A sociedade da narrativa

Vivemos numa sociedade onde a informação chega a todo o lado, mesmo a quem não a procura. E a esses chega a informação filtrada e por vezes manipulada. Que importa, o desejo de a ter ou de aprofundar não existe.

Por Paulo Carmona

E assim chegamos ao domínio importante das fake news, aquelas que dominam a preocupação cínica de muitos que as produzem, ou se preferirem, ao domínio das narrativas.

Faz-me lembrar a minha infância e as beatas que batiam no peito por Jesus Cristo, pias que só elas, e cá fora eram duma velhacaria extrema, inveja e ruindade. Conheci muitas assim, infelizmente.

Hoje temos muita da nossa esquerda, que bate no peito pelos pobres, pelo ambiente, pelo emprego, pela saúde, etc. como se só eles tivessem as preocupações sociais, e que tal seja uma prerrogativa da superioridade moral de quem nasceu para defender os operários e camponeses. Algo que se nota pelos regimes que apontam como exemplos ou que seguiram essa cartilha ideológica…

E nas questões da saúde, por exemplo, defendem o acesso dos pobres aos serviços de saúde necessários? Só se os hospitais públicos e o SNS conseguirem providenciar. Ao direito dos portugueses à saúde sobrepõe-se a obrigatoriedade de recorrerem ao SNS, mesmo com aumento das listas de espera para operações ou que as máquinas de radioterapia avariem. Precisa urgentemente de ser operado, mas não tem seguro de saúde e não é funcionário público? Aguente. Tem de usar os transportes públicos, mas os comboios ou os barcos foram suprimidos ou avariaram por falta de peças, e não tem carro particular e dinheiro para a gasolina? Aguente. Quer tratar duma adopção, renovar cartão de cidadão ou requerer passaporte e não há ninguém que o atenda? Aguente.

Estas nossas esquerdas são as novas beatas no nosso mundo de narrativas. Pelo amor aos pobres condenam-nos a uma maior pobreza relativa, face aos ricos e a quem tem dinheiro para ter alternativas. Pelo amor maior ao Estado e aos serviços públicos e ódio aos privados, possessos de Satanás…

Saúde e educação, só se forem públicas, mesmo que estejam a rebentar pelas costuras e qualidade desgraçada. Privadas só se forem ricos… estúpidos que não se importam de gastar dinheiro para ter alternativas. Uma liberdade que é sonegada a quem é pobre. Onde está o 25 de Abril?

Este artigo foi publicado na edição de Junho de 2019 da Executive Digest.

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