo económico mas regulado numa sociedade moralmente desenvolvida. E como tal, é fundamental intervir para criar: uma Justiça célere; um sistema de educação assente num modelo de ensino de conhecimento mas também dos valores sociais e de respeito pelos outros; reconhecimento da tentativa e do erro como forma de empreendedorismo; reeducação social para os valores de integridade e transparência; redução do peso e do intervencionismo do estado; alteração do sistema político com a responsabilização individual dos eleitos (na construção da verdadeira democracia representativa); respeito dos direitos individuais (incluindo direitos civis e direitos humanos); construção de um mercado realmente livre e aberto; promoção “natural” da igualdade de gênero, igualdade étnica e racial, liberdade de expressão, liberdade de imprensa e liberdade religiosa. Em suma, tudo assente na educação dos cidadãos e da sociedade. Ou seja, a educação e a moral são os principais e mais importantes meios de promoção do crescimento económico e não apenas o “auto-interesse”; pois este desregulado, provoca zonas cinzentas dos quais temos muitos exemplos: o “fulano” que foge aos impostos é o “chico esperto”; o agente público que recebe uma “atenção” não está a fazer nada de mal; ou o decisor que aceita “uma cunha” está a agir normalmente.


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