Durante os primeiros anos da pandemia de Covid-19, a Coreia do Norte parecia estar mergulhada numa das fases mais difíceis da sua história recente. O encerramento das fronteiras, a escassez alimentar, as sanções internacionais e o isolamento crescente colocavam uma enorme pressão sobre a população e sobre o regime liderado por Kim Jong-un.
Em 2020, numa rara demonstração pública de vulnerabilidade, Kim Jong-un apareceu na televisão estatal a pedir desculpa aos norte-coreanos. Com lágrimas nos olhos, admitiu que os seus esforços não tinham sido suficientes para aliviar as dificuldades enfrentadas pela população.
“Estou realmente muito arrependido”, afirmou na altura. “Os meus esforços e a minha sinceridade não foram suficientes para libertar o nosso povo das dificuldades das suas vidas.”
Se para muitos observadores internacionais aquele momento parecia refletir fragilidade política, os anos seguintes mostraram uma realidade muito diferente. Segundo especialistas, desertores e documentos analisados pelo New York Times, Kim aproveitou a crise provocada pela pandemia para consolidar o seu poder de forma sem precedentes e, mais tarde, utilizou a aproximação estratégica à Rússia para impulsionar a economia do país.
Pandemia serviu para reforçar o controlo absoluto do regime
O primeiro passo foi o encerramento quase total da fronteira com a China, principal parceiro comercial da Coreia do Norte.
O regime implementou medidas extremas para impedir fugas do país, incluindo ordens para disparar sobre qualquer pessoa que tentasse atravessar ilegalmente a fronteira. Ao mesmo tempo, reprimiu o comércio informal e o contrabando que durante décadas tinham permitido a milhões de norte-coreanos sobreviver à margem da economia estatal.
Desde a devastadora fome dos anos 90, grande parte da população dependia dos mercados paralelos para comprar produtos chineses, obter rendimentos e aceder a conteúdos estrangeiros. Esses mercados tornaram-se igualmente uma importante fonte de informação sobre o exterior.
Kim decidiu desmantelar esse sistema.
Segundo desertores entrevistados pelo jornal norte-americano, o regime restaurou gradualmente o controlo estatal sobre a distribuição de bens, reduzindo drasticamente a autonomia económica dos cidadãos.
Repressão intensificou-se contra conteúdos estrangeiros
A campanha de controlo não se limitou à economia.
O regime endureceu significativamente a repressão contra conteúdos culturais vindos do exterior, especialmente da Coreia do Sul.
Séries televisivas, filmes e música K-pop passaram a ser tratados como ameaças ideológicas. Leis aprovadas durante a pandemia estabeleceram penas extremamente severas para quem consumisse ou distribuísse conteúdos considerados “antissocialistas”.
Segundo testemunhos recolhidos junto de desertores, pessoas acusadas de distribuir dramas sul-coreanos ou músicas K-pop chegaram a ser executadas publicamente.
Kim Jong-un classificou a influência cultural estrangeira como um “cancro maligno” capaz de corromper a juventude norte-coreana.
A preocupação do líder estaria também ligada a questões pessoais. Analistas referem que o regime procurou impedir a divulgação de informações sobre a origem da sua mãe, Ko Yong-hui, nascida no Japão, um facto historicamente sensível numa sociedade marcada pelo ressentimento em relação à ocupação japonesa da península coreana.
Arsenais nucleares continuaram a crescer apesar das sanções
Enquanto reforçava o controlo interno, Kim prosseguia a expansão do programa nuclear e balístico do país.
Durante estes anos, a Coreia do Norte desenvolveu novas gerações de mísseis capazes de atingir a Coreia do Sul e o Japão com ogivas nucleares. O regime continuou também a investir em tecnologias para alcançar o território continental dos Estados Unidos, incluindo submarinos de propulsão nuclear e mísseis balísticos intercontinentais.
Esta evolução consolidou a posição internacional da Coreia do Norte como potência nuclear de facto, algo que muitos especialistas consideram ser uma das maiores vitórias estratégicas de Kim Jong-un.
Guerra na Ucrânia abriu uma oportunidade inesperada
A invasão russa da Ucrânia em 2022 alterou profundamente a posição internacional de Pyongyang.
Com Moscovo a necessitar urgentemente de munições e apoio militar, Kim encontrou uma oportunidade para quebrar parte do isolamento económico e diplomático do país.
