A yakuza está a desaparecer no Japão. O problema é quem está a ocupar o seu lugar

Durante décadas, a yakuza foi uma das organizações criminosas mais conhecidas do mundo

Francisco Laranjeira

Durante décadas, a yakuza foi uma das organizações criminosas mais conhecidas do mundo. Os seus chefes eram figuras públicas, os clãs controlavam territórios e muitos dos seus membros não escondiam as famosas tatuagens que os tornaram um símbolo da cultura popular japonesa.

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Hoje, esse universo está a desaparecer.

Segundo o jornal ‘El Español’, a yakuza perdeu cerca de 75% dos seus membros nos últimos 25 anos. Em 2025, as autoridades japonesas estimavam existirem apenas 17.600 elementos ativos, muito longe dos mais de 80 mil registados no início do século.

É o nível mais baixo desde que começaram os registos modernos.

Porque está a desaparecer?

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O declínio não resulta de um único fator.

Nas últimas duas décadas, o Japão aprovou legislação que praticamente impede qualquer relação económica com organizações criminosas.

Os membros da yakuza passaram a ter dificuldades em abrir contas bancárias, comprar casa, assinar contratos ou manter relações comerciais legais.

Ao mesmo tempo, a pressão policial aumentou e o recrutamento tornou-se cada vez mais difícil.

Outro problema é demográfico.

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Grande parte dos atuais membros pertence a gerações mais velhas e poucos jovens estão dispostos a integrar uma organização cuja influência e estatuto social diminuíram drasticamente.

Segundo o ‘El Español’, aquilo que durante décadas funcionou como uma estrutura criminosa parcialmente tolerada em determinados setores da sociedade japonesa tornou-se um grupo envelhecido, isolado e em perda constante de poder.

Uma organização criminosa… mas com um papel ambíguo

Apesar do historial de violência, extorsão e tráfico, a yakuza ocupava um lugar muito particular na sociedade japonesa.

Em alguns bairros, funcionava como uma espécie de autoridade paralela, mediando conflitos locais e regulando certas atividades informais.

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Em momentos de grande crise, chegou mesmo a participar em operações de apoio às populações.

Após alguns grandes sismos e tufões, elementos da yakuza ajudaram a distribuir alimentos, remover destroços e organizar apoio logístico antes da chegada das autoridades.

Segundo o ‘El Español’, estas ações nunca apagaram a natureza criminosa da organização, mas ajudaram a construir uma imagem mais complexa do que a de uma simples máfia.

O verdadeiro problema chama-se “tokuryu”

O desaparecimento da yakuza não significou o desaparecimento do crime organizado.

Pelo contrário.

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As autoridades japonesas alertam para o crescimento acelerado dos chamados tokuryu, redes criminosas muito diferentes dos tradicionais clãs da yakuza.

Ao contrário da velha máfia japonesa, estas organizações não têm chefes claramente identificados, não controlam territórios nem mantêm estruturas permanentes.

Funcionam através de pequenas células que comunicam sobretudo por meios digitais e que podem formar-se e desaparecer rapidamente.

Essa flexibilidade torna-as muito mais difíceis de identificar e desmantelar.

Sem rosto, sem território e mais perigosos

Segundo as autoridades japonesas, os tokuryu dedicam-se sobretudo a fraudes, tráfico de droga, burlas online e outros crimes financeiros.

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Em vez de procurarem notoriedade, privilegiam o anonimato.

Essa transformação representa uma mudança profunda no crime organizado japonês.

Durante décadas, a yakuza operava segundo códigos internos rígidos, estruturas hierárquicas e relações de lealdade quase feudais.

As novas redes criminosas seguem exatamente a lógica oposta: estruturas temporárias, altamente adaptáveis e sem qualquer centro de comando visível.

A máfia dos filmes está a desaparecer

Os dados oficiais mostram que, enquanto a yakuza continua a perder membros todos os anos, as detenções relacionadas com redes tokuryu não param de aumentar.

Para as forças de segurança japonesas, o maior desafio já não é combater a histórica máfia retratada em inúmeros filmes de Takeshi Kitano, mas enfrentar um novo tipo de criminalidade que praticamente não deixa rasto.

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Segundo o ‘El Español’, a yakuza não desapareceu completamente, mas deixou de ser o principal rosto do crime organizado no Japão.

No seu lugar está a surgir uma criminalidade do século XXI: menos visível, menos hierarquizada e muito mais difícil de combater.

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