Campo Maior voltou a vestir-se de flores. Onze anos depois da última edição, as Festas do Povo regressaram à vila alentejana, que contou com uma cerimónia de inauguração marcada não só pelo reencontro da população com uma das suas tradições mais emblemáticas, mas também pela homenagem ao comendador Rui Nabeiro.
Na cerimónia, que contou com a presença do Presidente da República, António José Seguro, da primeira-dama, Margarida Maldonado Freitas, da ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes, e dos responsáveis autárquicos e da Associação das Festas do Povo, o chefe de Estado destacou Rui Nabeiro como “um dos grandes impulsionadores desta manifestação coletiva”.
A memória do fundador da Delta, falecido em 2023, esteve assim presente num momento que marca o regresso de uma tradição construída durante meses por milhares de habitantes de Campo Maior.
“A sua memória está também, ela, nestas ruas”, afirmou António José Seguro, numa referência ao contributo de Rui Nabeiro para a afirmação das Festas do Povo e da identidade de Campo Maior.
O Presidente da República destacou igualmente o trabalho da população que, durante nove meses, preparou as decorações que agora cobrem as ruas da vila. “Estou deslumbrado com o resultado do vosso empenho, com o vosso talento, com a dedicação de todas as pessoas desta bonita terra de Portugal”, afirmou.
Para António José Seguro, a importância das Festas ultrapassa a dimensão visual. “As Festas do Povo mostram ao país e ao mundo que, quando uma comunidade se une em torno de um sonho comum, é capaz de alcançar resultados extraordinários”, afirmou, acrescentando que “o que aqui se constrói não são apenas ruas enfeitadas, é tecido comunitário”.
Esse espírito coletivo foi também sublinhado por João Manuel Nabeiro, presidente da Associação das Festas do Povo. Segundo o responsável, nove meses de trabalho antecederam a abertura das ruas, envolvendo famílias e várias gerações na produção das flores e restantes elementos decorativos.
O processo culminou na tradicional noite da enramação, durante a qual milhares de pessoas trabalharam pela madrugada para transformar Campo Maior. “A festa, meus senhores, nasceu esta madrugada, entre arames, escadotes, pregos de mão e café sem fim”, afirmou.
João Manuel Nabeiro destacou ainda o caráter coletivo da tradição: “Ninguém trabalhou para si. Tudo o que aqui se fez, fez-se para os outros. Para o vizinho. Para o primo. Para o filho. Para o forasteiro que passa. Para a rua. Para Campo Maior.”
Uma dimensão popular que está na origem das próprias Festas. “Em Campo Maior, as festas não se decretam. Em Campo Maior, as festas só acontecem quando o povo quer”, afirmou o presidente da Câmara Municipal, Luís Rosinha, recordando uma tradição que remonta a 1893 e que passou a ser conhecida como Festas do Povo em 1922.
Reconhecidas pela UNESCO como Património Cultural Imaterial da Humanidade desde 2021, as Festas do Povo são hoje uma das principais manifestações de cultura popular em Portugal. A distinção internacional veio reconhecer uma tradição baseada na criatividade, na participação comunitária e na transmissão de conhecimentos entre gerações.
Para João Manuel Nabeiro, contudo, a essência da festa permanece local. “A UNESCO apenas pôs no papel o que esta vila vive há mais de cem anos”, afirmou.
O responsável deixou ainda uma mensagem sobre a responsabilidade das atuais gerações em preservar a tradição: “É uma festa que não nos pertence, que nos ultrapassa. Foi-nos emprestada por quem cá veio antes, e havemos de entregá-la a quem vier depois.”
No encerramento da cerimónia, António José Seguro deixou também uma mensagem de esperança, desejando que as flores continuem a “abrir caminhos de esperança” e que Campo Maior continue a mostrar que, “quando um povo se une, nada é impossível”.
As Festas do Povo decorrem até 16 de agosto, depois de 11 anos de interregno, voltando a transformar Campo Maior num enorme cenário de flores de papel e a reunir milhares de pessoas em torno de uma tradição que atravessa gerações — e que tem também na memória de Rui Nabeiro uma parte importante da sua história.














