O mais recente inquérito feito pela Fenprof – Federação Nacional dos Professores, aos educadores de infância demonstra que “a opção do governo em abrir jardins de infância foi teimosia desnecessária”, subsistindo ainda muitas dúvidas sobre como vai ser o próximo ano letivo, com início agendado para 14 de setembro.
Num primeiro levantamento realizado junto dos agrupamentos de escolas, a Fenprof já havia afirmado que a reabertura dos jardins de infância, a 1 de junho, apontava que a frequência de crianças ao longo dos 17 dias previstos seria reduzida.
Com o ojetivo de clarificar algumas situações, nomeadamente no que respeita à forma como a preparação para a reabertura foi feita, designadamente o envolvimento das/os educadoras/as de infância e outros intervenientes no processo, a federação fez um segundo inquérito, através do qual confirmou que o número de crianças a frequentar os jardins de infância, na generalidade, não ultrapassou as 30%.
Participaram neste estudo 407 educadoras/es do setor público (84.3%), 62 educadoras/es do setor das IPSS/Misericórdias. (12,8%) e 14 educadoras/es do setor privado lucrativo (2,9%). A recolha de respostas ao questionário, através de plataforma online, decorreu entre os dias 17 e 30 de junho.
A opinião generalizada dos inquiridos é que “as orientações emanadas pelo Ministério da Educação (ME) chegaram tarde”, considerando, tal como a federação, que a situação exigia que tivesse existido “maior agilidade e assertividade” do ME no sentido de “divulgar, tempestivamente, medidas e orientações, contribuindo com isso para um regresso seguro e com confiança às atividades presenciais; o que não sucedeu”, reforça a organização, em comunicado.
Os dados recolhidos mostram ainda a “forma desigual” como as questões foram tratadas de agrupamento para agrupamento, tal como as atitudes diferentes das autarquias, perante a necessidade de rastreio à COVID-19, antes do retorno.
Sobre a questão da desinfeção dos estabelecimentos, equipamentos e materiais, foi possível concluir que a que foi feita através de empresas certificadas aconteceu em muito poucos casos, tendo sido, maioritariamente, atribuída a responsabilidade aos assistentes operacionais dos estabelecimentos, uns com formação específica para o efeito, outros não.
A Fenprof sublinha assim ter existido “uma evidente discricionariedade, consoante os concelhos, o que se traduziu em níveis de proteção e segurança muito diferentes, por vezes bastante mais baixos, o que não se pode aceitar. Significa isto que o facto de o ME se ter limitado a sacudir a sua responsabilidade noutras entidades não permitiu garantir, como se exige, as condições esperadas e necessárias para que, de uma forma inequivocamente segura, todas as crianças e todos os profissionais regressassem aos jardins de infância”.
Verificou-se ainda que o reduzido número de crianças – menos de um terço – que frequentou os jardins de infância nos 17 dias de atividades presenciais, aliado ao facto de as/os assistentes operacionais que normalmente apoiariam o 1º CEB se encontrarem disponíveis para reforçar o apoio prestado ao jardim de infância, permitiram, apesar de tudo, que não surgissem problemas graves de funcionamento.
“Desde já, coloca-se a questão de como vai ser quando, em setembro, em vez de um terço das crianças, comparecer a totalidade das crianças inscritas”, reforça a Fenprof.
Atendendo às respostas ao inquérito, a Fenprof salienta ainda que foi possível perceber que foram diferenciadas as formas que os educadores de infância encontraram para tentar chegar às crianças que ficaram em casa. A educação à distância concretizou-se por via digital (e-mail, WhatsApp, Messenger, contactos via síncrona…) e muito através do uso de telemóvel. mas muitas vezes fazendo chegar a casa das crianças, ou via escola, as propostas de trabalho que eram apresentadas pelos docentes da educação pré-escolar, e que os encarregados de educação iam levantar. “De parte a parte houve um grande esforço para que o prejuízo decorrente da Educação à Distância fosse o menor possível”, ressalva a federação..
Pelo resultado do inquérito no setor privado, foi apurado que as dificuldades e preocupações são genericamente idênticas às do setor público, agravadas por situações especificas, nomeadamente, um horário de funcionamento mais alargado (7.45 horas – 19.00 horas). Esta modalidade, provoca o aglomerado de crianças no mesmo espaço, no início e final do dia, sem qualquer respeito pelas regras de distanciamento; um número reduzido de pessoal docente e não docente, agravado pela aplicação do lay-off simplificado; o funcionamento durante os meses de julho e agosto, contribuindo para um desgaste acrescido de todos os trabalhadores; e o início do ano letivo 2020/21 em setembro, sem que o anterior tenha sido dado por terminado, em muitas instituições, pelas razões conhecidas.



