A Conferência Episcopal de Portugal (CEP) apresentou hoje formalmente a constituição do novo grupo VITA- Grupo de Acompanhamento das situações de abuso sexual de crianças e adultos vulneráveis no contexto da Igreja Católica em Portugal, liderado pela psicóloga Rute Agulhas.
Na abertura da sessão, o presidente da CEP, D. José Ornelas, destacou que “é uma nova fase” no combate à realidade que anterior comissão independente veio apurar.
“Com a primeira fase da comissão de estudo, ficou clara a nossa determinação de não fechar os olhos perante esta realidade. A determinação de ter o que o Papa Francisco refere como ‘tolerância zero’. E isto não é uma coisa leve para nós, significa um compromisso para tornar possível que isso aconteça. É tratar as sequelas do mal que aconteceu e prevenir, para que não volte a acontecer”, indicou o responsável.
D. José Ornelas explicou que este novo grupo vai dotar a Igreja “de uma competência e capacidade operacional que faz falta”, e que a organização quer que seja a sua “colaboração para resolver este problema, que não é só da Igreja, é de toda a sociedade”.
“Que seja muito claro que este grupo tem todo o apoio da Conferência Episcopal, das comissões diocesanas, dos institutos de vida consagrada, da Igreja no seu conjunto. Outras colaborações serão necessárias, e outras sugestões surgirão, no caminho que vamos fazendo, trilhando outros novos, num setor que tanta falta faz”, terminou D. José Ornelas.
Rute Agulhas tomou a palavra, e agradecendo o trabalho da anterior comissão, que foi “um marco importante, porque permitiu conehcer um pouco melhor a realidade”. A psicóloga afirma que a CEP entende que é “fundamental um grupo de acompanhamento, técnico, isento e autónomo, constituído por leigos, para criar respostas para as vítimas, mas também para agressores, focado na intervenção terapêutica e prevenção de futuras situações abusivas”.
Sobre o nome, a especialista indicou que está relacionado com o Latim ‘vita’, que “associamos a aprendizagem, mudança e superação”. “Queremos ajudar a sobreviver e a cuidar, a capacitar e responsabilizar, reparando os danos causados, para restaurar a dignidade e o bem-estar todos os afetados”, estabeleceu.
A líder do grupo VITA assumiu que os abusos sexuais “são um problema de saúde pública”, pela sua prevalência e impacto, a curto, médio e longo prazo, “para as vítimas, famílias, e sociedade em geral”.
“A igreja é um contexto entre outros onde esta realidade existe”, lembrou Rute Agulhas, sublinhando que a Igreja “assume um papel pioneiro” no combate a estes crimes no seu seio.
A psicólogo avisa ainda que a responsabilidade de combate aos abusos sexuais “extravasa a Igreja”, já que os “os católicos, nas suas vidas familiares, no trabalho, nas relações sociais”, têm também responsabilidades, bem como todos os setores da sociedade “porque todos beneficiamos”.
O grupo terá equipas multidisciplinares, das áreas da psicologia, psiquiatria, serviço social, sociologia e direito, e será subdividido num grupo executivo e num grupo consultivo.
O grupo consultivo, só com três membros, será alargado ao longo da ação, sendo “aberto e dinâmico”, e por isso ajustado “às necessidades que forem sendo sentidas”, explicou Rute Agulhas, admitindo que se recorra a outros especialistas ou até aos próprios menores. “Se desejamos chegar a crianças e jovens, temos de os saber ouvir”, lembrou.
A missão do grupo, isenta e autónoma, será de “intervenção sistémica, com uma posição inclusiva de respeito pela diversidade, para criar e consolidar respostas especializadas, desenvolver recursos, sempre em articulação com as comissões diocesanas e os diversos institutos religiosos. Apesar de não ter uma data de fim, é um grupo temporário”, explicou a psicóloga responsável.
Rute Agulhas clarificou que o grupo VITA terá como objetivos “proteger, prevenir recidivas e prevenir situações abusivas”, com ação em quatro dimensões: de acolhimentos, acompanhamento, formação, e investigação.
No final do ano, em dezembro, será apresentado o primeiro relatório do grupo VITA.
O contacto com o Grupo VITA poderá ser efetuado por via telefónica através do número 915090000 (disponível a partir de 22 de maio, de segunda a sexta-feira entre as 09:00 e as 18:00) e por email: geral@grupovita.pt.
A Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais de Crianças na Igreja Católica validou 512 dos 564 testemunhos recebidos, apontando, por extrapolação, para um número mínimo de vítimas da ordem das 4.815.
Vinte e cinco casos foram reportados ao Ministério Público, que deram origem à abertura de 15 inquéritos, dos quais nove foram já arquivados, permanecendo seis em investigação.
Estes testemunhos referem-se a casos ocorridos entre 1950 e 2022, período abrangido pelo trabalho da comissão.