A Coreia do Norte forneceu armamento e enviou tropas para apoiar o esforço de guerra russo. Segundo informações dos serviços secretos sul-coreanos, cerca de 16 mil militares norte-coreanos terão participado no conflito.
Em troca, a Rússia forneceu assistência alimentar, petróleo, turistas e, sobretudo, tecnologia militar.
Analistas acreditam que Moscovo está a ajudar Pyongyang a modernizar sistemas de defesa aérea, desenvolver drones militares e construir o primeiro submarino nuclear da história norte-coreana.
Os dois países assinaram ainda um tratado de defesa e cooperação mútua que elevou significativamente o estatuto internacional do regime de Kim.
Relações com Rússia aproximaram novamente Pequim
A crescente aproximação entre Moscovo e Pyongyang teve igualmente impacto nas relações com a China.
Embora Pequim continue a considerar a Coreia do Norte um parceiro difícil de gerir, o aprofundamento da rivalidade entre China e Estados Unidos levou o governo chinês a reforçar novamente os laços com o regime norte-coreano.
O presidente chinês, Xi Jinping, iniciou esta semana uma visita oficial de dois dias à Coreia do Norte, a primeira em sete anos.
Os dois países estão a expandir o comércio bilateral, retomaram ligações ferroviárias e aumentaram os voos entre Pequim e Pyongyang. Está também próxima da conclusão uma nova ponte moderna sobre o rio Yalu, destinada a facilitar o intercâmbio económico e turístico.
Economia cresce ao ritmo mais elevado em oito anos
Apesar de persistirem graves problemas estruturais e níveis elevados de pobreza fora da capital, os indicadores económicos mais recentes apontam para uma recuperação significativa.
Segundo as estimativas mais recentes do banco central sul-coreano, a economia norte-coreana cresceu 3,7% em 2024, o melhor resultado dos últimos oito anos.
A atividade das fábricas de armamento aumentou fortemente devido às encomendas russas, enquanto trabalhadores enviados para a Rússia e para a China continuaram a gerar receitas para o regime.
Paralelamente, o país expandiu operações clandestinas destinadas a obter moeda estrangeira, incluindo contrabando de ouro, exportações ilegais e operações de pirataria informática que, segundo especialistas, renderam milhares de milhões de dólares em criptomoedas.
Sinais de mudança tornam-se visíveis em Pyongyang
Nos últimos anos, Kim Jong-un concluiu vários dos seus projetos emblemáticos.
Foram construídos novos bairros residenciais, estâncias balneares, complexos turísticos, centros termais e enormes explorações agrícolas. Novas torres residenciais surgiram não apenas em Pyongyang, mas também em cidades provinciais.
Segundo analistas que acompanham imagens de satélite e visitantes recentes, há hoje mais veículos a circular, mais postos de combustível, mais equipamentos de construção e maior atividade económica visível.
Na capital, os néons iluminam a cidade com intensidade muito superior à de anos anteriores. Os elevadores dos edifícios altos funcionam várias horas por dia, algo que nem sempre acontecia devido à falta de eletricidade.
Aplicações para smartphones permitem efetuar compras e encomendar refeições ao domicílio, enquanto as cervejarias de Pyongyang registam maior afluência de clientes.
Apesar disso, continuam a existir enormes desigualdades entre a elite da capital e o restante país.
Kim proclama uma nova era para a Coreia do Norte
No congresso do Partido dos Trabalhadores realizado este ano, Kim Jong-un declarou que a Coreia do Norte entrou numa nova fase de prosperidade e confiança.
A liderança norte-coreana passou a defender uma estratégia que combina desenvolvimento económico com reforço militar, resumida na ideia de proporcionar simultaneamente “doces e balas” à população.
Num discurso perante o parlamento do país em março, Kim descreveu os últimos anos como uma “transformação milagrosa” e destacou o aumento do investimento e da construção habitacional.
“O nosso já não é um país suscetível às ameaças dos outros”, afirmou.
Embora muitos dos desafios económicos continuem por resolver e as sanções internacionais permaneçam em vigor, especialistas consideram que Kim Jong-un conseguiu transformar uma das maiores crises da sua liderança numa oportunidade para consolidar o regime, reforçar o poder militar e recuperar parte da economia, alterando significativamente a posição da Coreia do Norte no cenário internacional.













