A terceira missão das universidades

Por Arlindo Oliveira, Professor do IST e Presidente do INESC

As universidades devem ser, por definição, instituições onde o ensino e a investigação são duas dimensões fundamentais. Faz parte da missão das universidades não só educar a próxima geração de cidadãos e profissionais como desenvolver actividades de investigação que permitam avançar o estado do conhecimento, nos seus mais diversos domínios.

Existe, porém, uma terceira missão, não menos fundamental que os do ensino e da investigação: a ligação das universidades ao tecido social e produtivo, através de actividades de transferência de conhecimento e tecnologia para a sociedade e a economia. O modelo em que as universidades são torres de marfim, fechadas à sociedade e isoladas da mesma, é um modelo ultrapassado, que foi já abandonado por todas as instituições que são líderes nas respectivas suas áreas.

É por isso que o lançamento da primeira pedra do Técnico Innovation Center, uma nova infraestrutura dedicada à terceira missão da maior escola de engenharia do país, representa um passo importante não só para o IST mas para Portugal. Este centro, que se irá erguer no local onde agora se encontram os restos da antiga gare do Arco do Cego, permitirá fortalecer a ligação do Técnico à cidade de Lisboa e à sociedade. Será não só uma montra das actividades de investigação e desenvolvimento que têm lugar no IST, mas também um local onde as empresas poderão desenvolver projectos com os alunos, professores e investigadores da escola, num ambiente moderno, agradável e apropriado à troca de ideias, à inovação e à criatividade.

Esta iniciativa, um sonho já antigo do IST e da cidade de Lisboa, peca apenas por tardia. Passaram mais de 10 anos desde que a ideia foi lançada, por ocasião do centenário do Técnico, pelo então presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Dr. António Costa. Nesta década que passou, sucessivas direcções do IST desenvolveram esforços no sentido de criar as condições legais, financeiras e operacionais para que a obra arrancasse. O projecto, com um custo total superior a 12 milhões de euros, foi finalmente tornado possível pelo apoio de um mecenas, a Fidelidade, e de fundos estruturais, vencidos que foram os diversos obstáculos burocráticos e operacionais que são a norma em Portugal, e que tantas dificuldades causam, tanto aos bons como aos maus projectos. O projecto será integralmente executado sem recurso a verbas do Orçamento do Estado, que não são sequer suficientes para pagar os custos operacionais do IST (e das universidades em geral), muito menos para suportar novos investimentos.

Numa altura em que o país discute a melhor forma de usar os fundos do plano de recuperação e resiliência (PRR), é importante que este projecto seja visto como um exemplo. O país defrontar-se-á com enormes dificuldades por falta dos recursos humanos que serão necessários para obter os resultados pretendidos com o PRR, a renovação do tecido empresarial e o fortalecimento da capacidade exportadora. O investimento no sistema educativo, em geral, e no sistema de infraestruturas do ensino superior, em particular, será sempre um dos melhores investimentos possíveis para o futuro do país. Portugal continua a ser um dos poucos países da OCDE, se não mesmo o único, onde um aluno do ensino superior é financiado com um valor inferior ao de um aluno do ensino básico ou secundário. Em grande parte, isto é devido à falta de investimento em infraestruturas técnicas e laboratoriais nas universidades, algo que deveria ser colmatado, usando tanto os fundos do PRR como os do próximo programa quadro.

O futuro do país depende da nossa capacidade para educar as novas gerações numa cultura de inovação e de criação de valor. O Técnico Innovation Center irá, seguramente, contribuir de forma decisiva para esse futuro.

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