Acessibilidade ao ensino tecnológico precisa-se

Por Munique Martins, campus manager da Ironhack Lisboa

A falta de talento especializado em tecnologia não é novidade, é um desafio constante que, mesmo antes da pandemia e do crescimento do digital, já era sentido pelas empresas. Com a COVID-19, esta situação tornou-se mais evidente, devido a uma onda sem precedentes de adoção de tecnologia por parte das empresas em todos os setores. De acordo com o relatório de 2020 da CompTIA, 40% das empresas contrataram pessoas especializadas em tecnologia durante a pandemia e 66% têm planos de adicionar mais este ano. Desta forma, tendo em conta o crescimento desta área e a escassez de talento, é preciso promover o ensino tecnológico e torná-lo mais acessível, dando a oportunidade a todas as pessoas de ingressar no mundo tech.

Segundo a HESA (Agência de Estatísticas do Ensino Superior do Reino Unido), a taxa de abandono em cursos ligados à tecnologia é consideravelmente mais elevada do que noutras áreas, apontando como algumas das causas a falta de condições financeiras por parte dos alunos e a falta de motivação e entusiasmo com a complexidade das matérias dadas ao longo dos cursos. Também a FOX Business analisou dados da LendEDU e da FundingU, empresas de empréstimo online para estudantes, e concluiu que mais de metade desiste, pois não consegue
encontrar financiamento e os que conseguem acabam por ter de abandonar os estudos para ingressar no mercado de trabalho e pagar esses empréstimos.

Por outro lado, muitas universidades ainda oferecem cursos longos e teóricos, o que pode não só atrasar o retorno do investimento feito pelos estudantes, como atrasar a sua entrada no mercado de trabalho, numa altura em que as empresas procuram talento de forma rápida e com competências práticas. Adicionalmente, é impossível não referir a associação dos cargos tecnológicos ao sexo masculino que ainda persiste, uma perceção pouco positiva quando falamos em combater a escassez de talento. Segundo o 2020 Women in Digital Scoreboard, Portugal está ainda abaixo da média europeia no que diz respeito a mulheres especialistas na área de TIC, com 15,7% contra 17,7%. Posto isto, de que forma podem as escolas, bem como as empresas, tornar o ensino tecnológico mais acessível?

Em primeiro, lugar é preciso incutir o gosto por tecnologia desde criança. Se as profissões do futuro são tecnológicas e digitais, há que enriquecer os alunos mais jovens com essas competências, tanto nas salas de aula tradicionais, com a inclusão de novos currículos no programa, como em atividades extra que possam combater a literacia digital. Em segundo lugar, devem existir mais alternativas aos modelos tradicionais de educação que democratizem o ensino tecnológico. Por exemplo, a promoção de cursos intensivos e bootcamps, que tendem a ser mais curtos e práticos do que um curso superior, podem facilitar a rápida formação de talento especializado e a inserção no mercado de trabalho. Além disso, estes cursos são desenhados para que qualquer pessoa, de qualquer área de formação, com ou sem conhecimentos tecnológicos, possa ingressar nesta que é uma das áreas mais promissoras do futuro.

Por outro lado, é também um dever das escolas, sejam bootcamps ou escolas tradicionais, promover modalidades de financiamento e métodos de pagamento que facilitem a entrada nesta área, para que as condições financeiras dos estudantes não seja um impedimento para aprender novas competências – pagar o curso apenas quando o aluno encontra emprego ou descontos para mulheres são algumas das opções. Neste âmbito, também as empresas têm um papel fundamental a cumprir. Se o futuro é digital e se necessitam de competências tecnológicas, também elas devem apostar na formação dos seus colaboradores, financiando cursos e apostando no reskilling e upskilling das equipas.

Enquanto milhões de pessoas estão desempregadas devido à COVID-19, o mercado tecnológico precisa, o mais rápido possível, de profissionais especializados. Por isso, deve ser objetivo das escolas e empresas democratizarem o acesso à educação tecnológica para todas as pessoas que pretendam ingressar numa área em crescimento, começando a agir agora com medidas práticas que combatam a escassez de talento no mercado

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