Por José Sacadura, Cofundador e General Manager da Powerdot em Portugal
A transição para a mobilidade elétrica no transporte rodoviário é um caminho sem retorno. Com os veículos 100% elétricos a conquistarem já 14% do mercado da União Europeia em 2024, segundo o mais recente estudo da BCG, a pergunta deixou de ser “se” para ser “quando e a que velocidade”.
Para Portugal, detentor de uma vantagem estratégica única, esta não é apenas uma transição a observar, mas uma oportunidade de liderança a ser conquistada.
O ceticismo em torno dos veículos elétricos está a desvanecer, sendo que hoje, consolidam-se não só como a solução mais ecológica, mas também como a mais competitiva a nível económico. Em pleno 2025, o custo total de um veículo elétrico já é inferior em 75% dos cenários na Europa, um valor que subirá para 91% até 2028. Paralelamente, a inovação tecnológica desmantela mitos persistentes: autonomias superiores a 400 km são agora o padrão, e os carregadores ultrarrápidos reduzem o “abastecimento” a uma breve pausa de minutos.
É, contudo, no capítulo da sustentabilidade que Portugal verdadeiramente se distingue. Com mais de 71% da eletricidade gerada a partir de fontes renováveis em 2024, o nosso país detém um dos sistemas elétricos mais limpos da Europa. Esta realidade transforma cada veículo elétrico em circulação no território nacional num poderoso multiplicador da descarbonização. Conduzir um elétrico deixa de ser apenas uma escolha individual, representando um contributo direto para as metas climáticas nacionais, como o objetivo de alcançar 23% de energias renováveis no consumo final de energia no setor dos transportes até 2030, apoiado por uma matriz energética de referência na Europa.
A aposta na mobilidade elétrica transcende o benefício ambiental. É um pilar fundamental para a nossa soberania energética e resiliência económica. Cada veículo elétrico carregado com energia renovável é um passo em frente na redução da dependência de combustíveis fósseis importados. Na prática, isto traduz-se em menos dependência de mercados externos voláteis, uma balança comercial mais saudável e uma economia mais resiliente a crises energéticas.
No entanto, de nada serve ter a energia mais limpa se não conseguirmos entregá-la de forma eficiente aos veículos. A infraestrutura de carregamento é o campo de batalha onde se decidirá o sucesso desta transição. Apesar de a perceção de uma rede insuficiente, especialmente fora dos grandes centros urbanos, estar a diminuir, é imperativo acelerar a instalação de mais pontos de carregamento em todo o território.
Segundo o relatório da Associação Europeia de Fabricantes de Automóveis (ACEA), “The Automobile Industry Pocket Guide 2025/2026”, em 2024 a União Europeia contava com uma média de dois pontos de carregamento por cada mil habitantes, enquanto Portugal registou apenas 1,1. Esta discrepância evidencia que expandir a rede de carregamento não é um custo, mas um investimento estratégico com múltiplos retornos, gerando emprego local, estimulando a inovação e reduzindo a fatura energética nacional, beneficiando famílias e empresas. Se a Europa ambiciona poupar 45 mil milhões de euros em importações de petróleo até 2035, o impacto para um país historicamente importador como Portugal é ainda mais relevante.
A conclusão é inequívoca. Portugal reúne as condições ideais, pois tem recursos renováveis abundantes, uma crescente consciencialização social e uma aposta já visível na expansão da rede de carregamento. No entanto, o fator crítico é a velocidade dessa expansão, que poderá determinar não apenas o nosso sucesso interno, mas também consolidar o país como um exemplo de liderança europeia na mobilidade elétrica.




