Abusos sexuais na Igreja: Comissão Independente já enviou dados pedidos pelo Patriarcado de Lisboa para afastar padres abusadores

A Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais contra as Crianças na Igreja Católica Portuguesa já enviou para o Patriarcado de Lisboa as informações adicionais que haviam sido pedidas sobre os padres que contavam na lista de suspeitos de abusos ainda no ativo.

Pedro Zagacho Gonçalves

A Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais contra as Crianças na Igreja Católica Portuguesa já enviou para o Patriarcado de Lisboa as informações adicionais que haviam sido pedidas sobre os padres que contavam na lista de suspeitos de abusos ainda no ativo.

Segundo adianta Ana Nunes de Almeida, socióloga da Comissão Independente, ao Observador, após o pedido feito pela equipa de D. Manuel Clemente, que recusou afastar os cinco padres que constavam na lista de suspeitos dos crimes ainda no ativo até ter dados adicionais sobre as denúncias, as informações extra já foram enviadas.

Já com todos os dados, pode agora o cardeal-patriarca de Lisboa D. Manuel Clemente tomar ou não a decisão de afastar os padres sobre os quais recaem suspeitas de abuso sexual de menores, e que se mantêm no exercício do ministério.

Para já, em Lisboa e no Porto, não foi tomada nenhuma decisão sofre o afastamento dos 12 padres suspeitos de abusos ainda no ativo (cinco na capital e sete na Invicta), estando os responsáveis a aguardar que lhes cheguem as informações adicionais e mais indícios que permitam confirmar as denúncias feitas pelas vítimas à Comissão Independente.

Ontem, D. Américo Aguiar, bispo-auxiliar de Lisboa, assegurou que “não há dúvida nenhuma” de que os padres suspeitos de abusos sexual de menores ainda no ativo serão afastados da Igreja e sustenta que “é claríssimo” que haverá indemnizações pagas às vítimas dos crimes.

Continue a ler após a publicidade

O afastamento incluirá também, eventualmente, os padres suspeitos de abusos sexuais e que estão no ativo ainda nas dioceses de Lisboa e Porto (cinco numa e sete na outra), e sobre os quais ainda não foi tomada qualquer decisão, estando os responsáveis a aguardar por “mais dados” sobre os envolvidos nas denúncias.

“Depois temos então os cinco, seis sacerdotes que são referidos nessa lista e que podem ser sujeitos à tal proibição do exercício público do ministério. É a chamada suspensão, embora na terminologia formal não se deva utilizar a palavra suspensão”, explica o bispo.

“O senhor Patriarca entregou à comissão diocesana, na passada quinta-feira – dia em que eu deixei, aliás, de ser membro da comissão diocesana, porque uma das decisões da Conferência Episcopal foi a de que os eclesiásticos não fizessem parte das comissões -, a lista que também solicitou de imediato à Comissão Independente dados que pudessem dizer alguma coisa sobre estes sacerdotes”, assegura o bispo auxiliar de Lisboa, sustentando que nos próximos dias a comissão diocesana terminará o seu trabalho de identificação dos casos, e recomendará ao patriarcado os próximos passos a seguir

Continue a ler após a publicidade

Questionado sobre o facto de já muitas dioceses terem tomado iniciativa de afastar padres que constavam da lista de suspeitos de abusos ainda no ativo, Américo Aguiar admite “diferentes realidades” entre as dioceses, mas é direto: “Não há dúvida absolutamente nenhuma que um sacerdote que tenha sido denunciado, e sobre o qual nós tenhamos os dados mínimos, seja afastado do exercício do ministério”.

No entanto, o responsável admite os atrasos na reação da Igreja, e que têm motivado críticas, até do Presidente da República, mas explica que se devem ao cuidado com que o tema está a ser tratado. “O mínimo que se deve fazer para não tomar decisões erradas, e no respeito pelas vítimas, é demorar mais um dia, mais uma semana, mais 15 dias”, sustenta, enquanto promete que “a partir do momento que a comissão diocesana esteja munida das informações mínimas necessárias, as decisões serão tomadas imediatamente”, e os padres de Lisboa que constam da lista de abusadores no ativo sejam devidamente afastados.

Para já, segundo revela D. Américo Aguiar, os sacerdotes identificados não foram ainda contactados. O Patriarcado está a aguardar “mais dados” para poder dizer mais alguma coisa aos envolvidos “do que está numa lista”.

Relativamente à questão das indemnizações, e depois de o Patriarca ter dito que seria insultuoso o pagamento às vítimas, D. Américo Aguiar clarifica o que terá querido dizer o responsável

“A interpretação que faço [das palavras] do Patriarca não é dizer que “não” ou a dizer que “qualquer possibilidade de indemnização é insultuosa”. Entendo que estava a dizer que, quando no conhecimento direto dos casos e das pessoas e como isso nunca foi colocado e até foi negado por alguns, nós estarmos a colocar a questão podia soar a isso. Qual a minha leitura daquilo que significa o dossiê das indemnizações? Eu sou sacerdote e penso: “O que é que Cristo quer que se faça?” Acho que Cristo quer que não abandonemos ninguém que tenha vivido uma situação destas e isso passa por a acompanhar e também passa por um gesto de indemnização que signifique algum conforto, algum paliativo naquilo que foi o horror da sua vivência. A dor não prescreve”, sustenta o religioso, que diz que “é claríssimo” que tem de haver indemnizações pagas às vitimas de abusos sexuais na Igreja.

Continue a ler após a publicidade
Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.