Pelo Estreito de Ormuz passa cerca de um quinto do petróleo consumido no mundo, e é hoje o barómetro mais visível de um risco que as empresas ibéricas já sentem no dia a dia. A economia da Península Ibérica continua estruturalmente assente na importação de matérias-primas e bens intermédios, uma característica que deixa as nossas empresas numa posição de alguma vulnerabilidade face a perturbações externas. O atual agravamento das tensões no Médio Oriente não é apenas uma questão energética; representa uma severa disrupção do comércio internacional.
Neste ano de 2026, com a generalidade dos analistas a antecipar um abrandamento da economia mundial, o cenário para o tecido empresarial ibérico é exigente. A relevância estratégica do Estreito de Ormuz tornou-se inquestionável. As empresas ibéricas, desde a importação de componentes industriais à exportação de produtos químicos, encontram-se expostas a sobrecustos logísticos. O desvio forçado de rotas traduz-se em tempos de trânsito dilatados, prémios de seguro marítimos elevados e imprevisibilidade nas entregas. Perante este cenário, as empresas são obrigadas a reverem os seus planos de produção e a reforçarem os stocks de segurança.
A esta complexidade logística soma-se o panorama macroeconómico da zona euro. As mais recentes projeções da Comissão Europeia reviram o crescimento do PIB em baixa, para os 0,9%, e a inflação em alta, fixando-a nos 3%. A guerra no Médio Oriente gerou um segundo choque energético em menos de cinco anos, empurrando o petróleo para patamares acima dos 100 dólares por barril, o que afeta severamente a confiança de empresas e famílias. Os dados da Comissão Europeia são claros: a Europa gastou cerca de 6 mil milhões de euros em importações de combustíveis fósseis desde o início do conflito
Para economias como a portuguesa e a espanhola, historicamente mais dependentes do exterior, o impacto é severo. Esta dependência estrutural amplifica o efeito do choque nos preços do petróleo e do gás sobre os custos de produção de setores vitais como a cerâmica, o vidro, a química e a metalurgia — indústrias que pesam significativamente na estrutura exportadora da Península Ibérica.
Consequentemente, a inflação persistente e as taxas de juro elevadas encarecem o crédito às empresas, precisamente num momento em que estas necessitam de mais liquidez para absorver inputs mais caros. A conjugação destes fatores (custos logísticos, energéticos e de capital) exerce uma pressão esmagadora sobre as PME ibéricas. Com menor capacidade para acomodar custos adicionais e reduzido poder negocial junto de fornecedores globais, estas empresas partem para esta fase em desvantagem estrutural. Ficam, por isso, perigosamente expostas a quebras de tesouraria quando os prazos de pagamento se alongam e os preços das matérias-primas disparam.
Hoje, a reconfiguração das cadeias de abastecimento não é apenas um desafio logístico ou operacional; é o verdadeiro teste à gestão de risco financeiro. Garantir a solidez da tesouraria para absorver estas disrupções ditará a sobrevivência e a competitividade das nossas empresas no mercado global.





